D. Pedro II

O Reino que Não Era deste Mundo

O Reino que Não Era deste Mundo – Crônica de uma República Não Proclamada, de Marcos Costa (editora Valentina, 2015, 271 p., R$ 34,90) foi uma surpresa para mim.

A principal diferença com outros livros da História do Brasil é que o autor é historiador (e professor de História na UNESP), e não jornalista. A forma de enfocar o tema não é de contar fatos, mas de analisar as causas deles.

Por isso, muitas “verdades” difundidas por outros autores caem por terra.
Mauá não foi “prejudicado” por Pedro II, como dizem alguns tantos. Tinha toda liberdade de ação, e agia na diversificação de atividades.
O Conde d’Eu não era um tipo leviano, desprezado pela população fluminense; ao contrário, estava muito bem preparado para agir na política brasileira e na área militar, dada sua formação Orléans.
Isabel não era uma princesa carola, porém uma pessoa interessada no futuro – tanto que na Fala do Trono, quando regente, não apenas anunciou a libertação dos escravos, como os planos de industrialização do país (inclusive com siderurgia), e a vinda de imigrantes para substituir a mão de obra (para horror dos fazendeiros).
Caxias era um tipo durão.
O Baile da Ilha Fiscal não foi vista como um “escândalo”, pela população.
E, por fim, Pedro Barbudo poderia ficar mesmo com o título Pedro Banana (no meu ponto de vista), pois preocupado com teorias e com suas revistas de ciências, esqueceu que tinha de governar o país.
Para ele, o exílio foi uma libertação para o ócio intelectual que foi desfrutar na Europa.
Poderia antes ter abdicado e ter desmontado os golpes da quartelada de 1889, no qual Deodoro foi figura importante e coadjuvante, ao mesmo tempo.
E mais, havia sim condições para uma reação de grupos militares em províncias, como a Bahia.

Nada como um historiador para colocar claramente o que jornalistas usam como doutrinação.
A linguagem é totalmente direta, cheia de expressões coloquiais, como se fosse uma aula em sala de adolescentes.
Não desperdiça páginas para descrever os sapatos da princesa, ou o papel timbrado da carta do marechal.

Nada mais “reacionário” (no pior exato sentido da palavra) do que a república que se instalou em 1889, pois não só era contra a modernização da economia brasileira, como também perpetuou as oligarquias rurais, impedindo que as classes urbanas assumissem maior papel na política.

 

 

 

 

A Capital da Solidão

A Capital da Solidão: uma história de São Paulo de suas origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo (Editora Objetiva, 2003, 417 p.), trata da história da cidade de São Paulo, desde antes de sua fundação, quando portugueses ainda estavam no litoral brasileiro.
Personagens como Martim Afonso de Sousa, João Ramalho, Padre Anchieta, e tantos outros fazem parte da formação de um pequeno ponto ocupado por portugueses no meio do vazio que era o interior do país. A mais brasileira das capitanias, onde predominou por séculos a mistura bastarda de brancos, índios e negros, e onde sequer se falava português, até a proibição do nheengatu pelo Marquês de Pombal.

O livro segue narrando o vazio que era a vila, ocupada com bandeirantes, com governadores que preferiam passar o menor tempo possível em um dos lugares mais atrasados da colônia portuguesa na América, sem pedras para servir de sustentação aos edifícios, construções de taipa.

Chegam aos poucos algumas inovações trazidas pelos imperadores, como a Faculdade de Direito, estudantes vindos de outras províncias, pequenos negociantes, chocados com a cultura local tão atrasado e “caipira”, até a introdução da cultura cafeeira na Província, que possibilitou a formação de fortunas locais, e a associação com capitais estrangeiros responsáveis por modernidades, como trens, bondes, indústrias têxteis.

Por fim, a república proclamada por escravagistas e as levas de imigrantes europeus que transformaram, de repente, a pequena cidade em uma metrópole, com a literal ruptura de todo o passado, feito de taipa, substituído por construções e comportamentos que tentavam imitar a Europa e os Estados Unidos.

A obra dispõe de muitas informações interessantes, obtidas em fontes confiáveis, mas tem um defeito imperdoável: o tom de deboche e de gozação com que fala do passado.
Atitude típica de “novo rico”, que quer ridicularizar parentes pobres e os antigos colegas.
O autor simplesmente trata o passado, seus personagens, suas preocupações e regras, como algo ridículo.
O que será que, daqui a 300 ou 400 anos, pensarão quem estiver interessado no modo de vida dos brasileiros na virada do século XX para o XXI? Provàvelmente que éramos todos uns debochados irresponsáveis e fúteis.

Vale a pena a leitura do livro, desde que se saiba eliminar do contexto brincadeiras que o autor pretendeu fazer, e todos os comentários jocosos. Aliás, feito isso, o livro teria umas 200 páginas, com informações relevantes sobre a origem e o desenvolvimento da aldeia que se transformou em uma grande metrópole. Teria sido uma obra recomendável e mais séria, tal como as fontes que foram pesquisadas.

