nazismo

A Lebre com Olhos de Âmbar

Quando eu estava na escola primária, na década de 1960, uma das coisas de que eu menos gostava, nas aulas de Linguagem, era a tal descrição.

Eu olhava para a imagem, e via um menino pescando em um córrego. Ponto final.

A professora (naquele tempo não era tia) dizia que eu tinha de descrever como era o calção, a camisa, a botina, a vara de pescar, a margem do córrego onde o menino estava sentado, a outra margem, a cor do céu, o formato de uma eventual nuvem, …. Tudo o que (para mim) era supérfluo era o que contava.

Ao ler A Lebra com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal (editora Intrínseca, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, 2011, 320 p.), tive a impressão de que estava em uma daquelas aulas.

A história (real) poderia se concentrar na vida da família Ephrussi, de comerciantes judeus que fizeram coleção de miniaturas japonesas (netsuguês), que percorreram o Japão, a Áustria e a Inglaterra, antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas não. o ceramista que escreveu o livro seguiu rigorosamente as orientações da professora de Linguagem.

A casa ficava em uma rua assim, tinha a fachada assado, as casas ao lado eram de outro estilo, a escadaria era… , o hall tinha móveis …, o andar de cima ….

Fiquei perdido no meio de tantas descrições.

E certamente o ceramista tinha muitos detalhes visuais para dar a tudo o que havia no cenário do livro.

Resultado: ao contrário da “crítica especializada”, achei o livro tedioso.

Prova de que contratar um “editor” pode dar bons resultados de venda, mas, dar ao livro o interesse que a indústria gráfica deseja, pode afastar uma outra parte do público leitor.

160 páginas poderiam dar conta do recado, pois, exceto o ponto de vista da família do autor, nem mesmo a parte histórica é algo que traga novidades, exceto o ponto de vista da família do autor. É apenas a descrição de cenas que foram mostradas em livros e em filmes.

 

O Penitente

O Penitente, de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, tradução de Jimi Joe, 1998, 166 p., R$ 9,50), é um daqueles livros que agarramos e não largamos enquanto não terminar a leitura.

Narra a história, datada em 1969, de um encontro entre o próprio autor e um americano bem sucedido que emigrara para Israel, fugindo das próprias frustrações e auto-avaliações.

Publicado em capítulos em 1973, em jornal iídiche, e como livro em 1983, o livro tem a atualidade dos dias de hoje. Parece descrever fatos da semana que acaba de ter transcorrido.

Leitura obrigatória. Imprescindível que se leia a Nota do Autor que conclui o livro, com o ponto de vista de Bashevis Singer distoando do personagem.

Escombros e Caprichos – Contos Alemães

Conto é um gênero literário de narrativa pouco extensa, com número reduzido de personagens ou tipos, e uma unidade temporal.

Essa definição, aceita pela maior parte dos professores de literatura, do mundo todo, não foi levada em conta quando publicado Escombros e Caprichos – O Melhor do Conto Alemão no Século 20, organização de Rolf G. Renner e Marcelo Backes (L&PM, 400 p., 2004, R$ 54,00).

Dividido em nove partes, uma das quais dedicada exclusivamente a autoras (sexo feminino) em língua alemã, e as demais aproximadamente divididas em períodos históricos do Século XX (pré-Guerra, Entre-Guerras, nazismo, Guerra Fria, reunificação alemã), o livro contém, várias vezes, textos que não foram redigidos como contos – foram adaptados a partir de algum capítulo de romances!

O resultado é que a leitura torna-se vazia, oca, pois esses “contos” não se concluem, não foram pensados em algum que era “completo em si mesmo”.
Não raras vezes a leitura torna-se entediante, e não há a fácil (e agradável) passagem para o conto seguinte, como ocorre, de modo geral, em livros de contos.

A conclusão a que cheguei foi que, por capricho dos organizadores, sobraram escombros do que seria o retrato da literatura EM ALEMÃO no século XX.

Ah, só mais um detalhe: coche, como carro, avião, cinema, tem ASSENTO, não “acento” (página 123).

