reforma ortográfica

Sebos

Escrevi no post “Como um romance” um “procure em um sebo”, mas não sou muito fã desse tipo de lojas.

Aqui perto, por conta da proximidade da UnB, há uns tantos sebos. Seis, em uma conta rápida pelas quadras vizinhas.

Pequenos, grandes, organizados, bagunçados, limpos, sujos, onde somos bem atendidos, onde somos ignorados. Entro neles, dou uma espiada básica, mas raramente encontro algo de meu interesse, embora já tenham me servido para a busca de um título específico que queria dar a duas diferentes pessoas.

Em São Paulo, perto do antigo endereço de minha amiga Irene, há um bom sebo, mas com um abominável cheiro de ácaros que corrobora inteiramente minha tese de que livros não são feitos para ficar em prateleiras, depois de usados. Melhor serem dados a outra pessoa ou “esquecidos” em uma parada de ônibus.

Uma amiga minha, mão de vaca feito o mais duro dos pães, resolveu vender algumas centenas de livros do pai. Reclamou que lhe pagaram muito pouco por isso. Eu bem que alertei que não compensava e que seria muito mais “inteligente” dispor essas obras em diferentes lugares da cidade, conforme o assunto. Perto de hospital livros sobre saúde; livros de cIências sociais perto de escolas de segundo grau, etc.. Não, preguiçosa, acabou carregando uma malona com aquilo que o pai havia juntado durante anos, e se sentiu depois “roubada”. Não duvido que ela tenha precisado de um analgésico para dor lombar mais caro do que o que recebeu pelos livros…

Já ocorreu mais de uma vez de eu “ludibriar” o negociante. Uma pessoa interessada em vender livros fez cara de que não tinha gostado do preço oferecido pelo sebo, e eu, parado ao lado, perguntei quanto queria por aquela obra, pela qual eu tinha algum interesse. Paguei mais do que o sebo, menos do que eles depois venderiam, e tanto eu quanto o ex-proprietários ficamos satisfeitos.

Por falar em sebos, tenho de terminar a leitura de muitos que estão aqui nas prateleiras. Após minha morte, parentes que bem conheço não se intimidarão em lançar ao lixo reciclado o que tenho hoje. Dará a eles menos trabalho do que sair vendendo aos sebos.
Escolas “modernas” não gostam de livros fora do “desacordo ortográfico” que emburrece a população. Li muitos livros de meus pais escritos com PH e TH, uma das quatro ortografias com que convivi, e não apenas nunca me confundiram com o que eu estudava, que ainda era conforme a ortografia de 1943, como foram muito úteis quando aprendi outras línguas. Coisas da “pedagogice contemporânea”.

Objecto quase

Objecto quase, de José Saramago (Companhia das Letras, 1998, 134 p. R$ 17,00), é uma coleção de contos do realismo fantástico, composta em 1978. Constam do livro:

  • Cadeira
  • Embargo
  • Refluxo
  • Coisas
  • Centauro
  • Desforra.

A leitura é muito rápida, ao contrário do que costumam ser os indigestos romances do “badaladissíssimo” escriptor “nobelizado”.

O que mais me chamou a atenção foi que parecia, na maior parte do tempo,  que estava eu a ler algum livro de José J. Veiga, tantas as semelhanças de estilo e de conteúdo.

Por sua vez, é interessante como a griffe dos livros caros submeteu-se à orthographia do lusitano, quando outros autores são submetidos às revisões de pasteurização da escripta, como se os leitores fossem incapazes de ler o que esteja escripto fora dos padrões de diccionaristas e dos acadêmicos, escolhidos mais pelas características políticas do que literárias. Vale o mesmo comentário para os livros portugueses que vinham com a inscripção de que a venda no Brasil era-lhes proibida. Por conta desse absurdo tão absurdo, inventaram que precisamos de um desacordo orthographico, enquanto australianos e sul-africanos sequer prestam atenção se ingleses preferem theatre e americanos theater.

Chagas de Luz

Recebi de uma parente um livro espírita, religião que ela segue, sobre os internos nos leprosários de São Paulo na primeira metade do século XX – Chagas de Luz (Edison Carneiro e Manuel dos Santos Soares, Editora Aliança, 2012, 320 p.).
Um deles é o leprosário de Santo Ângelo, onde ainda há gente que foi internada compulsòriamente e que perdeu contato com o mundo, e preferiu continuar morando lá. Já lá se vão mais de 70 anos. Crianças que pràticamente nunca conheceram o mundo fora dos limites da “colônia”.

O livro narra a participação de algumas pessoas interessantes. Uma delas é a da deputada Conceição da Costa Neves (Conceição Santa Maria em certa época de casamento), ex-atriz eleita como a primeria mulher na assembléia de São Paulo, que lutou para denunciar os abusos que ocorriam nesses locais onde os doentes eram isolados.
Outra presença no livro é a de Ademar de Barros, o famoso Rouba Mas Faz I, sempre eleito pelos paulistas.