O Castelo de Papel

O Castelo de Papel, de Mary del Priore (Rocco, 2013, 317 p., R$ 29,90), faz parte dos títulos sobre a monarquia brasileira escritos pela historiadora (A Carne e o Sangue; Condessa de Barral; O príncipe maldito).

O livro tem falhas de revisão, em datas e em palavras estrangeiras, mas é bem municiado de informações. A forma de escrever, porém, soa às vezes exageradamente coloquial, com excesso de frases de uma só palavra.

Ao tratar da vida da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, são retratadas várias décadas da história do Brasil. D. Pedro II, o Banana, é apresentado sempre como um sujeito “cinzento”, alguém cuja coloração é sempre desconhecida, que não compartilhava idéias e que não aceitava opiniões alheias. Isabel preocupava-se apenas com a família e com a religião, e dizia ostensivamente que tinha aversão aos assuntos políticos, e preferia ir às lojas ou às audições de música. Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, era, aos olhos dos políticos brasileiros, um estrangeiro demasiadamente liberal, e nunca foi aceito pela sempre xenófoba sociedade brasileira.

À parte o traçado da personalidade dessas figuras do Império, temos partidos políticos sem qualquer credibilidade, uma capital do país que se opunha aos interesses das províncias, um conjunto de figuras políticas de baixa qualificação e de pior estatura moral, que apenas buscavam proteger o interesse pessoal, mudavam de lado com a maior facilidade, e atacavam os adversários de forma muito baixa. De positivo, uma época em que a imprensa teve liberdade de expressão como nunca em qualquer outro período do Brasil.

O resultado é desalentador. Vemos que os mesmos temas de mais de um século e meio não foram resolvidos, porque outros D. Pedros IIs estiveram à frente do país, ou porque algumas Isabéis acreditam que conseguirão por força de algum milagre solucioná-los. Sempre os mesmos temas: desigualdade social, educação e saúde, transportes e comunicações.

Um livro que dá uma visão bem menos adocicada do final do Império, e que deve ser lido com outras obras de outros autores, para melhor situar o cidadão brasileiro sobre o que nos antecedeu e o que se seguiu. Indico a biografia de D. Pedro II escrita por José Murilo de Carvalho.

D. Pedro II

A Condessa de Barral me fez tomar coragem de ler D. Pedro II, de José Murilo de Carvalho (Companhia das Letras, 2007), que há muito tempo aguardava minha leitura.

José Murilo é um historiador de sentido mais tradicional, por isso o livro não tem a mesma fluidez das obras de Mary del Piore. Dessa forma, o livro não chega a parecer um romance – é exatamente um livro de história.

Mas a importância de D. Pedro II na formação do Brasil, e sua incontornável indecisão quando à abolição da escravidão, e suas conseqüências, é inquestionável.

Interessante o capítulo sobre a Guerra da Tríplice Aliança, travada com o inimigo errado (Paraguai) e com o aliado errado (Argentina).

Inegável que D. Pedro II foi o mais republicano de todos os governantes que o Brasil já conheceu. Avesso a todo tipo de salamaleques e de mamatas com dinheiro público. Exatamente o contrário de democratas, caudilhos, milicos e outros tipos de presidentes que o Brasil teve depois da proclamação da república.

Condessa de Barral, a paixão do imperador

Com certo atraso, retirei da estante um livro que me aguardava a leitura: Condessa de Barral, a paixão do imperador, de Mary del Priore (editora Objetiva, 2008).

Um pouco romanceado, o livro da historiadora narra muito bem a história da preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, que teve um caso amoroso com D. Pedro II, e influenciou de várias formas as relações no Brasil monárquico, como lutar pelo fim da escravidão. A importância das viagens de Barral pela Europa, desde a infância até a morte.

A vida de Barral é tão intensa e bem retratada, que o livro bem que poderia servir roteiro para um bom filme histórico. Fica a sugestão – só espero que não seja Carla Camurati, com seu deboche destrutivo, que pretenda levar a sério a empreitada.

O príncipe maldito

O príncipe maldito, traição e loucura na família imperial, de Mary del Priore (editora Objetiva, 2007), é o título do livro que trata da história de Pedro Augusto de Saxe e Coburgo (1866 – 1934), neto mais velho de D. Pedro II (filho da princesa mais nova, Leopoldina).

Um texto de história sobre um quase desconhecido membro da Família Imperial brasileira, que gozava com a predileção de D. Pedro II, mas que, após a proclamação da República e o exílio dos Braganças padeceu de grave doença mental, terminando a vida em um asilo austríaco.

Um livro bem escrito, com uma boa dose de curiosidade sobre a História do Brasil do século XIX.