Tolstói

Best-sellers odiados

Na conversa sobre fatos que gostaríamos de ter presenciado,
surgiu também a questão:

– Que best-seller você leu e se arrependeu?

As respostas imediatas foram:

  • 50 tons de cinza (E. L. James)
  • A Cabana (William P. Young)
  • O Código da Vinci (Dan Brown)
  • O Monge e O Executivo (James C. Hunter)
  • O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)
  • O Perfume (Patrick Süskind)
  • O Segredo (Rhonda Byrne)

Da mesma forma, repassei a pergunta a meus contactos de internet, e obtive as seguintes respostas:

Li mais de uma vez o Pequeno Príncipe. É uma obra-prima, nada a ver com as porcarias dos best-sellers. O monge e o executivo me parece um ótimo livro, apesar de ter-se tornado best-seller. Os demais elencados me parecem indignos de constar na mesma lista.

Falou que é best-seller, fico longe.

Odiei de paixão: O Sol também se Levanta (Ernest Hemingway)

O Perfume me deixou com uma desagradável sensação de náusea e realmente não gostei nada. O Pequeno Príncipe já li, mas faz tantos anos que nem lembro mais. Na época gostei. Acho que há livros que devem ser lidos quando se é mais jovem, e que depois parecem idiotice.

É, A Cabana não consegui terminar de ler

Escapei de quase todos esses. Quase, porque li O Perfume pela metade.

O pequeno chatíssimo Príncipe“; o “Código” (da Vinci não merecia isso!); e o “Perfume“, que achei super idiota e nem terminei.

Meu marido levou 8 meses para conseguir ler O Código Da Vinci… …achou um saco. Foi presenteado por um médico colega dele da maçonaria!

A Cabana do Pai Tomás?

Dois best-sellers que adorei: O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, ambos de Umberto Eco.

50 tons de cinza.

Não foram exatamente best-sellers, mas alguns clássicos da literatura universal, dos quais me arrependo:

  • Moby Dick, Herman Melville – intragável
  • As Pupilas do Senhor ReitorJúlio Dinis – insuportável
  • Almas Mortas – Nikolai Gogol – desolador
  • Os 120 Dias de Sodoma – Marquês de Sade – revolucionário, porém excessivamente escatológico.

De minha parte, esclareço que odeio as obras do “dão marronzinho”, fui quem incluiu O Perfume na lista ao alto, não li os demais, e
devo incluir um clássico: Guerra e Paz, do bobalhão do Leão Tolstói – aquele sujeito que falava de religiosidade, mas era o exemplo pessoal de canalhice com a própria família.

Você quer contribuir com sua opinião a respeito de um livro que tenha se arrependido de ter lido?

Preencha aí embaixo o quadro deixe um comentário, no canto inferior direito do post.

 

Guerra e Paz

Decretei guerra contra mim mesmo e me debrucei, durante dois meses, sobre Guerra e Paz , de Leão Tolstói (Editora Nova Aguilar, 1993, 1224 páginas dedicadas a esse texto).

Logo na primeira parte comentei que achava o livro chato, e apenas uma amiga me disse que tinha também se dedicado a ler a tão renomada “obra prima”.

Escrevi em mensagens de correio eletrônico:

  • Terminei a primeira parte de Guerra e Paz.
    Um monte de gente fútil foi a um monte de jantares idiotas.
    Seria só isso, se Pedro não tivesse amarrado um policial às costas de um urso e atirado ambos do alto de uma ponte em Moscou.
    Fim. Descobri por que os russos precisam dos patronímicos.
    Quem não se chama Mikhail se chama Ivan.
    Então você precisa saber se é o Mikhail Ivanovitch ou o Mikhail Mikhailovitch.tipo português:
    Joaquim Manuel e Manuel Joaquim.
    estás a ver? Agora os mancebos vão para a guerra, lutar contra os malvados e opressores franceses que cortavam cabeças de reis.
    Os velhos e a mulheres ficaram em Moscou e em Petersburgo para continuar as fofocas dos jantares idiotas.
  • Terminei a segunda parte de guerra e pás.
    Pás, com S mesmo, porque nessa segunda parte é só um monte de carroça de soldado e de carruagem de general atolando na lama.
    Tinham de pegar umas pás e limpar o caminho, para fazer valer a lustrada de botas que tinham caprichado no começo dessa parte. Se a primeira parte era fútil, a segunda não disse nada. Ainda bem que faltam só 1000 (mil) páginas para eu terminar a leitura. Pás já descobri o que significam,
    guerra é o que fazemos tentando ler essa “obra-sogra”.
  • Estou quase no fim do livro. Faltam só mil páginas.
  • Terceira parte:um monte de soldados correndo de um lado para outro
    três imperadores: o austríaco, o russo, e o usurpador corso
    um dos personagens do livro desaparece na batalha de Austerlitz
    Quarta parte:
    soldados tiram férias em Moscou
  • pior do que pensava
    não conta nada
    o cara virou carola, maçonizou-se, e foi visitar uns amigos
    o tsar e napoleinho encontraram-se no entre-guerras e trocaram juras de amor
    o livro não é muito bem escrito
    e a tradução não sabe usar ênclise e próclise
    a leitura fica mesmo só por conta de algumas curiosidades das velhas rússias

