televisão

em uma livraria

Estive ontem em uma livraria, dessas grandes, para “gente culta”, de uma rede espalhada por capitais “interessantes”.
Percorri com atenção os diversos corredores e suas muitas estantes.
Vi a preocupação (infantil) de colocar os “colaboradores” para que se obtenha uma disposição bonitinha, falsa feito nota de três reais impressa na Nigéria.
O conteúdo dos livros era digno do saudoso Febeapá.
Olhava nas estantes e só via “baixo-ajuda”, culinária, juvenis e mitologias (relacionadas a seriados de tv), “críticos” do óbvio, muitos livros escritos por sacerdotes, livros de viagens com muitas fotografias…

Quando encontrava algo que tinha valor literário, era sempre uma obra de antes de 1960, com uma encadernação que tentava justificar o preço exorbitante.
Vai que cola…
A maior parte das pessoas que freqüentam essas livrarias não sabem que pela metade do preço pode comprar o mesmo livro em um sebo (com a vantagem de ter sido impresso em uma ortografia que não é para analfabetos).
Não raras vezes, esses mesmos (bons) livros estão em domínio público e podem ser baixados na internet.
Olhei muito.
Até 1960 havia boas obras.
Em 1960 começa um declínio que se aprofunda a cada ano
De 1995 para cá, vinte anos de lixo.
Dos autores estrangeiros, ainda estão presos à famosa anticultura da era hippie, embora ideològicamente presos à URSS do tempo de Stalin.
Dos autores tupinambás, melhor esquecer que rabiscaram alguma coisa no computador…

Comentei depois com alguns amigos, e eles concordaram com minhas observações.
Acrescentaram, ainda, a mão de obra selecionada sem o mesmo esmero de antes. O que importa é mesmo a apresentação, e não o conteúdo.

Wayne de Gotham

Batman sempre foi um super-herói de que gostei; talvez meu preferido. Arquimilionário, sem super-poderes (apenas a refinada “trecnologia“), e com um mordomo que resolve todos os problemas. Criado em 1939, por Bill Finger e Bob Kane, Batman é muito melhor do que aqueles outros super-heróis, em geral de classe média, cheios de mutações e também de fraquezas.

Wayne de Gotham, de Tracy Hickman (Leya – Casa da Palavra, 2013, tradução de Edmundo Barreiros, 270 p., R$ 15,00) é um livro que conta a história de Batman de outro modo: a oscilação entre a vida atual e o passado, das décadas de 1950/60, com o “império” multinacional de “beneficência” no submundo da pesquisas genéticas, de alterações de comportamento, agências secretas, e a tal “luta contra o crime”, que o avô e o pai de Bruce Wayne tinham fundado em Gotham City.

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A escrita prende a atenção do leitor, a ligeiras mudanças de parágrafos dão a nítida visão do que seriam cenas de ação nos filmes.
Não é, contudo, algo que conseguirá superar a inabalável versão de humor do seriado Batman e Robin, protagonizada por Adam West e Burt Ward, sem dúvida melhor do que qualquer filme sombrio (gótico) sobre o homem-morcego.

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Gore Vidal

Gore Vidal ((1925-2012) foi muito prolífico (e por que não também dizer promíscuo?), e sua produção artística inclui romances, ensaios, roteiros de filmes, peças de teatro, etc.

Em ordem cronológica da publicação, li:

  • A cidade e o pilar (1948)
  • À procura do rei (1950)
  • Verde escuro, vermelho vivo (1950)
  • O julgamento de Páris (1952)
  • Messias (1954)
  • Juliano (1964)
  • 1876 (1976)
  • Criação (1981)
  • Duluth (1983)
  • Império (1987)
  • Declínio e queda do império americano (ensaio) (1992)
  • Ao vivo do Calvário, o evangelho segundo Gore Vidal (1992) (Live from Golgotha, no original inglês)
  • Palimpsesto (memórias) (1995)
  • Um momento de louros verdes (não localizei o título original, nem a data da publicação), a maior parte delas (ou todas?) publicadas pela Rocco.

De que me lembro dessas obras? Pouco, retenho na memória menos do que o que eu tinha apreciado na época da leitura.

À procura do rei – lembro apenas que trata do resgate (ransom) por Ricardo Coração de Leão, aprisionado pelos franceses;
Verde escuro, vermelho vivo – algo que se passou na Guatemala;
Messias – sobre os tele-evangelistas.

De fato, só me lembro de

Juliano – romance histórico sobre o curto reinado do imperador romano (360-363), equivocadamente chamado de “o apóstata”, dado que ele nunca foi cristão, e não podia, portanto, ter recebido esse epiteto;
Criação – outro romance histórico, que versava sobre Ciro Espítama, um personagem fictício que teria sido um diplomata persa e conhecido pessoalmente Zoroastro (de quem Ciro seria neto), Sócrates, Buda (Gautama), Mahavira, Lao-tsé e Confúcio;
Ao vivo do Calvário – uma sátira de como teria sido uma transmissão televisiva do julgamento e da crucificação de Cristo, caso a tecnologia o permitisse;
Palimpsesto – chatíssimo, cheio de fofocas, intrigas, brigas de ódio, sobretudo com a mãe.

