feminino

A Amiga Genial

A Amiga Genial é o primeiro romance da série napolitana de Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2015, 332 p., R$ 19,00, tradução de Maurizio Santana Dias).

Narra a amizade de crianças e posteriormente adolescentes, na Nápoles do final dos anos 1950 e início dos anos 1960. Elena Greco, Lena, e Raffaella Cerullo, Lila, desenvolvem vidas que se cruzam na escola, na pobreza do bairro, nas relações com família e com professores. Uma eterna disputa entre qual é mais bonita, qual é mais inteligente, qual tem o melhor namorado, que Lena, a narradora, desenvolve com narrativa que prende a atenção.

Tece um retrato da pequena sociedade napolitana, em que os pais escondem dos filhos os anos vividos há pouco, da Guerra, com o fascismo, o comunismo, o dedo-durismo, a pobreza, a violência doméstica, a máfia dominando a cidade, a moral da época.

Comecei a leitura do livro achando-o ótimo, entusiasmado, mas à medida que as páginas foram se sucedendo e a idade dos personagens vai evoluindo, o livro torna-se enfadonho, com os problemas humanos e de relacionamento se repetindo, com aquele olhar “feminino” que estaciona em futilidades “jovens” e não alcança para algo mais profundo. A fase infantil das protagonistas é muito melhor.

Quando terminei a leitura, APESAR de ser um livro tão bem avaliado pela crítica dos jornais, decido que sou mais cricrítico e não darei continuidade à tetralogia.

Ah, e estou pouquíssimo preocupado com quem é na realidade Elena Ferrante. Pode ficar com o pseudônimo e os bisbilhoteiros que se preocupam com paparazzi e revistas de fofocas que façam suas descobertas. O livro aguçou meu mau humor. E dona Ferrante pode se casar com outros autores que escrevem pensando no lucro que obterão no próximo livro, como Conn Iggulden ou Rick Riordan.

Virginia Woolf – Contos Completos

Virginia Woolf – Contos Completos é um livro com uma bonita edição gráfica, da Cosac Naify, de 2005 (reedição em 2007)  (468 p.), com tradução de Leonardo Fróes e notas de Susan Dick.

O livro é dividido em etapas cronológicas da vida de Virginia (1882-1941):   Primeiros Contos (1906/1909) ; 1917-1921; 1922-1925; 1926-1941, com um total de 46 contos.
Pode-se ser observada claramente a mudança de estilo da grande escritora ao longo desses 35 anos de trabalho.
Os primeiros são nìtidamente arrastados, de leitura que não se fixa, mas vão se alterando progressivamente.

Alguns contos são nìtidamente crônicas que foram adaptadas. Outros apresentam um sutil humor ou alguma malícia. Há os que são apenas “confissões de luluzinhas” preocupadas com os assuntos femininos de casamento, filhos e casa, ou então o a roupa e o penteado para um jantar.
A variedade de conteúdos inclui também ficção que se assemelha a lendas, ou outros que são retratos visuais descritos em palavras.

Sem dúvida o livro é de leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais da literatura em língua inglesa da primeira metade do século XX.
A leitura deste livro me fez desejar reler o conhecido Orlando, romance publicado em 1928, do qual tenho vívidas lembranças passados já 36 anos da primeira vez em que o livro me caiu aos olhos.

Água Viva

Água Viva, de Clarice Lispector (Rocco, 1998, 87 p.), pode ser chamado de um devaneio feminino.

Clarice, sem dúvida uma das mais importantes escritoras brasileiras, foi uma modernista engajada no existencialismo típico da metade do século XX. Sua escrita é essencialmente feminina, algo que, hoje em dia, tantas autoras tentam produzir, como se fosse isso uma obrigação; no caso atual, muito mais uma obrigação de engajamento com objetivos nìticamente comerciais, o que situa essas imitadoras a anos-luz de distância de Clarice.

Por sua vez, Clarice foi também uma precusora no modo de escrever, pois na forma de expor idéias, como em uma tempestade cerebral, ela antevia o que tanto se faz, hoje em dia, em blogues e em comunidades sociais da internet. Uma escrita sem previsibilidade, sem um destino final para o qual se encaminha, que pode variar instantâneamente de tema ou de opinião.

A grande diferença é que Clarice Lispector podia levar alguns anos até concluir e rever seus textos, muito diferente do que fazem imitadoras, que almejam um produto de divulgação rápida.

Água Viva, iniciado em 1970 e concluído em 1973,  e a Paixão segundo G.H., de 1964,  mantêm semelhanças de estilo, que se opõem ao mais conhecido trabalho A Hora da Estrela, concluído em 1977, uma obra cujos fragmentos juntam-se de forma muito mais linear.

Clarice Lispector não é para toda hora, mas é para sempre.