Planeta DeAgostini

A História Secreta

A História Secreta, de Donna Tartt (Planeta DeAgostini, 2003, 517 p., R$ 16,90), inicia-se contando que um aluno de uma faculdade em Vermont foi morto por seus colegas do curso de letras clássicas.

A partir daí, o livro retrocede, sempre contado por um dos alunos desse período, para falar das razões que conduziram ao cometimento do assassinato. O resumo completo da trama pode ser encontrado na wikipedia em inglês, inclusive com a descrição do que ocorreu aos outros personagens, por isso não vou me estender nesse assunto. O que importa, porém, é a gama de futilidades, vaidades, mentiras, bem como de compromissos muitas vezes obtidos por meio de chantagens, reais ou emocionais, que permeiam todos os personagens do livro.

Fica no livro a dúvida sobre o que significa de fato amizade, e quanto ela pode ou não ser alterada por circunstâncias as mais diversas.

Curiosamente, ocorrem nestas semanas alterações na legislação de porte de armas nos Estados Unidos, por conta de repetidos casos de violência gratuita que ocorrem em campi universitários ou de escolas secundárias (e, recentemente, também infantis). A sensação que a leitura do livro me transmitiu conduziu-me diretamente a uma hipótese: não são as armas a causa de tantos crimes inexplicáveis na sociedade dos Estados Unidos, mas sim o próprio sistema como as escolas funcionam naquele país.
Quantas outras dezenas de obras, de literatura ou de cinema, já trataram desse assunto? Pois então, parece que a violência não é tão gratuita como falam ociólogos e antropoilógicos, mas parte de um “diletantismo acadêmico”.

O Amante do Vulcão

Já tinha lido, há tempos, algumas coisas de Susan Sontag. Não tinha gostado. Nestes dias, li O Amante do Vulcão (Planeta DeAgostini, 2003, 423 p., R$ 16,90), que a escritora norte-americana escreveu baseando-se na vida de sir William Hamilton, o marido da famosa Emma Hamilton, modelo de quadros e amante de lord Nelson, trio que já foi objeto de outros livros e de filmes.

O livro de Susan Sontag perde-se ao longo de suas páginas. O primeiro terço é interessante, curioso, fala mais de Hamilton, embaixador britânico no Reino de Nápoles, colecionador inveterado de obras de arte, antigüidades, pedras vulcânicas que ele mesmo colhe no Vesúvio, e discorre com algum humor. No restante do livro, interessada em demonstrar muita erudição Sontag passa a focar coisas em excesso, e acaba tornando o livro um emaranhado de parágrafos mal ajeitados, de comentários fora de propósito, de descrições desnecessárias em diálogos. O famoso trio britânico de amantes já teve versões melhores, na literatura ou no cinema.

Nos quatro últimos pequenos capítul0s, a autora dá ao desenrolar das várias tramas do livro as versões de quatro personagens femininas do livro: a primeira mulher de William, a mãe de Emma, a própria Emma, e da poetisa Eleonora da Fonseca Pimentel. Versões que servem para mais “filosofices” de Susan Sontag.

Como mencionei logo no início, não tinha gostado de outras obras de Susan Sontag. Tampouco gostei de mais esta que li. Susan Sontag, como sempre, demonstrou ser uma fonte de pensamentos negativos.

A Carta Esférica

A Carta Esférica, de Arturo Pérez-Reverte (Planeta deAgostini, 2003, 530 p., R$ 16,90), trata de um grupo de pessoas na disputa por um tesouro de um navio de jesuítas, que, afundado no Mediterrâneo na metade do século XVIII, conteria esmeraldas em seu interior.

Os personagens principais são: um oficial da marinha mercante, suspenso por ter levado um navio ao encalhe; uma funcionária do museu naval espanhol, obcecada com o assunto do navio jesuíta; um empresário gibraltarino especializado em resgastes marítimos e caça a tesouros; um ex-suboficial argentino, com ligações à tortura na época  da ditadura militar em seu país; e o dono de um barco que participa da busca ao tesouro. “Gente fina”, acostumada a passar rasteiras nos outros.