O papa de Hitler – a história secreta de Pio XII

Há vários anos, ganhei de um então vizinho O papa de Hitler – a história secreta de Pio XII (John Cornwell, Imago, 472 p., 1999), e desde essa época o livro ficou em estantes. Resolvi agora “desvendar os segredos”, o que se tornou interessante depois de ter lido, há cerca de um ano, O Internacionalismo Vaticano e a Nova Ordem Mundial, de Anna Carletti.

Cornwell ganhou fama de mau escritor com sua polêmica, já que judeus escreveram depois para desmentir a obra do jornalista inglês e a suposta colaboração de Pio XII com relação ao extermínio de judeus, além de muitos outros artigos escritos por estudiosos de diferentes nacionalidades.

Li a tradução, por isso não sei como está no original inglês, mas o livro afirma que o Papa “Pio IX, popularmente conhecido como Pio Nono”. Pois é, Pio IX era conhecido como Pio Nono, e não como Leão Treze, ou João Terceiro, ou Adriano Sexto. Acho que o tradutor não percebeu a “pegadinha” da língua italiana que há em Nono (9.) e Nonno (avô), já que foi Pio IX foi o papa com mais longo reinado na história da Santa Sé. O tradutor tampouco teve tempo para pesquisar que Benedictus é traduzido para o português como Bento, e não como Benedito XV, quando assim chamou o papa eleito em 1914 e que morreu no início de 1922. Fosse hoje em dia ele teria tido a oportunidade de conhecer Bento XVI.

De qualquer forma, ao falar de Pio X (Pio Décimo, capisce?) Cornwell menciona que foi instituído

“uma forma de controle de pensamento que não tinha paralelo nem mesmo nos regimes fascistas e comunistas.”

Como fazer paralelismo entre o pensamento de um papa que morreu em 1910 com regimes políticos que surgiram mais tarde? Pio X inspirou os regimes fascistas e comunistas?

Consta do livro:

O Embaixador britânico em Berlim de 1930 a 1936 achava que Pacelli era “o diplomata mais bem-informado de Berlim”. Segundo a jornalista americana Dorothy Thompson, Pacelli era na verdade “o diplomata mais bem-informado da Alemanha.”

O que quer dizer isso? Fiquei na dúvida: Pacelli era um diplomata a serviço da Alemanha? Confesso que não sei como deve ser interpretado o texto. Redundância? Problema de tradução?

O autor defende categòricamente a tese de que Pacelli era inábil em termos de diplomacia, cargo que exerceu durante a maior parte do tempo em que foi sacerdote, antes do papado. sempre tendendo a favorecer os nazistas e a desprezar e/ou ignorar os problemas dos católicos e dos judeus.

 Como [Klaus] Scholder ressaltou: “diz sobre a habilidade de Pacelli o fato de ambas as partes acharem que ele estava do seu lado”. Não pode haver a menor dúvida, porém, de que a política de Pacelli, avaliada como um todo, era indubitavelmente a favor da conciliação [entre a Igreja Católica e o Reich nazista].

Será que Cornwell esperava que Pacelli, e todo o Vaticano, fizessem uma política de enfrentamento direto com o regime nazista?

O pior de todo o livro é que Cornwell, como muitos “intelectuais”, acha que a História pode ser contada com a visão de “como deveria ter sido, se ocorresse nos dias atuais”.  Isso, porém, é apenas teoria política e econômica, estòrinha da carochinha, não é o que aconteceu.
São muitas as partes do livro em que o autor usou o subjuntivo e o futuro do pretérito. Essa forma de escrever serve apenas para constituir especulações, não História.
Por isso Cornwell foi logo desmentido por tantos outros autores, que não fizeram interpretação de dados recolhidos em arquivos: leram ou narraram o que houve de concreto.

Passo de Caranguejo

Na última noite, às 4h00, terminei a leitura de um dos livros mais interessantes e bem escritos que li nos últimos 100 anos.

Passo de Caranguejo, do nobelizado Günter Grass (Editora Nova Fronteira, 2002, 205 p., Im Krebsgang no original, Crabwalk em inglês) narra, entrelaçando versões de uma senhora septuagenária, do filho jornalista, e do filho deste, com 17 anos, a história do afundamento do navio Wilhelm Gustloff, em janeiro de 1945.

