Cuba

Contos Latino-Americanos Eternos

Reli nesta semana Contos Latino-Americanos Eternos, com organização de Alicia Ramal (Bom Texto, 302 p., 2005), que contém textos, todos na versão de tradução para o português, dos seguintes vinte e dois autores, que organizo por países:

  • Argentina – Adolfo Bloy Casares – Em Memória de Paulina (1948)
    • Jorge Luís Borges – O Aleph (1949)
    • Julio Cortázar – Casa Tomada (1951)
    • Leopoldo Lugones – Yzur (1926)
    • Roberto Artl – O Concurdinha (1933)
  • Brasil – Machado de Assis – Missa do Galo (1899)
    • Mário de Andrade – O Peru de Natal (1942)
    • Rubem Fonseca – Feliz Ano Novo (1975)
  • Chile – José Donoso – Uma Senhora (1970)
  • Colômbia – Gabriel García Márquez – Olhos de Cão Azul (1947)
  • Cuba – Alejo Carpentier – Viagem à Semente (1944)
  • Guatemala – Miguel Ángel Asturias – Lenda da Tatuana (1930)
  • México – Carlos Fuentes – Chac Mool (1954)
    • Juan Rulfo – Macário (1953)
    • Octavio Paz – Minha Vida com a Onda (1949)
  • Nicarágua – Rubén Darío – O Rei Burguês (1888)
  • Paraguai – Augusto Roa Bastos – O Trovão entre as Folhas (1953)
  • Peru – César Vallejo – Paco Yunque (1931)
    • Mario Vargas Llosa – Dia de Domingo (1959)
  • Uruguai – Horacio Quiroga – A Almofada de Penas (1917)
    • Juan Carlos Onetti – O Inferno Tão Temido (1967)
    • Mario Benedetti – À Imagem e Semelhança (1968)

Agora tenho de blasfemar contra a tão  decantada e prestigiada literatura “latino-americana”.
De início, tenho de dizer que a Professora Ramal pegou o trilho errado e parece preferir um insignificante eterno, como aparece no título da coletânea.
Fora que a seleção, tão “cuidadosa” incorporou alguns textos que até eu, que sou francamente contrário à hipocrisia do polìticamente correto, fiquei revoltado e chocado com a obscena quantidade de preconceitos e difamações contra grupos generalizantes de pessoas, em alguns dos contos. Coisas da época, eu sei, e não vou pedir que os contos sejam re-escritos, para ficarem “ao sabor” dos emburrecidos leitores de 2014.

Faltaram no livro umas tantas muitas notas de rodapé, para que todos possam entender as expressões em guarani que recheiam O Trovão entre as Folhas. Eu tenho dicionário guarani-português, mas acredito que a imensa maioria dos brasileiros não tenham compreendido o significado das palavras nessa outra língua.
No entanto, em outros contos que incluem menção a personagens ou elementos do folclore local, existem notas de rodapé.

Sabem a conclusão a que chego?
Não existe literatura latindo-americana.
Existe um coitadismo chato, implantado no meio do aristocratismo “criollo”, e mais nada.
Os melhores são os brasileiros, os cisplatinos e, às vezes, mexicanos e argentinos.
De resto, só blablablá para agradar a socialistas de meia-tijela daquela europazinha pirenaica decadente e enfumaçada de tabacarias e conchavos, que costuma premiar os semelhantes.
Sempre a mesma coisa:
os oprimidos, o medo (ai, aquele medo de que os “outros” invadam meu terreno! – não raras vezes “os outros” somos nós, brasileiros), aquele romantismo água com açúcar, o sobrenatural barato que chamam de “fantástico”, e coisas do tipo.
No caso do Brasil, sempre transparece aquela ponta de mau-caratismo típica dos brasileiros, ricos ou pobres, brancos, pretos ou índios, urbanos ou caipiras.
No caso dos hispano-falantes, aquela lamentação, aquele complexo de perdidos no meio do caminho. Los olvidados
O pior é que há uma considerável parcela de brasileiros que compra a idéia de que somos “semelhantes”.
Hermanos, nós?
Jamais!
Nossos irmão são os lusitanos, os cabo-verdianos, os angolanos, os moçambicanos, os são-tomenses. Com esses sei, comprovei, que temos afinidades, inclusive afetivas, embora nem sempre coincidamos na forma de exprimir idéias.
Os outros são hermanos entre si, hijos de la misma p. madre patria, como eles mesmos dizem.
Não me incluam nessa!
Uma coisa muita boa na seleção de contos da Professora Ramal feita pela Bom Texto Editora: amo livros de capa dura. Deveriam ser mais freqüentes. Há muitos livros muito caros e com péssimo acabamento. Não é a capa que eleva seus preços.

Esquerda Caviar

Esquerda Caviar – A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo (Rodrigo Constantino, Editora Record, 2013, 423 p., R$ 42,00) caiu perfeitamente para muitos parentes, amigos, conhecidos e ex-colegas de trabalho. Confesso que eu algumas partes fui ao espelho e fiz um mea culpa.

