violência

Os cem menores contos brasileiros do século

Os cem menores contos brasileiros do século, organizado por Marcelino Freire (editora Atelie, 2018), é uma coletânea de pequenos textos com até cinqüenta letras, como se escritos no Twitter.
Nem todos são contos, e boa parte seqüência sequer passa de frases falando de homicídios ou de suicídios, que mais retratam a banalização de assuntos sobre violência, que toma conta da enpreimça “tupinambá”.
Um pequeno livro, em todos os sentidos, inteiramente dispensável.

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A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande

Encontrei alguns elogios a respeito de Yuri Vieira e procurei em uma livraria alguma obra sua. A única à venda era “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande” (Editora Record, 2017, 306 p., R$ 44,90).

O livro seria uma coleção de contos, todos porém interligados ao personagem advogado que lhe dá nome.

Os contos têm os seguintes títulos:

  1. O machista feminista – uma longa divagação sobre um ilusionista que finge ser extra-terrestre e fala da invasão islâmica na Europa em um boteco de Vila Madalena;
  2. O Prompt de Comando ou A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande – sobre bullying e racismo;
  3. A teologia da maconha – a respeito de um casal e o vizinho policial;
  4. O pedinte do metrô – uma enxurrada de moralismo do personagem principal em uma viagem de metrô;
  5. A menina branca – o uso excessivo das comunidades sociais e a violência na periferia de São Paulo;
  6. Amarás ao teu vizinho – uma discussão entre ex-vizinhos durante jantar na casa de um ex-militar sérvio; somada à filosofia de um bêbado da vizinhança;
  7. A Satoshi o que é de Satoshi (somente para nerds e geeks) –outra longa divagação, dessa vez sobre bitcoins e a possibilidade de corrupção da justiça, durante um almoço de pizza e cerveja (péssima escolha para um almoço, por sinal, mas normal para o mau gosto gastronômico dos paulistanos).

Confesso que não gostei dos capítulos.
O texto na maior parte é recheado com a preocupação em “escrever certinho”. Sobretudo certinho demais para diálogos.

Os capítulos teòricamente não têm data (embora sejam muito bem datados na contemporaneidade), mas a descrição geográfica é excessiva.
Parece que o autor considera que os assuntos abordados são exclusividade de São Paulo, e não de qualquer outra cidade do Brasil (ou do mundo).
Surpreendente, para alguém que já viveu em diferentes cidades e países.
Já que não o livro não tem data, que tal se não tivesse endereço?
Haveria a eliminação de aborrecidos detalhes sobre o trajeto em automóvel, por exemplo.

Ao longo do texto, Yuri Vieira recheia o desenrolar dos contos com a exposição de suas idéias políticas – nem sempre com muita clareza.

A futura leitura de outra obra poderá me dar uma visão mais clara sobre minha opinião a respeito de Yuri.

A desumanização

Fui falar mal de Válter Hugo Mãe, em O Filho de Mil Homens, e eis que agora tenho de dizer: minha língua estava correta.

A desumanização, escrito em 2013 (Editora Globo – Biblioteca Azul, 2017, 190 p., R$ 44,91) é muito pior, muito mais chato, muito mais arrogantemente pretensioso.

A começar pelo prefácio escrito por um “professor de ética”, que acredita que a falsa empostação de voz e a deliberada ausência de movimentos faciais trazem “ética” aos mentirosos.

O livro narra a história de uma jovem adolescente islandesa, cuja irmã gêmea morreu, e a  deformação mental, moral e social de sua família e da pequena aldeia onde vive.

Outra vez o autor usa e abusa da fórmula de usar expressões líricas, para em seguida inundar o leitor com imagens de violência, ódio e asco.
Aquela conhecida fórmula de “épater le bourgeois”, repetida por “intelectuais”.

Frases curtas, sem a escrita rocambolesca de frases na ordem inversa, do livro que li anteriormente.
Frases porém que se tornam monótonas, por nada trazerem, exceto o falso lirismo da violência.

Além disso, notam-se aqui e ali incoerências no texto, que corroem a trama e o cenário no pano de fundo.

