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Férias Secretas

Férias secretas, da belga Maud Frère, foi escrito em 1956. Li sua 2a. edição da tradução brasileira (Edgar Magalhães), feita pela saudosa Editôra Brasiliense em 1962, dentro da coleção “Jovens do Mundo Todo”.

Livro para adolescentes (*), narra em primeira pessoa a história de um garoto francês que, driblando os planos da família, viaja escondido para passar férias na antiga fazenda do avô, que havia sido vendida após sua morte.

O livro até consegue prender a atenção de leitores de qualquer idade. A tradução, contudo, foi feita para contrariar o vocabulário de qualquer adolescente, mesmo em 1962 (ou em 1956). Isso certamente prejudica o livro, pois não consegue manter empatia entre o narrador e o leitor.

Alguma criança ou jovem diria, hoje ou há 60 anos: “anelávamos ser como ele”? Ou usaria a forma “mouta”, para dizer “fique na moita”, ao pedir o silêncio de um colega? Isso e mais uma porção de preciosismo da tradução de nomes de frutas ou de pássaros, que inexistem no Brasil e não interessam na compreensão do texto – palavras que apenas retardam o entendimento. Não parece que o livro tivesse sido escrito para adolescentes do século XX (e possìvelmente também do início do século XXI).

Pior, porém, foi encontrar em sites da internet que o exemplar do livro (da mesma edição que eu li) está à venda por R$ 38,00!  Isso é um roubo. Ainda bem que a prática de escambo de livros, e das doações, tem se disseminado por todo o Brasil.

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(*) do tempo em que a adolescência um dia terminava, e não se arrastava pelo resto da vida adulta.

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Água Viva

Água Viva, de Clarice Lispector (Rocco, 1998, 87 p.), pode ser chamado de um devaneio feminino.

Clarice, sem dúvida uma das mais importantes escritoras brasileiras, foi uma modernista engajada no existencialismo típico da metade do século XX. Sua escrita é essencialmente feminina, algo que, hoje em dia, tantas autoras tentam produzir, como se fosse isso uma obrigação; no caso atual, muito mais uma obrigação de engajamento com objetivos nìticamente comerciais, o que situa essas imitadoras a anos-luz de distância de Clarice.

Por sua vez, Clarice foi também uma precusora no modo de escrever, pois na forma de expor idéias, como em uma tempestade cerebral, ela antevia o que tanto se faz, hoje em dia, em blogues e em comunidades sociais da internet. Uma escrita sem previsibilidade, sem um destino final para o qual se encaminha, que pode variar instantâneamente de tema ou de opinião.

A grande diferença é que Clarice Lispector podia levar alguns anos até concluir e rever seus textos, muito diferente do que fazem imitadoras, que almejam um produto de divulgação rápida.

Água Viva, iniciado em 1970 e concluído em 1973,  e a Paixão segundo G.H., de 1964,  mantêm semelhanças de estilo, que se opõem ao mais conhecido trabalho A Hora da Estrela, concluído em 1977, uma obra cujos fragmentos juntam-se de forma muito mais linear.

Clarice Lispector não é para toda hora, mas é para sempre.

Platão e um ornitorrinco entram num bar…

Li em julho de 2009 “Platão e um ornitorrinco entram num bar“ (Plato and a Platypus Walk Into a Bar),  de Thomas Cathcart & Daniel Klein (Editora Objetiva, 2007), que tem ainda o subtítulo “A filosofia explicada com senso de humor” e que parece um livro muito mais velho do que o é, embora escrito, ou melhor, copyrighteado, em 2006.

O livro é formatado de modo a explicar a filosofia para quem não quer levar a sério as coisas sérias, como diz a maioria dos comentários que encontrei.

Existe porém algo que incomoda: as piadas já circularam pela internet muito antes de ela ter se popularizado no Brasil. Certamente não havia blogues, e eu não tinha uma lista com mais de 100 endereços eletrônicos diários quando li a maioria das piadinhas que estão inseridas no livro, para ilustrar as diversas escolas filosóficas.

Dessa forma, a sensação de algo passado, o déjà vu (ou déjà lu) incomoda. É difícil dar risada das velhas piadas que ainda circulam pela internet. É difícil dar risada das mesmas velhas piadas, mesmo que aplicadas a situações da história da filosofia. Nesse sentido, o livro perde seu objetivo, pois nem fica sério, nem vira gozação, é apenas mais uma repetição, ilustrativa.