Eric Hobsbawm

Bandidos

Bandidos (Paz e Terra, 2010, 254 p., R$ 45,00), foi escrito por Eric Hobsbawm em 1969.

Fui lê-lo e me arrependi de ter dado dinheiro para quem receberá os direitos autorais pelo livro.
QUE COISA MAIS CHATA!!!

A impressão que tive foi a de que o autor pegou um monte de bandidos e misturou tudo no liqüidificador.

Pensei que fosse apenas no primeiro capítulo que ele fosse misturar Corisco com sei lá quem da Etiópia. Não!, continua por todo o livro essa coisa horrível. Não faz nenhuma apresentação de quem é quem, de que tipo de bandido é cada um, em que época cada um viveu. Parece que os leitores já tinham a obrigação de ter conhecido os fatos sobre bandidos e bandoleiros dos cinco continentes.

Parece que Hobsbawm teve “o prazer de conviver” com toda a relação de bandidos que cita ao longo do texto, durante muitos séculos. Um pouco mais de didatismo teria sido muito bem vindo, antes de soltar teorias e mais teorias sobre a sociologia do crime.

O velhinho inglês deveria aproveitar que ainda está vivo e atualizar o livro, para a inclusão de importantes bandidos brasileiros que surgiram na segunda metade do século XX, bem mais perigosos do que, por exemplo, Lampião e Maria Bonita. Um dia esses bandidos ainda podem passar para a história como meras lendas, tal como Robin Hood e Joaquín Murieta.

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P.S. Hoje, primeiro de outubro de 2012, E.J Hobsbawm morreu. Uma pena, em vários sentidos, mas não posso deixar de comentar que esta sua obra ficou mal arrumada.

Revolucionários

Revolucionários – Ensaios contemporâneos, de E. J. Hobsbawm (Paz e Terra, 2003, R$ 46,00, 278 p.), é uma coleção de artigos escritos pelo marxista empedernido na década de 1960/1970.

I. Comunistas (seis capítulos)

II. Anarquistas (três capítulos)

III. Marxismo (sete capítulos)

IV. Soldados e Guerrilhas (três capítulos)

V. Rebeldes e Revoluções (seis capítulos).

Tudo tão ideològicamente comprometido, que estraga as análises. Para variar, Hobsbawm com sua idolatria pela ex-Iugoslávia titoísta, que depois da morte do líder virou cenário de um dos maiores matadouros humanos, pois o que mantinha os iugoslavos unidos era apenas a ditadura comunista. (Vale o mesmo para a ex-URSS, com menos personalismo em alguns poucos anos – mas sempre ditaduras).

Dá para perceber fàcilmente que o autor pretende sempre menosprezar sua Inglaterra, e chega a elogiar o ditador golpista Napoleão, o Pequeno.

O artigo Hannah Arendt e a Revolução é de uma superficiliadade que demonstra um grave problema de inveja entre um pensador e outra.

Ao contrário de outras obras de Hobsbawm, este livro é absolutamente dispensável. Parece ter sido concebido pelos velhinhos que dão aulas em escolas da esquerda festiva, e que ainda louvam aquele guerrilheiro argentino que virou sex-symbol. O livro é uma coleção de artigos superados pelo próprio desenvolvimento do mundo, a ruína dos países ditos socialistas, e a ditadura do comunismo capitalista que surgiu na China. Não precisava ter sido reeditado.

Nações e Nacionalismo desde 1780

Nações e Nacionalismo desde 1780, Programa, Mito e Realidade, de Eric J. Hobsbwam (Nova Fronteira – Saraiva de Bolso, 2011, 241 p., R$ 14,00), foi escrito com base em conferências proferidas pelo historiador em Belfast (Irlanda do Norte), em 1985.

Como em suas outras obras, o autor enfoca o mito de nações, tão disseminado hoje em dia, e conseqüentes idéias como “patriotismo” e “independência”.

Logo na introdução, Hobsbawm explica que “nação é uma definição subjetiva, seja ela coletiva, seja individual”. Seus critérios mudam de acordo com as oportunidades e conveniências políticas. De um lado, “a palavra “nação” designa pessoas que pertencem a um Estado, mesmo que não falem a mesma língua”, de outro, pode ser utilizada de forma oposta, como “a insistência francesa na uniformidade lingüística, desde a Revolução”, pois adotar o francês era uma das condições da plena cidadania francesa (e, portanto, da nacionalidade). Como os conceitos franceses de “nação” de Ernest Renan foram formulados para opor-se aos conceitos alemães. Os mesmos franceses, por conveniência da nova república, alteraram “nossos ancestrais” de francos para gauleses, passando depois até para conceitos de eugenia. Anteriormente, Alexander Hamilton já tinha formulado formulou o conceito norte-americano de vinculação entre nação, o Estado e a economia. A nação italiana unificada em 1861, por sua vez, tinha uma língua nacional falada diàriamente por apenas 2,5% da população do novo reino, e a língua italiana ainda hoje luta para uniformizar-se, principalmente por conta da comunicação por rádio e televisão.

