Espanha

Lá sou amigo do rei

Lá sou amigo do rei, de Carlos Marques (Editora Geração, 2012, 264 p., R$ 39,90) conta as aventuras auto-bio-gráficas marco-polianas do jornalista, que foi da revista Manchete, da UNESCO, perseguido político, etc. e tal.

O livro oferece leitura bastante ágil. Termina com rapidez. Os temas são, de algum modo, curiosidades sobre o Brasil e fatos internacionais, de 1960 a 1999.

Como dito no próprio livro, um “Forrest Gump” brasileiro, que esteve presente em diversos fatos históricos. Castelo Branco, Fidel Castro, Geisel, Isabelita de Perón, a princesa Cristina de España (a mesma que hoje em dia é investigada por corrupção, com o marido), François Mitterand, Glauber Rocha, João Paulo II, Pelé, Salvador Dalí, etc., etc., etc., etc., etc., etc…

Sempre com visão esquerdista, porém, o autor adjetiva demais várias situações. Além disso, exagera no ego hiper-inflado. Isso o faz parecer mais um papagaio de pirata, e não um protagonista.

Essas falhas terminam por tirar relevância da obra, e a leitura do livro, no final, parece mais um artigo de revista de sala de espera de dentista. Algo para passar o tempo.
Influência da velha revista Manchete, talvez.

P.S. Como hábito, dei o livro após a leitura. A amiga que o recebeu comentou que achou o autor muito curioso, pois ele não esconde os inúmeros fracassos pessoais dos leitores, nem os profissionais nem os pessoais. Um ponto positivo para alguém que eu mencionei ter o ego hiper-inflado.

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A Carta Esférica

A Carta Esférica, de Arturo Pérez-Reverte (Planeta deAgostini, 2003, 530 p., R$ 16,90), trata de um grupo de pessoas na disputa por um tesouro de um navio de jesuítas, que, afundado no Mediterrâneo na metade do século XVIII, conteria esmeraldas em seu interior.

Os personagens principais são: um oficial da marinha mercante, suspenso por ter levado um navio ao encalhe; uma funcionária do museu naval espanhol, obcecada com o assunto do navio jesuíta; um empresário gibraltarino especializado em resgastes marítimos e caça a tesouros; um ex-suboficial argentino, com ligações à tortura na época  da ditadura militar em seu país; e o dono de um barco que participa da busca ao tesouro. “Gente fina”, acostumada a passar rasteiras nos outros.

O tema é banal, mas o livro é recheado de interessantes informações sobre navegação e sobre cartografia, como os equipamentos e métodos usados desde a Antigüidade para marcar a latitude e a longitude.

Os diálogos do livro em geral são entremeados de número excessivo de descrições, que tornam a linguagem um tanto rebuscada.

Um livro, nada mais, certamente não uma obra-prima.

Gallego

Gallego, do cubano Miguel Barnet (Alianza Editorial Madrid, 1987, 190 p.), é um romance que retrata a vida de um jovem camponês galego que decide emigrar para Havana, no início do século XX, e narra sua vida até chegar aos 80 anos.

O livro se desenvolve narrando a vida do rapaz na aldeia galega, a viagem de travessia por navio até Cuba, a chegada sem referências a um novo país, e o auxílio de outros galegos na busca de trabalho, na tentativa de economizar e poder ajudar o avô, a mãe e a irmã que ficaram na Espanha. No entanto, sem qualquer profissão definida, ao longo dos anos o galego trabalha como carregador no porto, entregador de carvão, limpador de chão, pedreiro, carpinteiro, funcionário da empresa de bondes, enquanto narra o dia a dia na cidade que lhe parecia grande, comparada com a aldeia natal. com oportunidades difíceis porém mais variadas, inclusive de relacionamentos com pessoas muito diferentes, e também com as tragédias recorrentes dos furacões da região.

Na metade da década de 1930 consegue fazer uma viagem de retorno a Pontevedra, mas compreende que não sente mais disposição para vida de aldeão, dedicado à agricultura ou à criação de cabras. Vai a Madri, e em seguida tem início a Guerra Civil, e alistando-se no exército republicano. Esse capítulo é altamente interessante, ao mostrar que a Espanha foi um caso raro de um país que buscou ajuda estrangeira para lutar contra seus próprios cidadãos (as aeronáuticas exércitos nazi-fascistas, aliadas a Franco, e os voluntários de diversas nacionalidades, do lado dos republicanos). A derrota dos republicanos e a internação em um campo de concentração francês, até conseguir, por intermédio da Cruz Vermelho e da ajuda de amigos cubanos, regressar a Cuba.