O livro divide-se em três partes, a primeira das quais muito bem fundamentada, com muitas pensadores de um lado e do outro contrapostos, para que se possa ver com nitidez o quanto são ridículos, sujos, imbecilizantes e outras coisas mais, esses modismos hipócritas da correção política, das “minorias” no domínio da sociedade, e toda a “bondade rousseauniana” das leis que moldam as pessoas em robozinhos.

O capítulo sobre as origens da esquerda caviar, ou liberal limousine (EUA), champagne socialist (Inglaterra), radical chic (Itália), ou simplesmente a velha conhecida “esquerda festiva” dos centros acadêmicos, trata de vinte variantes: oportunismo hipócrita, narcisismo, elite culpada, tédio, histeria, racionalização, preguiça mental, ópio dos intelectuais, alienação, insegurança e covardia, medo, nihilismo, síndrome de Estocolmo, ressentimento, infantilidade, romantismo, desprezo popular, arrogância fatal, sede pelo poder, ignorância. Em seguida, fala sobre o duplipensar, ou seja, alterar o significado de palavras para que elas se encaixem ao pensamento polìticamente correto e hipócrita, e conclui essa primeira parte com o viés da imprensa.

A segunda parte menciona algumas das bandeiras que a esquerda caviar gosta de empunhar: a obsessão anti-americana, o ódio a Israël, o culto ao multiculturalismo (e ao Islã), os pacifistas, o mito Che Guevara, a ilha presídio de Cuba, os melancias (verde por fora e vermelho por dentro), os clichês de justiça social, os preconceitos dos que não têm preconceitos, as minorias, e a juventude utópica.

A terceira parte aborda alguns santos de pau oco, que ganham muito dinheiro às custas de propagandas e campanhas em prol da falsidade, e do escamoteio do estilo de vida desses mesmos santos: Obama, Gandhi, John Lennon, Noam Chomsky, Paul Krugman, Michael Moore, Sting, Al Gore, Peter Singer, John Kerry, Ted Kennedy, Bill Clinton, George Soros, Harrison Ford, Leonardo DiCaprio, Cameron Díaz, Robert Redford, Brad Pitt, Angelina Jolie, George Clooney, Barbra Streisand, Richard Gere, James Cameron, John Travolta, Bruce Springsteen, Oliver Stone, Whoopi Goldberg, Jack Nicholson, Matt Damon, Gérard Depardieu, Ben Affleck, Sean Penn, Bono Malo Vox, Oprah Winfrey, Benicio del Toro, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo, Wagner Moura, Eduardo Matarazzo Suplicy ex-Smith de Vasconcelos, Chico Alencar, Luciano Huck. Fora isso, muitos outros nomes são assinalados durante as duas partes anteriores, como Gilberto Gil, Fernanda Montenegro,
Desde o início do livro, Rodrigo Constantino salienta que não coloca em xeque o valor artístico das pessoas, mas a contradição entre o que dizem polìticamente e o estilo de vida que levam.

Não dá para concordar com tudo o que Rodrigo Constantino colocou no livro. Falar do Tibete como “vítima” é um tanto quanto “esquerdismo caviar” de muita gente que ignora que a região SEMPRE foi parte do império chinês, que NUNCA foi um país independente, que em 1911 deputados tibetanos fizeram parte da assembléia constituinte republicana chinesa (ou seja, eram parte da China), e que o que deixa o dalai lama indignado não é o domínio chinês, mas a perda do poder feudal que ele e seu clero exerciam sobre 85% da população tibetana que vivia em regime de servidão, para atender 10% de sacerdotes.
Só no finzinho do livro RC lembrou de juntar Mr. Richard Gere e Mr. Tenzin Gyatso no mesmo cesto de artistas festivos, caviarescos e champanhotes.

Interessante a menção final, de luz no fim do túnel, ao citar a mudança de opinião de Ferreira Gullar, enojado com o que seus antigos colegas “socialistas” têm feito nos últimos 90 anos. Um mar de sangue e um sem fim de prisões a quem os contrariar. Pena que o livro tenha sido escrito em 2013, e não tenha tido a oportunidade de incluir o que Eduardo Galeano disse em Brasília sobre “Veias Abertas da América-Latina”:

“Hoje não gostaria de reler o livro. Não me sinto mais ligado a esse livro como era. Quando escrevi, tinha 19, 20 anos. As veias abertas da América Latina tinha de ser um livro de economia política mas eu não tinha o conhecimento necessário para isso. A realidade mudou muito e eu também mudei”.

 

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial: a diplomacia pontifícia da Guerra Fria aos nossos dias, de Anna Carletti (FUNAG, 2012, 228 p.), supre uma lacuna nos livros sobre a igreja católica, ao tratar de sua diplomacia, as relações com outros países, com organismos internacionais e também com outras igrejas. Logo no início faz uma interessante apresentação das muitas instituições que auxiliam o papado na condução da igreja e nos assuntos internos e externos do Vaticano.

