críticos

A Lebre com Olhos de Âmbar

Quando eu estava na escola primária, na década de 1960, uma das coisas de que eu menos gostava, nas aulas de Linguagem, era a tal descrição.

Eu olhava para a imagem, e via um menino pescando em um córrego. Ponto final.

A professora (naquele tempo não era tia) dizia que eu tinha de descrever como era o calção, a camisa, a botina, a vara de pescar, a margem do córrego onde o menino estava sentado, a outra margem, a cor do céu, o formato de uma eventual nuvem, …. Tudo o que (para mim) era supérfluo era o que contava.

Ao ler A Lebra com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal (editora Intrínseca, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, 2011, 320 p.), tive a impressão de que estava em uma daquelas aulas.

A história (real) poderia se concentrar na vida da família Ephrussi, de comerciantes judeus que fizeram coleção de miniaturas japonesas (netsuguês), que percorreram o Japão, a Áustria e a Inglaterra, antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas não. o ceramista que escreveu o livro seguiu rigorosamente as orientações da professora de Linguagem.

A casa ficava em uma rua assim, tinha a fachada assado, as casas ao lado eram de outro estilo, a escadaria era… , o hall tinha móveis …, o andar de cima ….

Fiquei perdido no meio de tantas descrições.

E certamente o ceramista tinha muitos detalhes visuais para dar a tudo o que havia no cenário do livro.

Resultado: ao contrário da “crítica especializada”, achei o livro tedioso.

Prova de que contratar um “editor” pode dar bons resultados de venda, mas, dar ao livro o interesse que a indústria gráfica deseja, pode afastar uma outra parte do público leitor.

160 páginas poderiam dar conta do recado, pois, exceto o ponto de vista da família do autor, nem mesmo a parte histórica é algo que traga novidades, exceto o ponto de vista da família do autor. É apenas a descrição de cenas que foram mostradas em livros e em filmes.

 

1919

Consegui ler 1919, livro de John dos Passos (Abril Cultural, 1980, 396 p.), indecifràvelmente traduzido para o lusitanês por um gajo chamado Daniel Gonçalves, que recebeu o Grande Prémio de Tradução Literária em 1986. Acho que até portugueses têm dificuldade com tantas palavras difíceis…

O livro em si já é difícil, já que Passos muda de um personagem para outro (não há relação entre eles), e insere biografias, recortes de notícias da época (Romanov, Lênin, Wilson, o banqueiro J.P.Morgan, etc.), invencionices jornalísticas (Trotsky assassina Lenine no meio de uma desordem de bêbados) e anotações de pensamentos dele mesmo. O traductor faz sua parte (inclusive confunde a ilha de Dominica com a República Dominicana).

Como sugere o título, o livro se estende pelos anos da I Guerra Mundial – soldados, madames, políticos, diplomatas e afins, uma infinidade de Joes, viajando entre Estados Unidos, Europa e até Argentina.

À medida que avança, a leitura torna-se mais enfadonha. Um típico livro de um escritor que quis fazer experiência. E, claro, a “crítica” gostou, para não se assumir de enfadonha.

Quer ler? Ótimo. Será um exercício de vocabulário, e conhecimento histórico e, sobretudo, de paciência.

A Amiga Genial

A Amiga Genial é o primeiro romance da série napolitana de Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2015, 332 p., R$ 19,00, tradução de Maurizio Santana Dias).

Narra a amizade de crianças e posteriormente adolescentes, na Nápoles do final dos anos 1950 e início dos anos 1960. Elena Greco, Lena, e Raffaella Cerullo, Lila, desenvolvem vidas que se cruzam na escola, na pobreza do bairro, nas relações com família e com professores. Uma eterna disputa entre qual é mais bonita, qual é mais inteligente, qual tem o melhor namorado, que Lena, a narradora, desenvolve com narrativa que prende a atenção.

Tece um retrato da pequena sociedade napolitana, em que os pais escondem dos filhos os anos vividos há pouco, da Guerra, com o fascismo, o comunismo, o dedo-durismo, a pobreza, a violência doméstica, a máfia dominando a cidade, a moral da época.

Comecei a leitura do livro achando-o ótimo, entusiasmado, mas à medida que as páginas foram se sucedendo e a idade dos personagens vai evoluindo, o livro torna-se enfadonho, com os problemas humanos e de relacionamento se repetindo, com aquele olhar “feminino” que estaciona em futilidades “jovens” e não alcança para algo mais profundo. A fase infantil das protagonistas é muito melhor.

Quando terminei a leitura, APESAR de ser um livro tão bem avaliado pela crítica dos jornais, decido que sou mais cricrítico e não darei continuidade à tetralogia.

Ah, e estou pouquíssimo preocupado com quem é na realidade Elena Ferrante. Pode ficar com o pseudônimo e os bisbilhoteiros que se preocupam com paparazzi e revistas de fofocas que façam suas descobertas. O livro aguçou meu mau humor. E dona Ferrante pode se casar com outros autores que escrevem pensando no lucro que obterão no próximo livro, como Conn Iggulden ou Rick Riordan.

