Vladimir Putin

O Retorno da História (e um P.S.)

O Retorno da História e o fim dos sonhos, de Robert Kagan (Editora Rocco,  2009, 117 p., R$ 21,50), foi organizado pelo autor em 2008, sobre artigo publicado anteriormente na Policy Review.

O livro versa sobre o cenário internacional pós-Guerra Fria, e a nova composição de forças das potências mundiais, seus alidos, os interesses econômico-financeiros, os militares e de apoio político.

A dissolução da antiga União Soviética pareceu, em primeiro instante, ser o grande passo para que todos os países fossem se integrando, através de laços comerciais, e moldando seus regimes políticos na forma das democracias ocidentais.

Nada disso ocorreu. A Rússia enfraquecida, com Putin retornou à autocracia, reforçada por um conjunto de outros países que passaram a impedir sanções que levassem à mudança de regime em outros continentes. A China ignorou as sanções após os conflitos de 1989 e assumiu mais fortemente um papel preponderante nas relações internacionais, o que levou os vizinhos Japão e Índia a buscar papéis mais atuantes nas relações entre os países asiáticos, incluindo um aumento na militarização de todos.

Irã tornou-se uma potência nuclear. Talvez também a Coréia do Norte.

O livro, porém, é excessivamente datado. Não viu o descrédito que atingiu a União Européia. Mais ainda, fala de uma “certeza” de que alguma força mágica levaria a uma tendência de “democracia” nos moldes ocidentais. Aquilo que seria positivo com uma intervenção em países árabes, para reduzir o papel dos radicais islâmicos. Não viu o fracasso que foram as mudanças ocorridas com a “primavera árabe”, que substituiu antigos ditadores militares por constituições islâmicas fundamentalistas. Iraque, Afeganistão, Tunísia, Líbia, Egito, e atualmente Síria (e também Máli), são alguns dos exemplos fracassados da intervenção de potências ocidentais no mundo islâmico, provocados pela crença de que, com o aumento do fluxo de informação no mundo, haveria a facilidade para que os modelos do Atlântico Norte prevalecessem em países que poderiam servir de base para a alianças de países contra as autocracias russa, chinesa e iraniana.

O autor também ignorou inteiramente o papel das demagocias (democracias demagogas) em países da América e da África, que se unem e reduzem o efeito das sanções comerciais impostas pelas potências tradicionais.

Apesar de ter sido escrito em 2008, quando se dizia que o Brasil era “a bola da vez”, a única menção que Kogan faz ao país é em uma pequena menção de uma busca de apoio da União Européia e a OTAN com outras democracias – “que até agora tiveram comparativamente pouco a ver com as outras para além das áreas do comércio e das finanças”. Essa inserção tão sucinta indica que o Brasil teria, de qualquer modo, o papel de coadjuvante, e não o de protagonista, como insistia a propaganda político-partidária da época.

O título do livro baseia-se na premissa de que, após o fim da Guerra Fria, o que houve foi um retorno da história, com o ressurgimento de nacionalismos, de novas corridas armamentistas e da procura de várias formas de dominação sobre outros países, em geral vizinhos. Nada parecido com o sonho de integração e de cooperação quase irrestrita de que se falava há 20 anos. Nisso o autor acertou em cheio. Assim como acertou quando perguntou

“Que razão havia para acreditar que depois de 1989 a humanidade estivesse, de repente, prestes a entrar em uma ordem completamente nova?”

Não tenho dúvidas de que nos últimos 25 anos demos uma guinada para trás, em termos de História. Talvez porque quanto mais informação, menor o tempo para raciocínio.

P.S. No livro, salienta-se que o desejo de ser potência mundial, na China, na Índia e no Irã, está sempre relacionado com um desejo de vingança contra humilhações de terem sido ocupados por “povos inferiores”. Será que isso produz consistência ao desenvolvimento?