Ao contrário do que o título sugere, a obra inicia seu estudo com as relações entre o papado e o Império Bizantino, estendendo-se pela história da Europa Ocidental, de Carlos Magno (século VIII) à unificação italiana, quando desapareceram os Estados Pontifícios (1870), e o papa declarou-se “prisioneiro do Vaticano”.

Naturalmente enfatiza o período que se seguiu a essa data, marcando com detalhes o pontificado de todos os papas desde então. Demonstra a influência canônica de Leão XIII e de Pio X, o período internacionalmente conturbado que coincidiu com o reinado de Bento XV, a seqüência dos papados conservadores de Pio XI e Pio XII (relação com o nazi-fascismo), até a reviravolta produzida pela renovação trazida com João XXIII, Paulo VI e o curtíssimo período de João Paulo I. Fala do longo reinado de João Paulo II e do atual período de Bento XVI, concluindo:

Bento XVI luta contra o que ele considera um inimigo invisível, mas presente: o relativismo. Mesmo apresentando elementos de continuidade em relação ao seu predecessor, o pontificado de Bento XVI abandonou a teatralidade dos gestos de João Paulo II, privilegiando tons mais sóbrios, que chamam a atenção mais pelo conteúdo de seus discursos do que pelos gestos do pontífice. O diálogo até discreto com pequenos grupos parece ser a estratégia preferida do papa-professor.

Eu, particularmente, sempre preferi a racionalidade de Ratzinger ao emocionalismo de Wojtyla.

O livro precisaria, contudo, ter tido uma melhor revisão. Mais de uma vez surge a informação – errada – de que “o primeiro papa estrangeiro foi Adriano VI, eleito em 1523”. Em primeiro lugar, o que é estrangeiro? Pedro, que eu me lembre, era da Galiléia, e não tinha cidadania romana. Entre ele e Adriano houve papas africanos, sírios, franceses, espanhóis, etc.. Então, entre Adriano VI e João Paulo II deve-se dizer que o flamengo foi o último papa não italiano antes de Wojtyla.

Em mais de uma vez, também, a autora confunde Núncio/Embaixador DE com Núncio/Embaixador EM.

Erros de regência também são encontrados com freqüência maior do que a desejável em uma obra acadêmica. Não comprometem o conteúdo do livro, mas deixam a desejar com relação à acuidade da obra.

Gallego

Gallego, do cubano Miguel Barnet (Alianza Editorial Madrid, 1987, 190 p.), é um romance que retrata a vida de um jovem camponês galego que decide emigrar para Havana, no início do século XX, e narra sua vida até chegar aos 80 anos.

O livro se desenvolve narrando a vida do rapaz na aldeia galega, a viagem de travessia por navio até Cuba, a chegada sem referências a um novo país, e o auxílio de outros galegos na busca de trabalho, na tentativa de economizar e poder ajudar o avô, a mãe e a irmã que ficaram na Espanha. No entanto, sem qualquer profissão definida, ao longo dos anos o galego trabalha como carregador no porto, entregador de carvão, limpador de chão, pedreiro, carpinteiro, funcionário da empresa de bondes, enquanto narra o dia a dia na cidade que lhe parecia grande, comparada com a aldeia natal. com oportunidades difíceis porém mais variadas, inclusive de relacionamentos com pessoas muito diferentes, e também com as tragédias recorrentes dos furacões da região.

Na metade da década de 1930 consegue fazer uma viagem de retorno a Pontevedra, mas compreende que não sente mais disposição para vida de aldeão, dedicado à agricultura ou à criação de cabras. Vai a Madri, e em seguida tem início a Guerra Civil, e alistando-se no exército republicano. Esse capítulo é altamente interessante, ao mostrar que a Espanha foi um caso raro de um país que buscou ajuda estrangeira para lutar contra seus próprios cidadãos (as aeronáuticas exércitos nazi-fascistas, aliadas a Franco, e os voluntários de diversas nacionalidades, do lado dos republicanos). A derrota dos republicanos e a internação em um campo de concentração francês, até conseguir, por intermédio da Cruz Vermelho e da ajuda de amigos cubanos, regressar a Cuba.

A reconstituição da vida em um país mergulhado em permanente corrupção e desmandos dos governantes, o casamento e a constituição de uma família própria, até chegar à velhice, já sob o regime de Fidel Castro, que interveio nas pequenas propriedades e lhe confiscou o pequeno estabelecimento de café que havia comprado e mantinha com a mulher. A aposentadoria do narrador.

O livro faz descrições muito interessantes sobre o cotidiano dos pobres, com partes em que menciona a santería praticada pelos cubanos, dada a formação do autor como etnólogo. Uma obra simples que, de modo conciso, aborda a vida de pessoas simples, durante as primeiras décadas do século passado. Sua leitura foi compensadora.