papa Leão I

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial: a diplomacia pontifícia da Guerra Fria aos nossos dias, de Anna Carletti (FUNAG, 2012, 228 p.), supre uma lacuna nos livros sobre a igreja católica, ao tratar de sua diplomacia, as relações com outros países, com organismos internacionais e também com outras igrejas. Logo no início faz uma interessante apresentação das muitas instituições que auxiliam o papado na condução da igreja e nos assuntos internos e externos do Vaticano.

Ao contrário do que o título sugere, a obra inicia seu estudo com as relações entre o papado e o Império Bizantino, estendendo-se pela história da Europa Ocidental, de Carlos Magno (século VIII) à unificação italiana, quando desapareceram os Estados Pontifícios (1870), e o papa declarou-se “prisioneiro do Vaticano”.

Naturalmente enfatiza o período que se seguiu a essa data, marcando com detalhes o pontificado de todos os papas desde então. Demonstra a influência canônica de Leão XIII e de Pio X, o período internacionalmente conturbado que coincidiu com o reinado de Bento XV, a seqüência dos papados conservadores de Pio XI e Pio XII (relação com o nazi-fascismo), até a reviravolta produzida pela renovação trazida com João XXIII, Paulo VI e o curtíssimo período de João Paulo I. Fala do longo reinado de João Paulo II e do atual período de Bento XVI, concluindo:

Bento XVI luta contra o que ele considera um inimigo invisível, mas presente: o relativismo. Mesmo apresentando elementos de continuidade em relação ao seu predecessor, o pontificado de Bento XVI abandonou a teatralidade dos gestos de João Paulo II, privilegiando tons mais sóbrios, que chamam a atenção mais pelo conteúdo de seus discursos do que pelos gestos do pontífice. O diálogo até discreto com pequenos grupos parece ser a estratégia preferida do papa-professor.

Eu, particularmente, sempre preferi a racionalidade de Ratzinger ao emocionalismo de Wojtyla.

O livro precisaria, contudo, ter tido uma melhor revisão. Mais de uma vez surge a informação – errada – de que “o primeiro papa estrangeiro foi Adriano VI, eleito em 1523”. Em primeiro lugar, o que é estrangeiro? Pedro, que eu me lembre, era da Galiléia, e não tinha cidadania romana. Entre ele e Adriano houve papas africanos, sírios, franceses, espanhóis, etc.. Então, entre Adriano VI e João Paulo II deve-se dizer que o flamengo foi o último papa não italiano antes de Wojtyla.

Em mais de uma vez, também, a autora confunde Núncio/Embaixador DE com Núncio/Embaixador EM.

Erros de regência também são encontrados com freqüência maior do que a desejável em uma obra acadêmica. Não comprometem o conteúdo do livro, mas deixam a desejar com relação à acuidade da obra.

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Átila, o huno

Átila, o huno, o rei bárbaro que desafiou Roma, de John Man (1941) (Ediouro, 2006, tradução de Alice Xavier, 300 p., R$ 39,90) foi um livro que li em agosto de 2009.

O livro tem aspectos interessantes, pois mostra a invasão e o fluxo dos diversos povos “bárbaros” (como os greco-romanos chamavam), no século V, em um período em que os dois impérios romanos, o do Ocidente e o do Oriente (Constantinopla), não apenas se digladiavam política mas também teològicamente, dando oportunidade para que alanos, visigodos, ostrogodos, burgúndios, vândalos e hunos rompessem a estrutura da Europa.

Levanta também hipóteses sobre a ligação entre hunos e os xiongnu, povo de Tuva (na região entre a Sibéria e a Mongólia, caracterizada pelos throat singers encontráveis no Youtube), mas derruba as ligações entre os magiares e os hunos. Ou seja, as famílias nobres húngaras não são descendentes de Átila, embora tenham mandado confeccionar árvores genealógicas em que afirmam essa tolice.

Por sua vez, o autor perde tempo demasiado falando da arte dos arqueiros a cavalo dotados de habilidades como as dos míticos centauros (sobretudo de um húngaro Lajos Kassai, que fez escola e hoje ganha dinheiro com suas franquias, com a da amazona alemã Petra Engeländer), só para demonstrar como os hunos eram hábeis no arco curvo e flecha.

O melhor do livro, porém, é a desmitificação de Átila. Uma das maiores promessas frustradas da História. Com um pouco mais de diplomacia, um pouco mais de bom senso, menos guerras e um compromisso com a administração ele poderia ter conseguido muito mais. Poderia ter conquistado todo o norte da Europa, criado uma dinastia para governar do Atlântico aos Montes Urais, dos Alpes ao Mar Báltico. Talvez, em algum universo paralelo, a Bretanha teria ficado para os hunos, em vez de para os anglo-saxões, e os Chaucers e os Shakespeares teriam escrito em huno, e todos nós poderiamos ter acabo adorando não o deus cristão, e sim algum Céu Azul xamânico.”

Interessante quantas mentiras foram inseridas na lenda da história, atribuídas a Átila, o flagelo de Deus. Essa é uma das frases. Outra é a de ter ido ao encontro do papa Leão I em Roma, se ele nunca cruzou o Rio Pó, etc, etc.

O livro pode ser útil, mas como mencionei, a excessiva descrição dos atributos de cavaleiro de Kasai podem ter outras razões. A obra teria ficado menos tediosa.

P.S. O autor repete uma descrição sobre o empalamento, de outro autor, e não é nada do que imaginamos. A vitima levava alguns dias para morrer, de sede, inanição e lenta hemorragia. Nada de morte rápida (de horas), como nos filmes. Conheciam bem a anatomia humana, para aplicar a tortura.