leitura difícil

O filho de mil homens

O filho de mil homens, de Válter Hugo Mãe (Cosac Naify, 2012, 208 p., R$ 21,00) é o que eu diria, em poucas palavras: Ô livro chato!

Nada contra o autor. Bem o contrário: gosto muito desse escritor lusitano.

Nada contra o tipo do romance, que percorre uns 20 anos para contar a vida de vários personagens de uma não-identificada cidadezinha a beira mar, que se entrelaçam em relações e em diferentes gerações.

O texto porém é um festival de preconceitos daquela gente interiorana do litoral (acho que era o objetivo do retrato que o autor fez), não poucas vezes em níveis chocantes.

Pior, a redação em sentido inverso amiúde o leitor confunde e a reler toda a frase o obriga.

Por um lado o livro quer ser realista, e de outro quer mostrar lirismo na louca fragilidade dos personagens.

Não deu samba, nem fado. Ficou petulante como um afroflamenco polifônico.

 

Uma Casa na Escuridão

Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto (Bertrand Editora – Portugal, 2008, 296 p., R$ 51,00) é um livro, como direi, estranho.

O livro é todo estranho.
Um escritor maluco que conversa com uma defunta,
um amigo dele que é pior,
a mãe que só come e dorme.

Mas a forma de escrever é interessante.

É como se fosse um poema longuíssississississimo,
que em cada página repete duzentas e trinta e oito vezes cada frase.

Passadas as primeiras cem páginas, porém, o livro resolve mostrar “o lado obscuro de Darth Vader”, ou de um Quentin Tarantino, sei lá, pois o que era apenas maluquice passa a ser o retrato de violência gratuita, com mutilações de pessoas, como símbolo das capacidades humanas que são perdidas. A capacidade de ouvir, a de amar, a de escrever e de andar, …  Sempre acrescidas das repetições ao longo de cada página, com mais alguns outros personagens mutilados e doentios.

Por que? Para que? Para chocar?

Parece que é mais grave.

Os títulos de outras obras do autor conduzem sempre a essa obsessão com a escuridão e com a morte envolvendo o cenário. Nenhum Olhar, A Criança em Ruínas, Cemitério de Pianos, Morreste-me, …

O que pretende o autor? Fazer experiências é uma das respostas.
Ser reconhecido como cult, claro que também é outra resposta óbvia.
O narcisismo é uma marca do autor, que pode ser comprovada em seu site e suas fotos.
Esbanja na intenção de mostrar a “contra-cultura” da contestação. Bem 1968, ainda… !!!!

Restaram em mim duas impressões, simultâneas e indeléveis: ele escreve bem; podia escrever sobre temas que não ficassem apenas no sur-realismo da violência.

Já temos demasiados problemas para, nas horas de repouso, ainda enfrentarmos a leitura de suas páginas.

Ah, em tempo:
Senhores editoras, não venham com esse “modernismo” de escrever, na capa, com pequenas letras brancas sobre fundo preto.
Um dia os jovens editores também ficarão velhos, e perceberão o quanto é difícil a leitura dessa “obra de arte”, mais repetida do que as frases de J. L. Peixoto.