Ô Valtinho, decidi que vou dar um tempo!
Você está besta demais, com tanta pretensão.

Tchau!
Há muitos outros escritores que merecem a minha atenção.
Você se perdeu no meio da fama de auto-bajulação dos “iguais”- ou seja, a fama dos que se consideram superiores.

 

Uma Casa na Escuridão

Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto (Bertrand Editora – Portugal, 2008, 296 p., R$ 51,00) é um livro, como direi, estranho.

O livro é todo estranho.
Um escritor maluco que conversa com uma defunta,
um amigo dele que é pior,
a mãe que só come e dorme.

Mas a forma de escrever é interessante.

É como se fosse um poema longuíssississississimo,
que em cada página repete duzentas e trinta e oito vezes cada frase.

Passadas as primeiras cem páginas, porém, o livro resolve mostrar “o lado obscuro de Darth Vader”, ou de um Quentin Tarantino, sei lá, pois o que era apenas maluquice passa a ser o retrato de violência gratuita, com mutilações de pessoas, como símbolo das capacidades humanas que são perdidas. A capacidade de ouvir, a de amar, a de escrever e de andar, …  Sempre acrescidas das repetições ao longo de cada página, com mais alguns outros personagens mutilados e doentios.

Por que? Para que? Para chocar?

Parece que é mais grave.

Os títulos de outras obras do autor conduzem sempre a essa obsessão com a escuridão e com a morte envolvendo o cenário. Nenhum Olhar, A Criança em Ruínas, Cemitério de Pianos, Morreste-me, …

O que pretende o autor? Fazer experiências é uma das respostas.
Ser reconhecido como cult, claro que também é outra resposta óbvia.
O narcisismo é uma marca do autor, que pode ser comprovada em seu site e suas fotos.
Esbanja na intenção de mostrar a “contra-cultura” da contestação. Bem 1968, ainda… !!!!

Restaram em mim duas impressões, simultâneas e indeléveis: ele escreve bem; podia escrever sobre temas que não ficassem apenas no sur-realismo da violência.

Já temos demasiados problemas para, nas horas de repouso, ainda enfrentarmos a leitura de suas páginas.

Ah, em tempo:
Senhores editoras, não venham com esse “modernismo” de escrever, na capa, com pequenas letras brancas sobre fundo preto.
Um dia os jovens editores também ficarão velhos, e perceberão o quanto é difícil a leitura dessa “obra de arte”, mais repetida do que as frases de J. L. Peixoto.

A História Secreta

A História Secreta, de Donna Tartt (Planeta DeAgostini, 2003, 517 p., R$ 16,90), inicia-se contando que um aluno de uma faculdade em Vermont foi morto por seus colegas do curso de letras clássicas.

A partir daí, o livro retrocede, sempre contado por um dos alunos desse período, para falar das razões que conduziram ao cometimento do assassinato. O resumo completo da trama pode ser encontrado na wikipedia em inglês, inclusive com a descrição do que ocorreu aos outros personagens, por isso não vou me estender nesse assunto. O que importa, porém, é a gama de futilidades, vaidades, mentiras, bem como de compromissos muitas vezes obtidos por meio de chantagens, reais ou emocionais, que permeiam todos os personagens do livro.

Fica no livro a dúvida sobre o que significa de fato amizade, e quanto ela pode ou não ser alterada por circunstâncias as mais diversas.

Curiosamente, ocorrem nestas semanas alterações na legislação de porte de armas nos Estados Unidos, por conta de repetidos casos de violência gratuita que ocorrem em campi universitários ou de escolas secundárias (e, recentemente, também infantis). A sensação que a leitura do livro me transmitiu conduziu-me diretamente a uma hipótese: não são as armas a causa de tantos crimes inexplicáveis na sociedade dos Estados Unidos, mas sim o próprio sistema como as escolas funcionam naquele país.
Quantas outras dezenas de obras, de literatura ou de cinema, já trataram desse assunto? Pois então, parece que a violência não é tão gratuita como falam ociólogos e antropoilógicos, mas parte de um “diletantismo acadêmico”.