primeira pessoa

O Buda do Subúrbio

Pois decidi “reler” O Buda do Subúrbio, de Hanif Kureishi (Planeta DeAgostini, 2004, 303 p., R$ 16,90), e descobri que eu, na realidade, não tinha concluído a leitura do livro, por conta de uma viagem.

Foi uma boa e grande surpresa. O livro, escrito em 1990, é ótimo.

Todo em primeira pessoa, conta a história de Karim (ou Cream, como lhe chamam), um rapaz filho de um imigrante indiano muçulmano e de uma inglesa, que vive em um subúrbio em Kent, e que se percebe sempre como uma pessoa “extra”, no sentido de que é inglês, sente-se inglês, mas é visto como um asiático pelas pessoas em geral.

O livro narra descobertas sexuais, profissionais, emocionais, de um adolescente até o início da vida adulta, centrado na vida dos anos 1970, com suas “revoluções” sociais e estéticas, além da onda mística de new age.

O pai envolve-se com uma mulher cujo marido está internado em um hospício, e que tem um filho pouco mais velho do que Karim. Este prefere viver com o pai e a madrasta, e deixa a mãe com o filho menor, Allie. Mudanças para Londres, e depois para os Estados Unidos, e retorno a Londres.

Personagens vão e voltam ao longo do livro, cuja narrativa é muito ágil, envolvente, e cheia de surpresas. Os tios paternos, a prima e o marido vagabundo, os tios maternos, colegas de escola, namoradas, Charlie, o filho da madrasta que se torna músico, e o mundo do teatro, ao qual Karim resolve se dedicar como ator.

Quando o livro termina, e Karim e Allie comentam que já estão a caminho dos 40 anos, é como se tudo tivesse acontecido em apenas alguns meses.

A forma como foi escrito O Buda do Subúrbio, sua linguagem, sua narrativa, os fatos que descreve, tudo isso faz do livro um dos melhores que li recentemente.

Férias Secretas

Férias secretas, da belga Maud Frère, foi escrito em 1956. Li sua 2a. edição da tradução brasileira (Edgar Magalhães), feita pela saudosa Editôra Brasiliense em 1962, dentro da coleção “Jovens do Mundo Todo”.

Livro para adolescentes (*), narra em primeira pessoa a história de um garoto francês que, driblando os planos da família, viaja escondido para passar férias na antiga fazenda do avô, que havia sido vendida após sua morte.

O livro até consegue prender a atenção de leitores de qualquer idade. A tradução, contudo, foi feita para contrariar o vocabulário de qualquer adolescente, mesmo em 1962 (ou em 1956). Isso certamente prejudica o livro, pois não consegue manter empatia entre o narrador e o leitor.

Alguma criança ou jovem diria, hoje ou há 60 anos: “anelávamos ser como ele”? Ou usaria a forma “mouta”, para dizer “fique na moita”, ao pedir o silêncio de um colega? Isso e mais uma porção de preciosismo da tradução de nomes de frutas ou de pássaros, que inexistem no Brasil e não interessam na compreensão do texto – palavras que apenas retardam o entendimento. Não parece que o livro tivesse sido escrito para adolescentes do século XX (e possìvelmente também do início do século XXI).

Pior, porém, foi encontrar em sites da internet que o exemplar do livro (da mesma edição que eu li) está à venda por R$ 38,00!  Isso é um roubo. Ainda bem que a prática de escambo de livros, e das doações, tem se disseminado por todo o Brasil.

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(*) do tempo em que a adolescência um dia terminava, e não se arrastava pelo resto da vida adulta.

Pan América

Em 1970, um amigo me deu um exemplar da primeria edição de Pan América, de 1967, de José Agrippino de Paula. O livro pareceu-me demasiadamente aborrecido, não terminei sua leitura e dei-o ao fazer alguma mudança.

Há algum tempo, encontrei em uma loja a 3a. edição (Editora Papagaio, 2001, 258 p., R$ 25,00), comprei-o e deixei-o parado em alguma prateleira durante estes últimos anos.

Finalmente tive a curiosidade de lê-lo. Um amontoado de situações desconexas, que junta todo tipo de clichês da década de 1960. Famosos nomes de norte-americanos, como Marilyn Monroe e Joe Di Maggio, Elizabeth Taylor e Richard Burton, Burt Lancaster, Ella Fitzgerald, Cassius Clay, misturados com Che Guevara, soldados, guerrilheiros, policiais do DOPS, multidões de turistas, em capítulos repleto de chavões despejados em onirismo, e muitas (e tolas) cenas de sexo.