E tive como resposta:

Aleluia, você é a única pessoa que eu conheço que tem coragem de dizer isso. Acho o livro bem chatinho e o personagem do Pierre é simplesmente intragável.

Depois parei de comentar até que terminasse a leitura das 15 partes, do epílogo e do apêndice (tudo obra de Tolstói).
Personagens sem conteúdo, tanto entre as figuras imperais e da alta patente militar, como entre os condes, camponeses e as outras classes sociais.
Os amores e romances são de dar sono, pois os amorosos românticos não têm qualquer conteúdo. José de Alencar dava de 20 a 0 nesses russos.
O que se salva são descrições de cenários de guerra, e as incontáveis superstições que os russos cultiva(va)m com todo carinho.
O epílogo também tem aspectos interessantes, para refletirmos sobre história e historiadores.

Padre Sérgio é muito mais interessante.

Bem, Tolstói não foi exatamente um exemplo de boa pessoa. A forma como tratou a mulher é um exemplo.
Não merece ser “divinizado” por “críticos”.  Afinal de contas, quantidade não é qualidade.
Posso avisar que não é porque o livro é “muito grande” que não gostei dele. Há muito tempo, quando li os seis volumes de O Visconde de Bragelone (terceira parte de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas), não tive “sono”.

Como diria Shakespeare: much ado about nothing.

Padre Sérgio

Padre Sérgio, de Tolstói (Cosac & Naify, 2001, 128 p.), é um livro que, embora escrito em 1890 e publicado pela primeira vez em 1898, e apesar de focar bàsicamente a situação da Rússia tsarista e da igreja ortodoxa, pode sem dificuldade ser lido com relação à miséria, ao misticismo, à manipulação do povo, em tantos diferentes lugares no século XXI.

Um nobre russo, militar de um esquadrão de elite, descobre que sua noiva havia sido noiva do próprio tsar, idolatrado pelo personagem. Profundamente chocado com a atitude dessa mulher a quem ele idealizava conceitos de pureza, abandona a farda e ingressa em um mosteiro. Passa para outros mosteiros, nos quais sempre demonstra uma capacidade de disciplina, de moral, e de conhecimento mais elevados do que os outros religiosos. Torna-se um eremita, que é um dia procurado por uma mulher divorciada da alta sociedade, que havia apostado com seus amigos que seduziria o monge. Ele, em resposta à tentação do diabo disfarçado de mulher, decepa um dos próprios dedos, o que causa profunda alteração psicológica na sedutora, que um ano depois ingressa em um convento, e alardeia a todos a santidade do monge eremita. O poder de cura espalha-se por todo o país, com a instalação de peregrinações até ele, muito bem aproveitadas pela igreja local. No entanto, ele duvida da própria fé, e vê com muitos questionamentos a si mesmo e a situação que vive na igreja. Anos depois, uma jovem consegue romper o celibato do monge, que em resposta foge de sua vida de eremita, em primeiro lugar para procurar uma prima que, na convencional vida de mulher dedicada à família, subsiste em condições muito precárias. Dessa visita torna-se um andarilho, sem rumo, até um dia ser preso por não portar os documentos necessários e ser enviado para um campo particular de trabalhos forçados na Sibéria.

O livro fala ligeiramente da visão política e religiosa de Tolstói, fundamentando a não-violência como resposta adequada às mais diferentes formas de agressão e de opressão, o que seria mais tarde um dos pilares da atividade de Gandhi e de Martin Luther King Jr. Por outro lado, sempre aponta a mulher como o próprio demônio, causador de tormentas que levam à decadência do homem.

Nas últimas páginas do livro, foi inserida a interessante carta que Tolstói enviou ao sínodo russo, após a decisão de excomunhão da igreja ortodoxa, ocorrida em 1901.

Padre Sérgio é de leitura muito fácil, e dá uma boa visão da Rússia do século XIX e dos efeitos da religiosidade imposta por igrejas sobre tantos milhões de pessoas, no século XXI.