Válter Hugo Mãe

As mais belas coisas do mundo

As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe (ilustrações de Nino Cals, 48 p., R$ 49,90, Biblioteca Azul O Globo, 2019) é um pequeno livro de contos, em que um neto pequeno narra a convivência com o avô.

Os pequenos textos, intercalados pelas ilustrações, tem uma linguagem simples, um pouco bucólica, que envolve o leitor pela poesia em prosa.

Terminada a leitura, nota-se que o pequeno livro tem sensações, e não idéias, como pano de fundo.
Parece uma experiência de auto-ajuda literária.

 

A desumanização

Fui falar mal de Válter Hugo Mãe, em O Filho de Mil Homens, e eis que agora tenho de dizer: minha língua estava correta.

A desumanização, escrito em 2013 (Editora Globo – Biblioteca Azul, 2017, 190 p., R$ 44,91) é muito pior, muito mais chato, muito mais arrogantemente pretensioso.

A começar pelo prefácio escrito por um “professor de ética”, que acredita que a falsa empostação de voz e a deliberada ausência de movimentos faciais trazem “ética” aos mentirosos.

O livro narra a história de uma jovem adolescente islandesa, cuja irmã gêmea morreu, e a  deformação mental, moral e social de sua família e da pequena aldeia onde vive.

Outra vez o autor usa e abusa da fórmula de usar expressões líricas, para em seguida inundar o leitor com imagens de violência, ódio e asco.
Aquela conhecida fórmula de “épater le bourgeois”, repetida por “intelectuais”.

Frases curtas, sem a escrita rocambolesca de frases na ordem inversa, do livro que li anteriormente.
Frases porém que se tornam monótonas, por nada trazerem, exceto o falso lirismo da violência.

Além disso, notam-se aqui e ali incoerências no texto, que corroem a trama e o cenário no pano de fundo.

Ô Valtinho, decidi que vou dar um tempo!
Você está besta demais, com tanta pretensão.

Tchau!
Há muitos outros escritores que merecem a minha atenção.
Você se perdeu no meio da fama de auto-bajulação dos “iguais”- ou seja, a fama dos que se consideram superiores.

 

O filho de mil homens

O filho de mil homens, de Válter Hugo Mãe (Cosac Naify, 2012, 208 p., R$ 21,00) é o que eu diria, em poucas palavras: Ô livro chato!

Nada contra o autor. Bem o contrário: gosto muito desse escritor lusitano.

Nada contra o tipo do romance, que percorre uns 20 anos para contar a vida de vários personagens de uma não-identificada cidadezinha a beira mar, que se entrelaçam em relações e em diferentes gerações.

O texto porém é um festival de preconceitos daquela gente interiorana do litoral (acho que era o objetivo do retrato que o autor fez), não poucas vezes em níveis chocantes.

Pior, a redação em sentido inverso amiúde o leitor confunde e a reler toda a frase o obriga.

Por um lado o livro quer ser realista, e de outro quer mostrar lirismo na louca fragilidade dos personagens.

Não deu samba, nem fado. Ficou petulante como um afroflamenco polifônico.

 

Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticos é o último lançamento de Valter Hugo Mãe (outubro de 2016 – Biblioteca Azul da Editora Globo, 190 p., R$ 44,00, ).

Um livro que descrevo como pesado igual a sopa de chumbo derretido no café da manhã, ou como um edredon (kakebuton; futon, em japonês) fabricado de tijolos de cromo (o mineral).
Dois japoneses vizinhos em um lugar pavoroso, ao lado da Floresta do Suicidas.
Um é pobre e faz leques de bambu, e o outro é miserável, faz tigelas e as pinta.
Um cuida de uma irmã cega, e o outro teve a mulher morta por um urso que invadiu a aldeia, e cultua o quimono da falecida.
Enquanto isso, um vizinho discretamente odeia o outro.

MAS o livro é poesia pura!
Você vai deslizando as páginas como se fossem os relatos mais doces do mundo.

O texto, porém, segundo a forma saramaguiana da escrita de Válter Mãe, sem pontos de interrogação, sem travessões, e com uma infinidade de frases muito curtas, pelo não uso de conjunções, – linguagem poética à parte no meio do texto em prosa – torna-se muitas vezes entediante, sobretudo na metade do livro.

Ressalto, porém, que a leitura deste livro é recomendável. Uma verdadeira obra de arte, como os leques de Itaro e os jardins cultivados por Saburo.

 

 

A Máquina de Fazer Espanhóis

livro007Válter Hugo Mãe não gosta de Letras Maiúsculas. Foi assim que ele escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”.  Sem Maiúsculas e apenas com Vírgulas e Pontos, nada de Interrogações, Exclamações, Travessões ou Aspas.