O prefácio da primeira edição, do físico Mario Schenberg (que consta também da terceira), salienta o livro como uma epopéia marcada pela obsessão erótica e pelo senso da destruição e do caos, encontrando semelhança com o cinema, quando este se torna mais mítico. O prefácio da terceira edição, de Caetano Veloso, enaltece o tropicalismo, sem contudo observar que o tropicalismo foi um movimento de “contra-cultura” brasileira, na realidade muito bem acomodado pelos patrocinadores da arte “contestatória” da década de 1960.

A leitura de Pan América mostrou-se um exemplo de que nem toda contestação se torna arte. Quanto ao tropicalismo, prefiro a recente declaração de Jards Macalé, que ao completar 70 anos disse que gostaria de viver outros setenta, para poder corrigir todos os erros que cometeu.

Lamentàvelmente os chamados “intelectuais” não gostam de perder sua aura, e se esforçam ao máximo para, vivendo em guetos, continuarem a ser mitificados pelos meios de comunicação e pelo público. José Agrippino já se havia recolhido desse meio, quando morreu em 2007. Seus discípulos, porém, ainda precisam dos paparicos do público que vive da contestação aparente de quem, na verdade, está com a vida ganha e bem acomodada no “sistema” que fingem desprezar.

As idéias no livro são datadas e ultrapassadas. A leitura de Pan América vale apenas para rever o que alguns grupos diziam há 40 anos. O livro tem mais valor histórico do que literário. É um retrato do que se qualificou como arte, simplesmente porque divergia das correntes majoritárias da época, fossem obrigações ou opções.

Água Viva

Água Viva, de Clarice Lispector (Rocco, 1998, 87 p.), pode ser chamado de um devaneio feminino.

Clarice, sem dúvida uma das mais importantes escritoras brasileiras, foi uma modernista engajada no existencialismo típico da metade do século XX. Sua escrita é essencialmente feminina, algo que, hoje em dia, tantas autoras tentam produzir, como se fosse isso uma obrigação; no caso atual, muito mais uma obrigação de engajamento com objetivos nìticamente comerciais, o que situa essas imitadoras a anos-luz de distância de Clarice.

Por sua vez, Clarice foi também uma precusora no modo de escrever, pois na forma de expor idéias, como em uma tempestade cerebral, ela antevia o que tanto se faz, hoje em dia, em blogues e em comunidades sociais da internet. Uma escrita sem previsibilidade, sem um destino final para o qual se encaminha, que pode variar instantâneamente de tema ou de opinião.

A grande diferença é que Clarice Lispector podia levar alguns anos até concluir e rever seus textos, muito diferente do que fazem imitadoras, que almejam um produto de divulgação rápida.

Água Viva, iniciado em 1970 e concluído em 1973,  e a Paixão segundo G.H., de 1964,  mantêm semelhanças de estilo, que se opõem ao mais conhecido trabalho A Hora da Estrela, concluído em 1977, uma obra cujos fragmentos juntam-se de forma muito mais linear.

Clarice Lispector não é para toda hora, mas é para sempre.

Queremos tanto a Glenda

Queremos tanto a Glenda, de Julio Cortázar (Editorial Nueva Imagen, 1984, 166 p.), é uma coletânea de contos do escritor argentino. Contém:

  • Orientación a los gatos
  • Queremos tanto a Glenda
  • Historia con migalas
  • Texto en una libreta
  • Recortes de prensa
  • Tango de vuelta
  • Clone
  • Grafitti
  • Historias que me cuento
  • Anillo de Moebius.

Os contos tratam tanto de gatos caminhando no meio de quadros expostos, quanto de pessoas desaparecidas durante a ditadura militar na Argentina, na década de 1970.

A maioria dos contos são escritos exclusivamente na primeira pessoa, sem diálogos. As cenas desenrolam-se pela descrição do autor. Clone é o que mais contém diálogos e, para meu gosto, foi o mais aborrecido dos textos que compõem o livro. Texto en una libreta, por sua vez, que fala de imaginárias pessoas que viveriam nos túneis e trens do metrô de Buenos Aires, fruto de informações estatísticas que induziam às visões do narrador, foi o que mais me agradou.

Júlio Cortázar foi, sem dúvida, um escritor da maior importância na literatura hispano-americana do século XX, e seus textos podem ser lidos sem dificuldades e não devem ser considerados superados pelo tempo.