Muitos exemplos são utilizados no desenvolvimento da palavra “nação”. O uso da palavra “estoniano” ocorrido apenas na década de 1860; a alteração do significado da palavra “saks”(saxão), que antes denominava o “senhor”, o “mestre”, e depois passou a abranger os “alemães”; o conceito de Rússia como uma terra sagrada que tinha um tsar.

Enfatiza que “línguas mais prestigiosas, sagradas ou clássicas eram utilizadas pelas elites minoritárias como um meio perfeitamente prático de comunicação administrativa e intelectual, de debate público e mesmo de composição literária”, fosse na China, na Índia, na Pérsia ou nos países europeus.

Explica que os estereótipos raciais são montados sempre para ilustrar “os outros”, nunca “nós mesmos”. Isso quando, na verdade, havia na Europa muitos poucos Estados-nações genuìnamente homogêneos, com era o caso de Portugal.

Em função de exigências dos Estados, sobretudo em tempos de guerra, criou-se o “patriotismo”, a religião cívica das “nações”, ao mesmo tempo em que se inventaram “tradições”.

Ao decorrer das décadas, foi-se consolidando a pressão da economia, da tecnologia e da política, para tornar essencial uma língua comunicativa falada de massa – novamente reforçada pelas exigências dos meios de comunicação, inclusive o cinema. “Não são os problemas de comunicação, ou mesmo de cultura, que estão no coração do nacionalismo da língua, mas sim os de poder, status, política e ideologia.” Isso era sobretudo importante para que a classe média baixa fosse adquirindo possibilidades de novos empregos e novas colocações nas respectivas sociedades.

Muito interessante Hobsbawm apontar um fato de modo geral pouco conhecido: “Em 1894, Sabino Arana fundou o seu Partido Nacional Basco (PNV), inventando, a propósito, o nome basco para o país (Euskadi) até então inexistente.” O basco foi “ressuscitado” como língua de uso de uma população, tal como aconteceu com o gaélico na Irlanda, e o hebraico em Israel, já que não eram mais línguas conhecidas pela maioria dos moradores das respectivas regiões.

Em países que obtiveram a independência mais recentemente, como a Índia, e a maioria dos países africanos, usar o inglês ou francês era uma forma de que um grupo lingüístico não se submetesse à maioria, o que fez com que elites regionais mantivessem as respectivas preponderâncias locais.

Em locais como a Catalunha, a preferência por uma língua regional interessava aos provincianos, à classe média e aos intelectuais, uma vez que os anarquistas catalães conscientemente só expunham seus manifestos em espanhol.

No período entre as duas Guerras Mundiais, o futebol tornou-se a expressão de luta nacional. Um time com 11 pessoas foi alçado à representação real da Estados, nações ou comunidades imaginadas. O nacionalismo foi ràpidamente explorado pelos regimes fascistas do período.

Mais tarde, “o fato de jovens intelectuais da esquerda “festiva” terem circulado por movimentos de “libertação nacional” forneceu um ímpeto adicional para essa transformação da retórica nacionalista, em função de que os “povos” antiquados foram reclassificados como “colônias” a serem libertadas da exploração capitalista.” Na América Latina, foram intelectuais indigenistas, e não indígenas que sequer sabiam que viviam em determinado Estado, que criaram a necessidade de educação em língua vernácula indígena, até então sem escrita, mesmo que ser monolíngüe seja estar acorrentado. Aí existiu também uma oposição a conceitos religiosos, pois desde a independência, espanhóis e portugueses, indígenas e brancos, de todos “os países da América Latina sentiam-se fiéis filhos de Roma, e não podiam distinguir-se como comunidades por sua religião.”

O livro menciona, igualmente, as comunidades negras dos Estados Unidos, que não pretendem de forma alguma a “independência” de regiões, o que levaria a imensos deslocamentos de populações (como ocorreu em países europeus, depois da Primeira Guerra Mundial). Relata a paranóia política de se decretar, em alguns estados, o inglês como única língua oficial, pois os hispano-americanos não se preocuparam em aprender o inglês para a comunicação no país, ao contrário do que haviam feito anteriormente os imigrantes procedentes da Europa e da Ásia.

Menciona também o caso de que o “patriotismo” dos franco-canadenses do Québec relegou a segundo plano todas as comunidades de língua francesa nas outras províncias, além de ter provocado a perda do status de primeira metrópole que Montréal antes gozava, em detrimento de Ontário.

Hoje em dia,  todos os Estados consideram-se nações, em termos oficiais, mas muitos deles não tem nada em comum com o que o termo “Estado-nação” significa.

Por ter sido escrito em 1985, o autor não podia prever o esfacelamento de toda a União Soviética, embora tenha predito a independência dos três países bálticos. Não imaginou a reunificação alemã, mas previu o desmembramento da Tchecoslováquia. Infelizmente, mencionou que a Iugoslávia poderia vir a se romper, mas não imaginou que o “nacionalismo” iria ali provocar um dos maiores genocídios que já ocorreram na Europa.

Nações e Nacionalismo deveria ser um livro de leitura obrigatória. Ainda mais que R$ 14,00 são de fato um preço bom, praticado pela Saraiva (ao contrário dos romances de uma certa editora de griffe).