O tema é banal, mas o livro é recheado de interessantes informações sobre navegação e sobre cartografia, como os equipamentos e métodos usados desde a Antigüidade para marcar a latitude e a longitude.

Os diálogos do livro em geral são entremeados de número excessivo de descrições, que tornam a linguagem um tanto rebuscada.

Um livro, nada mais, certamente não uma obra-prima.

Pastoral Americana

Há pouco mais de 40 anos, li Complexo de Portnoy, de Philip Roth, livro escrito em 1969, cujo sucesso de deveu ao fato de falar em masturbação de um adolescente judeu-americano em linguagem explícita.

Há mais de 15 dias tento ler Pastoral Americana, que o mesmo autor escreveu em 1997 (Planeta DeAgostini, 2003, 478 p., R$ 16,90), mas a leitura de arrasta, não consegue engrenar velocidade de cruzeiro para ser agradável. Como diz o resumo na capa, o personagem principal (que não é o narrador) encontra-se “esmagado entre duas épocas, e supreendido pela abissal mudança de moral, apega-se até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais”. Resumindo: um astro do esporte de subúrbio, em Newark, tenta entender porque a filha se tornou uma terrorista, nas campanhas contra a Guerra do Vietname, enquanto ele tentava transmitir à família os valores de trabalho, de família judaica, e outras relacionadas ao estilo norte-americano de vida de 1940/1950.

Poderia ser um livro interessante, é claro. A linguagem, porém, é monótona, as ações são lentas, os cenários misturam-se excessivamente. Sem contar que, ao contrário da edição que li de Complexo de Portnoy, no qual o farto recheio de expressões iídiches eram explicadas ao leitor brasileiro, Pastoral Americana tem poucas palavras desse linguajar meio nova-iorquino, mas o tradutor Rubens Figueiredo não se deu ao trabalho de pesquisar, para informar ao leitor brasileiro do que tratam aquelas palavras.

Como resultado, confesso que me cansei. Paro a leitura do livro na metade. Não compensa insistir.

E, caro Mr. Roth, como dizem em espanhol, “me importa un bledo” que seu perfil nas comunidades sociais seja falso. Isso mais parece um esforço para não sair do noticiário.

Quando éramos órfãos

Quando éramos órfãos (Planeta DeAgostini, 2003, 393 p., R$ 16,90) é uma obra do escritor britânico Kazuo Ishiguro. Sim, britânico, apesar do nome e de ter nascido no Japão.

O livro narra, em primeira pessoa, a história de um homem inglês que passou parte da infância em Xangai, quando a cidade chinesa era dividida em setores internacionais, e quando os ingleses auferiam lucros fantásticos com o tráfico de ópio, para entorpecer os chineses, de modo que a comunidade internacional dominasse o país, sem necessitar ter os gastos que normalmente tinham de ser assumidos com as colônias tradicionais.

As recordações de Christopher Banks, esse personagem principal, estendem-se de 1930 a 1958. Nele misturam-se a tenra infância, o período em que, órfão, vai viver na Inglaterra com uma tia, a vida profissional como detetive, o retorno a Xangai (já durante a guerra entre Japão e China, que antecedeu a II Guerra Mundial, e com as lutas entre o exército nacionalista de Chiang Ka-Chek, e o movimento comunista de Mao Tsé-Tung, além de vários outros exércitos mercenários de líderes chineses de segundo plano), e a vida no início de sua velhice.

Quando criança, Christopher vive o desaparecimento do pai, seguido depois pelo da mãe, que ele acredite que se tratassem de casos de seqüestros, motivados pelo envolvimento dos ingleses tanto no tráfico de ópio quanto nas campanhas contra isso. Isso o leva a fazer da vida de detetive uma profissão, na qual obtém algum sucesso.