Na verdade, passado o tempo, vejo Gore Vidal como um bom escritor, de linguagem ágil, com dose de humor irreverente, mas muito parecido com o que são tantos colunistas de jornais e revistas, que gostam de se manter em evidência por meio de falsas polêmicas. Confundiu a vida (homo-sexual) e a política (do Partido Democrata) com a própria obra, por isso ela se tornou muito bem recebida, mas ao mesmo tempo de pouca profundidade: um típico produto de consumo.

 

 

Esquerda Caviar

Esquerda Caviar – A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo (Rodrigo Constantino, Editora Record, 2013, 423 p., R$ 42,00) caiu perfeitamente para muitos parentes, amigos, conhecidos e ex-colegas de trabalho. Confesso que eu algumas partes fui ao espelho e fiz um mea culpa.

O livro divide-se em três partes, a primeira das quais muito bem fundamentada, com muitas pensadores de um lado e do outro contrapostos, para que se possa ver com nitidez o quanto são ridículos, sujos, imbecilizantes e outras coisas mais, esses modismos hipócritas da correção política, das “minorias” no domínio da sociedade, e toda a “bondade rousseauniana” das leis que moldam as pessoas em robozinhos.

O capítulo sobre as origens da esquerda caviar, ou liberal limousine (EUA), champagne socialist (Inglaterra), radical chic (Itália), ou simplesmente a velha conhecida “esquerda festiva” dos centros acadêmicos, trata de vinte variantes: oportunismo hipócrita, narcisismo, elite culpada, tédio, histeria, racionalização, preguiça mental, ópio dos intelectuais, alienação, insegurança e covardia, medo, nihilismo, síndrome de Estocolmo, ressentimento, infantilidade, romantismo, desprezo popular, arrogância fatal, sede pelo poder, ignorância. Em seguida, fala sobre o duplipensar, ou seja, alterar o significado de palavras para que elas se encaixem ao pensamento polìticamente correto e hipócrita, e conclui essa primeira parte com o viés da imprensa.

A segunda parte menciona algumas das bandeiras que a esquerda caviar gosta de empunhar: a obsessão anti-americana, o ódio a Israël, o culto ao multiculturalismo (e ao Islã), os pacifistas, o mito Che Guevara, a ilha presídio de Cuba, os melancias (verde por fora e vermelho por dentro), os clichês de justiça social, os preconceitos dos que não têm preconceitos, as minorias, e a juventude utópica.

A terceira parte aborda alguns santos de pau oco, que ganham muito dinheiro às custas de propagandas e campanhas em prol da falsidade, e do escamoteio do estilo de vida desses mesmos santos: Obama, Gandhi, John Lennon, Noam Chomsky, Paul Krugman, Michael Moore, Sting, Al Gore, Peter Singer, John Kerry, Ted Kennedy, Bill Clinton, George Soros, Harrison Ford, Leonardo DiCaprio, Cameron Díaz, Robert Redford, Brad Pitt, Angelina Jolie, George Clooney, Barbra Streisand, Richard Gere, James Cameron, John Travolta, Bruce Springsteen, Oliver Stone, Whoopi Goldberg, Jack Nicholson, Matt Damon, Gérard Depardieu, Ben Affleck, Sean Penn, Bono Malo Vox, Oprah Winfrey, Benicio del Toro, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo, Wagner Moura, Eduardo Matarazzo Suplicy ex-Smith de Vasconcelos, Chico Alencar, Luciano Huck. Fora isso, muitos outros nomes são assinalados durante as duas partes anteriores, como Gilberto Gil, Fernanda Montenegro,
Desde o início do livro, Rodrigo Constantino salienta que não coloca em xeque o valor artístico das pessoas, mas a contradição entre o que dizem polìticamente e o estilo de vida que levam.

Não dá para concordar com tudo o que Rodrigo Constantino colocou no livro. Falar do Tibete como “vítima” é um tanto quanto “esquerdismo caviar” de muita gente que ignora que a região SEMPRE foi parte do império chinês, que NUNCA foi um país independente, que em 1911 deputados tibetanos fizeram parte da assembléia constituinte republicana chinesa (ou seja, eram parte da China), e que o que deixa o dalai lama indignado não é o domínio chinês, mas a perda do poder feudal que ele e seu clero exerciam sobre 85% da população tibetana que vivia em regime de servidão, para atender 10% de sacerdotes.
Só no finzinho do livro RC lembrou de juntar Mr. Richard Gere e Mr. Tenzin Gyatso no mesmo cesto de artistas festivos, caviarescos e champanhotes.

Interessante a menção final, de luz no fim do túnel, ao citar a mudança de opinião de Ferreira Gullar, enojado com o que seus antigos colegas “socialistas” têm feito nos últimos 90 anos. Um mar de sangue e um sem fim de prisões a quem os contrariar. Pena que o livro tenha sido escrito em 2013, e não tenha tido a oportunidade de incluir o que Eduardo Galeano disse em Brasília sobre “Veias Abertas da América-Latina”:

“Hoje não gostaria de reler o livro. Não me sinto mais ligado a esse livro como era. Quando escrevi, tinha 19, 20 anos. As veias abertas da América Latina tinha de ser um livro de economia política mas eu não tinha o conhecimento necessário para isso. A realidade mudou muito e eu também mudei”.