Assim como eu, porém, posso agora aqui me distrair, ele também deu suas Derrapadas, e todo o Capítulo Cinco conheceu a Utilidade das Letras Maiúsculas, que os Alemães sabem tão bem cultivar quando escrevem os Substantivos. Também o Capítulo Dezassete conhece Letras Maiúsculas, usadas nos Nomes próprios. Por que Policiais e Jogadores de Futebol merecem essa Deferência de Mãe?
Afinal de contas, faz alguns Milênios que deixamos de lado a Escrita Cuneiforme, e passamos a conhecer a Utilidade das Letras Maiúsculas e da Pontuação, embora alguns Portugueses, como Mãe considerem isso supérfluo, copiando o Mestre (dele) josé saramago (sal amargo), tão queridinho de Intelectuais.

A Máquina de Fazer Espanhóis“, (Cosac Naify, 2015, 255 p., R$ 21,00) é um Livro dolorido. Como conclui o Personagem Principal, provoca Angústia.
Em Primeira Pessoa, narra a História de António Jorge da Silva, um Barbeiro aposentado, Octogenário, que é enviado pelos Filhos para uma “Casa de Repouso”, quando enviúva. A Filha resume Toda a Vida do Pai (o Filho mora na Grécia e sequer foi ao Funeral da Mãe), em duas Malas de Roupas, e uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Este Silva passa um Período de Silêncio, revoltado com a Situação, e desejando muito expressar a Necessidade do Luto que sente com a Morte de Laura, com quem vivera 48 Anos.

Alguns Capítulos são marcados pelas Lembranças da Vida deste Silva, durante o Salazarismo, e mesclam-se com as Narrativas do Quotidiano no Asilo, chamado de Feliz Idade, e de cujas Janelas os Internos avistam o Cemitério que fica ao lado.
Os outros Personagens mesclam-se nas Narrativa sobre os Internos, lúcidos ou senis, e sobre o Passado. Encaixa-se aí um tal Ricardo que Silva, do alto de sua sempiterna Covardia, denunciara à Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), trazendo-lhe permanentes Remorsos.Os Internos sucedem-se nas Mortes, algumas Vezes suspeitas e violentas, e nas novas Internações que ocupam as Vagas deixadas, embora alguns Fantasmas desses Moradores rondem a Vida dos que ficaram.
Dentre eles há a Figura de Esteves, um Senhor Centenário, que afirma (falsamente) ter sido Inspiração para que Álvaro de Campos / Fernando Pessoa escrevesse o Poema Tabacaria.

Nas Conversa entre Silva e Esteves, há a Clareza de que o nosso Inimigo é o Corpo, porque o Corpo é que nos ataca. Estamos finalmente perante o mais terrível dos Animais, o nosso próprio Bicho, o Bicho que somos, que decide que é chegado o Momento de começar a desligar-nos os Sentidos e decide como e quando devemos padecer de que Tipo ou Loucura.

Sabem que os Peixes têm uma Memória de Segundos? Aqueles Peixes bonitos que vês dentro dos Aquários pequenos, sabes que têm uma Memória de uns Segundos, três Segundos, assim. É por isso que não ficam loucos dentro daqueles Aquários sem espaço, porque a cada três Segundos estão como num Lugar que nunca viram e podem explorar. Devíamos ser assim. Mas seria uma Pena que não se voltasse a lembrar das Pessoas, como lhe explicou o Enfermeiro.

No final da Vida, Silva percebe que as Histórias bonitas aconteciam por acaso, e ele acabara de aprender que a Vida tem de ser mais à Deriva, mais ao Acaso, porque quem se guarda de Tudo foge de Tudo.

Acredito que este Livro devesse ser Leitura Obrigatória para todas as Pessoas com menos de 40 Anos, para terem uma Visão de que lhes reserva a Vida, o próprio Corpo.
Curiosamente Mãe, como afirma na Nota do Autor, escreveu o Livro pensando no próprio Pai, que não chegou à Terceira Idade, já que morreu de Câncer antes disso.Algum outro Velho, porém, deve tê-lo marcado, para que pudesse perceber, com 39 Anos, quando escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”, que a Vida é muito menos do que se imagina na Juventude e na chamada “Vida Produtiva”.

Como dizia minha Avó Olguinha, viver muito é um Castigo de Deus.
Como dizia minha Tia Rosa, de que adianta estar lúcida, se não posso passear porque os Joelhos não me permitem? se não posso ir a uma Festa porque o Estômago não se sente à Vontade? se não posso fazer uma Visita, porque a Bexiga me atrapalha?