O livro, contudo, como o próprio autor mencionou, não é sua obra-prima. Muito bem escrito, e com descrições muito boas do ambiente que Christopher percebe a seu redor, a trama, contudo, perde-se em inconsistências. Há uma profusão de confusões que o personagem quer acreditar como fatos verdadeiros, que enfraquecem o texto.

Uma leitura agradável, desde o ponto de vista formal, mas um pouco frágil no que se refere ao desenrolar da história.

Vale, porém, um alerta: o tráfico de drogas, como uma forma de dominação de populações, é uma política que se utiliza ao longo da história.

O Último Suspiro do Mouro

O Último Suspiro do Mouro (The Moor’s last sigh), de Salman Rushdie (Editora Planeta DaGostini, 2003, 450 p., R$ 16,90), é um livro muito interessante. Além disso, a  tradução feita por Paulo Henriques Britto brinca com as palavras em português e sabe manter os trocadilhos do original em inglês.

Não é um livro daqueles que a gente pega e devora em minutos, porque é denso, e cheio de complicadas palavras indianas onde os olhos tropeçam. Mas achei o livro uma obra-prima.
Livro para portugueses e brasileiros lerem. Afinal de contas, sabemos o significado de Vasco da Gama, de Goa, de Salazar, e também de El Cid, de Isabel de Castela, e da conquista de Granada. Leitores de outros países podem não entender muitas coisas do livro, pois falta-lhes informação básica para isso.
Além disso, somos instruídos e sabemos quem foi Nehru, Indira, e todo o resto da curriola que é mencionada nas páginas. Involuntariamente, até fazemos comparações com dinastias de políticos brasileiros. Sabemos o que é um sikh, um muçulmano e um parse (zoroastriano como o Freddie Mercury), como também conhecemos ao menos um pouco do pensamento católico e do judaico . O livro mostra que, ao contrário do que se diz vulgarmente, deveríamos ter orgulho de sermos herdeiros da civilização lusíada.

O livro tem palavrões, mas palavrões que cabem nas horas certas, de raiva, de explosões. Não estão no texto por modernismo bobo de reprimidos.
Tem sexo, mas sexo em horas devidas, e não expostas a todo instante, como fazem escritores impotentes, que querem fingir a sexualidade já perdida.
Mostra que corrupção na Índia tem cara parecida com corrupção no Brasil.
Mostram, também, que Bombaim pode ser São Paulo ou Rio de Janeiro. Basta apenas observar e encontrar todas as semelhanças.
O livro fala dessa classe que se denomina artística, que tem a mesma cara pretensiosa e afrescalhada em todos os lugares.

Um livro que enriquece o leitor.

Voragem (e P.S.)

Li nos últimos dias um livro escrito em 1928, do escritor japonês Junichiro Tanizaki (Voragem, Planeta deAgostini, 2003, 240 p., R$ 16,90).

O título em inglês do livro é Quicksand (areia movediça), e o original japonês é Manji, o símbolo da suástica budista.

O romance, de leitura ágil, conta com um excelente trabalho de tradução de Leiko Gotoda, que também esclarece ao leitor brasileiro informações e conceitos do Japão da primeira metade do século XX.

Narra um triângulo (quadrilatéro ?) amoroso entre duas jovens mulheres japonesas, o marido de uma e o noivo de outra.

O livro é cheio de erotismo, em linguagem que não apela a menções explícitas a atos sexuais, bem diferente de obras de autores brasileiros ou de língua espanhola, como Vargas Llosa e Mário Prata, que beiram a pornografia dos frustrados por vida sexual insatisfatória.

Com Voragem, descobri que nada tenho contra livros de teor erótico; do que não gosto é dessa literatura sexual que mencionei acima.

P.S. O livro no final cria uma dúvida: quem traiu quem? Quem manipulou os outros?