Eu não imaginava de que existissem tantos leprosários em São Paulo. Nem que houvesse médicos tão canalhas, que ainda por cima mereceram título de “servidor público emérito”.
Gente assintomática era internada compulsòriamente em nome da saúde pública, com base nos critérios desses “médicos oniscientes”. Esses internos morriam por falta de cuidados nos campos de concentração implantados pelo Getúlio Vargas e seus seguidores. A lepra tinha de ser necessàriamente uma doença sem cura e que levasse à morte, nos conceitos desses médicos corruptos, que pululavam no serviço público e abominavam as pesquisas científicas que contrariassem seus dogmas. A história de terem derrubado a estátua do médico-diretor do campo de concentração de Santo Ângelo parece a derrubada da estátua do Sadam Hussein.

Importante: o livro tem fotos e cita as fontes históricas, de forma a permitir a confirmação dos relatos abomináveis de uma época não tão distante de nós. Por isso pode ser lido como um importante relato histórico, vivenciado por um dos autores (Manuel dos Santos Soares). Isso supera de longe qualquer restrição que algum leitor possa ter com relação ao aspecto da religião no livro.

A revisora do livro, Arlete Genari, esteve preocupada com a acentuação exigida no des-acordo ortográfico, mas esqueceu de algumas regras básicas da língua portuguesa, como a de que o verbo HAVER, impessoal, não flexiona no pretérito perfeito. Se Há e Havia, então Houve, jamais o erro abominável de “houveram”.

Como o soldado conserta o gramofone

Em agosto de 2009, durante um vôo Campo Grande – Brasília li (e gostei muito do livro) Como o soldado conserta o gramofone, do autor bósnio Saša Stanišić (Editora Record, 2009, tradução de Marcelo Backes).

O livro prende a atenção do leitor, e retrata, através da visão de um menino filho de pai sérvio (cristão ortodoxo) e de mãe bósnia (muçulmana) o fim do mundo comunista da Europa Oriental, o desmembramento da Iugoslávia e a guerra civil que dissolve com o país e que leva a massacres étnicos no meio de tudo o que ele tinha como referência. A fuga da família para a Alemanha, com Aleksandar (Saša) no início da adolescência, e o retorno dele para uma cidade de Višegrad que não é mais a mesma, cujo rio Drina foi tingido por tanto sangue de seus antigos habitantes, no começo da vida adulta, na tentativa de costurar reminiscências do passado que só existe em suas lembranças, pois foram eliminadas na mente de quem permaneceu na Bósnia.

Como menciona o menino em certa parte, descobre que por ser filho de sérvio e de bósnia, deixou de ter um país, uma nacionalidade, quando a Iugoslávia se desagregou. Era um bastardo, nos conceitos da intolerância do final do século XX (há meros 10 anos).

A tradução, embora tão decantada pela editora, deixa a desejar, pois o glossário resumido não contém muitas palavras, tal como baclavá, que por acaso eu conheço de ter lido Ismail Kadaré, e já saber que é a mesma baklewa, que se vende em restaurantes árabes. Poesias em sérvio (ou melhor, em sérvio-croata, antes de cada versão ter se tornado uma língua, após a desagregação da Iugoslávia), não são traduzidas ou explicadas em alguns trechos do livro. Tudo bem, não são mesmo essenciais para o entendimento do livro. Pelo menos não em um assento de avião.

Tive tempo para observar o quanto é ridícula essa reforma ortográfica que nos foi oferecida pelo poeta maranho-amapaense e a corja de seus cupinchas da ABL, com a falta de critério na acentuação dos ditongos abertos. Transcrevo inteiramente a frase:

Boto água num vidro de geleia e amoleço os pincéis.

Eu continuo com a geléia, muito mais saborosa com o acento.

Doações em geral – 2

Dois comentários fora da internet, de brasilienses, me contestaram, me afirmaram que escolas e bibliotecas públicas aceitam livros usados.

Não sei quando isso ocorreu com meus leitores, mas minha cunhada teve a experiência inversa, pois os livros foram recusados, sob a alegação de que estavam com a “ortografia antiga” e iriam “causar conflitos de aprendizado nas criANTAS”.

Como se os livros didáticos brasileiros fossem todos excelentes, muito bem revisados, não tivessem mapas errados (José Serra que o diga), como se o des-acordo ortográfico estivesse vigente em Portugal, como se todas as publicações fossem feitas exclusivamente na ortografia sarnenta, sem o período de convívio de três anos das formas do uso do hífen e dos acentos.

O país é rico, claro, por isso a escola que minha cunhada procurou pôde dar-se ao luxo de dispensar os livros que iam ser doados.

Além disso, quanto a regras ortográficas, é lógico que elas são sacro-santíssimas (com hífen e esses separados, pois quem gosta de SS é nazista), pois Monteiro Lobato e Saramago, por exemplo, sempre foram os mais fiéis seguidores de todas as regras gramaticais da escrita de suas épocas, para mencionar apenas alguns dos literatos menos conhecidos da língua portuguesa.

Decerto que as regras da Academia Brasileira de Letras, que conta em seu panteão com nomes tão relevantes como o grão-duque do Maranhão-e-Amapá e o doutor-em-cirurgia-plástica Ivo Pitanguy, são dogmas incontestáveis por nós, meros servos. Não contestamos, em absoluto!

De volta ao tema das doações, e ainda no aspecto livresco, retomo a pergunta levantada no tópico anterior pelo comentário do Fernando: “Livros são bens duráveis ou consumíveis? Dependendo da relação que você tem com este bem, pode definir sua relação com o mundo.”

Quem se aventura a dar uma resposta?