Perdi uma parte do livro, no início, por não saber que o naufrágio do navio, real, provocou a morte de mais de 10.000 pessoas (isso mesmo, DEZ MIL pessoas), sendo o mais grave episódio do tipo em toda a história da humanidade. Muito mais importante do que Titanic, e outros desastres tão badalados na literatura, no cinema, e no imaginário popular.

Ao longo da leitura percebi que aquilo que estava escrito poderia ter um cunho de realidade, não era apenas um romance bem escrito por um grande autor contemporâneo. Li o que há na internet sobre o navio e seu afundamento por um submarino soviético, ao final da Segunda Guerra Mundial, e retomei a leitura do Passo de Caranguejo. Como o próprio livro menciona, há que retroceder para dar o pulo e avançar.

Juntando conflitos de gerações, pais frustrados, avós malucas, mães alienadas, filhos recalcados, alemães nazistas, comunistas, neo-nazistas, pseudo-liberais, etc., o romance desenrola, sob as versões de cada um dos três personagens que mencionei no início, quem foi o tal Gustloff homenageado por Hitler, seu assassinato na Suíça por um médico iugoslavo judeu, a construção do navio de cruzeiro sem classes (sociais), a transformação em navio-hospital, a derrota alemã na Prússia Oriental e a fuga da população para o que sobraria da Alemanha, a vida dos comandantes do navio e do submarino soviético de onde foram disparados os torpedos, e a vida das próprias pessoas da antiga Dantzig, da Alemanha do III Reich, da duas Alemanhas do pós-guerra, e as diferenças pós-reunificação.

Tudo MUITO bem escrito, muito bem descrito, bem de acordo com a realidade de cada época ao longo de 70 anos.

Recomendo a leitura do livro a todas as pessoas que gostam de boa literatura ou se interessam por História e problemas da psicologia política.

Ah, não posso deixar de comentar a alegria que me deu ver que na Alemanha não existem regras como as do nosso ECA.

A Nova Ordem Ecológica

A Nova Ordem Ecológica, do filósofo francês Luc Ferry (Editora Difel, 2009, 250 páginas), é um livro intrigante.

Demonstra o lado perigoso do ecoterrorismo que se imbui diàriamente nas mentes, sobretudo através das ONGs (boa parte delas Muito-Governamentais), e do Jornalismo engajado (e remunerado). Discorre sobre o sério risco de regredirmos a um estado inquisitorial que vigorava antes de termos adquirido, com a Revolução Francesa, os Direitos Humanos, e voltarmos a um direito baseado na Natureza divina.

O autor mostra a obscena ligação entre os Verdes (atuais) e as legislações editadas por Hitler em 1933, 1934 e 1935, algo de que os Verdes não gostam nem um pouco que seja mencionado. Como é que aquele homem, que gostava tanto de animais e da natureza romântica, pôde mandar praticar atos de crueldade contra seres humanos tão marcantes na História?

[Em Fascismo de Esquerda, Jonah Goldberg, Editora Record, 2009, 545 p., há dois subcapítulos sobre Fascismo Verde e A Cultura Nazista do Orgânico, que abordam essa “coincidência”.]

Questiona a posição dos ecochatos de pleitearem valores e direitos a minerais, por exemplo, tal como já ocorreu, recentemente, nos Estados Unidos. Mas, se os minerais não se manifestam, esses valores e direitos não são gerados a partir de idéias antropocêntricas? Como uma ONG pode saber o que é melhor para um rochedo em uma montanha? Só mesmo com distorcidos valores fundamentalistas.

Nesse princípio radical, uma bactéria tem os mesmos direitos à vida que uma criança.

Aí reside o grande perigo dos Verdes e de todo o movimento ecológico: o fim da democracia, com o ressurgimento, no mundo ocidental, de valores teológico-políticos.

No fundo, fascistas são nossos amiguinhos da esquerda festiva, camuflados de verdes.

[Mais um livro para ser lido. E você que ainda não o fez, procure Aquecimento Global: Ciência ou Religião?, do professor da UnB Gustavo M. Baptista.]