Vaticano

O papa de Hitler – a história secreta de Pio XII

Há vários anos, ganhei de um então vizinho O papa de Hitler – a história secreta de Pio XII (John Cornwell, Imago, 472 p., 1999), e desde essa época o livro ficou em estantes. Resolvi agora “desvendar os segredos”, o que se tornou interessante depois de ter lido, há cerca de um ano, O Internacionalismo Vaticano e a Nova Ordem Mundial, de Anna Carletti.

Cornwell ganhou fama de mau escritor com sua polêmica, já que judeus escreveram depois para desmentir a obra do jornalista inglês e a suposta colaboração de Pio XII com relação ao extermínio de judeus, além de muitos outros artigos escritos por estudiosos de diferentes nacionalidades.

Li a tradução, por isso não sei como está no original inglês, mas o livro afirma que o Papa “Pio IX, popularmente conhecido como Pio Nono”. Pois é, Pio IX era conhecido como Pio Nono, e não como Leão Treze, ou João Terceiro, ou Adriano Sexto. Acho que o tradutor não percebeu a “pegadinha” da língua italiana que há em Nono (9.) e Nonno (avô), já que foi Pio IX foi o papa com mais longo reinado na história da Santa Sé. O tradutor tampouco teve tempo para pesquisar que Benedictus é traduzido para o português como Bento, e não como Benedito XV, quando assim chamou o papa eleito em 1914 e que morreu no início de 1922. Fosse hoje em dia ele teria tido a oportunidade de conhecer Bento XVI.

De qualquer forma, ao falar de Pio X (Pio Décimo, capisce?) Cornwell menciona que foi instituído

“uma forma de controle de pensamento que não tinha paralelo nem mesmo nos regimes fascistas e comunistas.”

Como fazer paralelismo entre o pensamento de um papa que morreu em 1910 com regimes políticos que surgiram mais tarde? Pio X inspirou os regimes fascistas e comunistas?

Consta do livro:

O Embaixador britânico em Berlim de 1930 a 1936 achava que Pacelli era “o diplomata mais bem-informado de Berlim”. Segundo a jornalista americana Dorothy Thompson, Pacelli era na verdade “o diplomata mais bem-informado da Alemanha.”

O que quer dizer isso? Fiquei na dúvida: Pacelli era um diplomata a serviço da Alemanha? Confesso que não sei como deve ser interpretado o texto. Redundância? Problema de tradução?

O autor defende categòricamente a tese de que Pacelli era inábil em termos de diplomacia, cargo que exerceu durante a maior parte do tempo em que foi sacerdote, antes do papado. sempre tendendo a favorecer os nazistas e a desprezar e/ou ignorar os problemas dos católicos e dos judeus.

 Como [Klaus] Scholder ressaltou: “diz sobre a habilidade de Pacelli o fato de ambas as partes acharem que ele estava do seu lado”. Não pode haver a menor dúvida, porém, de que a política de Pacelli, avaliada como um todo, era indubitavelmente a favor da conciliação [entre a Igreja Católica e o Reich nazista].

Será que Cornwell esperava que Pacelli, e todo o Vaticano, fizessem uma política de enfrentamento direto com o regime nazista?

O pior de todo o livro é que Cornwell, como muitos “intelectuais”, acha que a História pode ser contada com a visão de “como deveria ter sido, se ocorresse nos dias atuais”.  Isso, porém, é apenas teoria política e econômica, estòrinha da carochinha, não é o que aconteceu.
São muitas as partes do livro em que o autor usou o subjuntivo e o futuro do pretérito. Essa forma de escrever serve apenas para constituir especulações, não História.
Por isso Cornwell foi logo desmentido por tantos outros autores, que não fizeram interpretação de dados recolhidos em arquivos: leram ou narraram o que houve de concreto.

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O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial: a diplomacia pontifícia da Guerra Fria aos nossos dias, de Anna Carletti (FUNAG, 2012, 228 p.), supre uma lacuna nos livros sobre a igreja católica, ao tratar de sua diplomacia, as relações com outros países, com organismos internacionais e também com outras igrejas. Logo no início faz uma interessante apresentação das muitas instituições que auxiliam o papado na condução da igreja e nos assuntos internos e externos do Vaticano.

Ao contrário do que o título sugere, a obra inicia seu estudo com as relações entre o papado e o Império Bizantino, estendendo-se pela história da Europa Ocidental, de Carlos Magno (século VIII) à unificação italiana, quando desapareceram os Estados Pontifícios (1870), e o papa declarou-se “prisioneiro do Vaticano”.

Naturalmente enfatiza o período que se seguiu a essa data, marcando com detalhes o pontificado de todos os papas desde então. Demonstra a influência canônica de Leão XIII e de Pio X, o período internacionalmente conturbado que coincidiu com o reinado de Bento XV, a seqüência dos papados conservadores de Pio XI e Pio XII (relação com o nazi-fascismo), até a reviravolta produzida pela renovação trazida com João XXIII, Paulo VI e o curtíssimo período de João Paulo I. Fala do longo reinado de João Paulo II e do atual período de Bento XVI, concluindo:

Bento XVI luta contra o que ele considera um inimigo invisível, mas presente: o relativismo. Mesmo apresentando elementos de continuidade em relação ao seu predecessor, o pontificado de Bento XVI abandonou a teatralidade dos gestos de João Paulo II, privilegiando tons mais sóbrios, que chamam a atenção mais pelo conteúdo de seus discursos do que pelos gestos do pontífice. O diálogo até discreto com pequenos grupos parece ser a estratégia preferida do papa-professor.

Eu, particularmente, sempre preferi a racionalidade de Ratzinger ao emocionalismo de Wojtyla.

O livro precisaria, contudo, ter tido uma melhor revisão. Mais de uma vez surge a informação – errada – de que “o primeiro papa estrangeiro foi Adriano VI, eleito em 1523”. Em primeiro lugar, o que é estrangeiro? Pedro, que eu me lembre, era da Galiléia, e não tinha cidadania romana. Entre ele e Adriano houve papas africanos, sírios, franceses, espanhóis, etc.. Então, entre Adriano VI e João Paulo II deve-se dizer que o flamengo foi o último papa não italiano antes de Wojtyla.

Em mais de uma vez, também, a autora confunde Núncio/Embaixador DE com Núncio/Embaixador EM.

Erros de regência também são encontrados com freqüência maior do que a desejável em uma obra acadêmica. Não comprometem o conteúdo do livro, mas deixam a desejar com relação à acuidade da obra.