A reconstituição da vida em um país mergulhado em permanente corrupção e desmandos dos governantes, o casamento e a constituição de uma família própria, até chegar à velhice, já sob o regime de Fidel Castro, que interveio nas pequenas propriedades e lhe confiscou o pequeno estabelecimento de café que havia comprado e mantinha com a mulher. A aposentadoria do narrador.

O livro faz descrições muito interessantes sobre o cotidiano dos pobres, com partes em que menciona a santería praticada pelos cubanos, dada a formação do autor como etnólogo. Uma obra simples que, de modo conciso, aborda a vida de pessoas simples, durante as primeiras décadas do século passado. Sua leitura foi compensadora.

A Milenária Presença de Judeus na Itália

“A Milenária Presença de Judeus na Itália – Resgatando a memória da imigração de judeus italianos no Brasil (1938-1941)”, de Anna Rosa Campagnano e Sema Petragnani (editora Atheneu, 2007, 332 p., R$ 117,00), divide-se em duas partes.

A primeira trata da presença de judeus na Itália, desde tempos pré-cristãos até o final da Segunda Guerra Mundial. Trata das relações com os diferentes países que surgiram na península italiana, desde o Império Romano, bem como em países próximos, que tiveram relação com êxodos de judeus para a Itália, decorrentes de perseguições na Espanha, na Alemanha e no Império Austro-Húngaro. Comenta as alterações provocadas pela Revolução Francesa e sua Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Trata, também, das relações entre a igreja católica e as comunidades judaicas, nos dois milênios.

A segunda parte aborda a emigração de judeus italianos para o Brasil, como alternativa de fuga às perseguições anti-semitas na Itália, que inclusive provocaram as deportações para campos de concentração nazistas, a formação de um agrupamento irônicamente chamado Colônia Mussolini, para marcar o motivo do exílio forçado no Brasil. Conclui com depoimentos de pessoas ou de famílias de italianos judeus que buscaram abrigo no Brasil, no período de 1938 a 1941. Curiosamente encontrei narrativas de três professores que tive, que eu ignorava serem judeus.

O livro é muito bem ilustrado, e incorpora muitas informações em geral desconhecidas, sobre preconceitos surgidos na Idade Média e que se estenderam até o século XX. Contra o texto, algumas traduções mal feitas do italiano para o português, e algumas falhas na revisão, mas que não comprometem as informações contidas no livro.

A lamentar, porém, o alto preço do livro, que difìcilmente pode ser considerado acessível.

As Quatro Coroas de D. Pedro I

As Quatro Coroas de D. Pedro I (Editora Paz e Terra, 1996, 350 p., R$ 90,00) foi escrito por Sergio Corrêa da Costa em 1940, foi posteriormente aumentado para inclusão de um capítulo sobre o Rapto de D. Pedro Tentado pelos Argentinos.

Divide-se em seis partes:

I – D. Pedro e a coroa do Brasil, que inclui a independência do Brasil, os casamentos com Dona Leopoldina e com Dona Amélia de Leuchtenberg, a relação com a Marquesa de Santos, a cultura de D. Pedro (nada desprezível, sobretudo para os padrões atuais) e as relações com a maçonaria;

II – D. Pedro e a coroa da Grécia;

III – D. Pedro e a coroa da Espanha;

IV – D. Pedro e a coroa de Portugal;

V – Os grandes auxiliares de D. Pedro (Palmela, Saldanha e Mouzinho da Silveira);

VI – Pedro, o Magnânimo.
Ao contrário de tantas obras que preferem apresentar caricaturas do primeiro imperador do Brasil (e também rei de Portugal), o historiador demonstra as muitas qualidades de que desfrutava o Duque de Bragança.

Mostra Leopoldina como uma mulher interessada na política, mas realmente muito desinteressante no que se refere à feminilidade. Questiona fatos relacionados ao casal, que muitas vezes teriam sido inventados por Metternich, o chanceler austríaco, ainda ressentido de derrotas que sofreu com relação a Portugal após a queda de Napoleão. O livro também mostra Maria Domitila, a Marquesa de Santos, como uma mulher que praticou intensamente a caridade, e o autor pergunta por que a cristandade pôde perdoar e santificar Madalena, mas não pode retirar as pechas sexuais que ainda recaem sobre a dama brasileira.

O livro mantém muitos trechos originais de documentos em português e em outras línguas (espanhol, francês, italiano) que comprovam o respeito que as pessoas tinham por Pedro I em sua época.

Uma pena que se faça tanto esforço para desmantelar a importância de uma pessoa que viveu poucos anos (apenas 34) em nome de um pseudo-modernismo de correção política, històricamente mentiroso, incompatível com a época em que ocorreram os fatos a ela relacionados.