Associação Judaica de Polícia

Associação Judaica de Polícia, de Michael Chaban (Companhia das Letras, 2009, 472 p., tradução de Luiz A. de Araújo, revisão técnica de George Schlesinger) é um livro que já tentei ler algumas vezes.

Não adianta, não consigo chegar à centésima página.

O texto é chaterrésimo, parece que está sempre começando. Nada se desenrola. Fica sempre nas preliminares.

Hoje este livro sairá da estante e irá – literalmente – para uma lixeira em uma parada de ônibus aqui perto do apartamento.

Até já tentei vendê-lo em um sebo, mas não aceitaram. Disseram que já tem o suficiente desse livro “tão celebrado”.

Prova contumaz de que comentários de “jornalistas especializados” do The Guardian, Associated Press, International Herald Tribune e Esquire nunca devem ser levados em consideração quando se pretende algo parecido com literatura, e não apenas com o ego inflado de “intelectuais”, que pretendem ser engraçadinhos.

Ah, o livro se passa em um hipotético país judeu instalado no Alasca, de língua iídiche, depois de o território israelita ter sido inteiramente ocupado pelos vizinhos árabes.
Zero à esquerda é pouco. Aliás, parece que depois do primeiro zero houve uma vírgula, de tão ruim.

Isabel Allende

Li da escritora “chilena” Isabel Allende três livros:

  • La Casa de los Espíritus (1982),
  • De Amor y de Sombra (1984), e
  • Cuentos de Eva Luna (1990).

Nada excepcional como romances.
O filme “A casa dos espíritos”, dirigido por Billie August, de 1993, aliás foi muito mal adaptado. O “espírito” da cidade de Santiago, do livro, não combina com o cenário do Hemisfério Norte do filme. Para mim foi uma imensa decepção assisti-lo.
Os contos de Eva Luna (personagem de um romance anterior) foram muito mais interessantes como leitura.

Sente-se que o sucesso da autora era muito mais pela situação de exilada política, parente em segundo grau do ex-presidente socialista Salvador Allende. Coisas do jornalismo/crítica engajados polìticamente.

 

 

Guerra e Paz

Decretei guerra contra mim mesmo e me debrucei, durante dois meses, sobre Guerra e Paz , de Leão Tolstói (Editora Nova Aguilar, 1993, 1224 páginas dedicadas a esse texto).

Logo na primeira parte comentei que achava o livro chato, e apenas uma amiga me disse que tinha também se dedicado a ler a tão renomada “obra prima”.

Escrevi em mensagens de correio eletrônico:

  • Terminei a primeira parte de Guerra e Paz.
    Um monte de gente fútil foi a um monte de jantares idiotas.
    Seria só isso, se Pedro não tivesse amarrado um policial às costas de um urso e atirado ambos do alto de uma ponte em Moscou.
    Fim. Descobri por que os russos precisam dos patronímicos.
    Quem não se chama Mikhail se chama Ivan.
    Então você precisa saber se é o Mikhail Ivanovitch ou o Mikhail Mikhailovitch.tipo português:
    Joaquim Manuel e Manuel Joaquim.
    estás a ver? Agora os mancebos vão para a guerra, lutar contra os malvados e opressores franceses que cortavam cabeças de reis.
    Os velhos e a mulheres ficaram em Moscou e em Petersburgo para continuar as fofocas dos jantares idiotas.
  • Terminei a segunda parte de guerra e pás.
    Pás, com S mesmo, porque nessa segunda parte é só um monte de carroça de soldado e de carruagem de general atolando na lama.
    Tinham de pegar umas pás e limpar o caminho, para fazer valer a lustrada de botas que tinham caprichado no começo dessa parte. Se a primeira parte era fútil, a segunda não disse nada. Ainda bem que faltam só 1000 (mil) páginas para eu terminar a leitura. Pás já descobri o que significam,
    guerra é o que fazemos tentando ler essa “obra-sogra”.
  • Estou quase no fim do livro. Faltam só mil páginas.
  • Terceira parte:um monte de soldados correndo de um lado para outro
    três imperadores: o austríaco, o russo, e o usurpador corso
    um dos personagens do livro desaparece na batalha de Austerlitz
    Quarta parte:
    soldados tiram férias em Moscou
  • pior do que pensava
    não conta nada
    o cara virou carola, maçonizou-se, e foi visitar uns amigos
    o tsar e napoleinho encontraram-se no entre-guerras e trocaram juras de amor
    o livro não é muito bem escrito
    e a tradução não sabe usar ênclise e próclise
    a leitura fica mesmo só por conta de algumas curiosidades das velhas rússias

E tive como resposta:

Aleluia, você é a única pessoa que eu conheço que tem coragem de dizer isso. Acho o livro bem chatinho e o personagem do Pierre é simplesmente intragável.

Depois parei de comentar até que terminasse a leitura das 15 partes, do epílogo e do apêndice (tudo obra de Tolstói).
Personagens sem conteúdo, tanto entre as figuras imperais e da alta patente militar, como entre os condes, camponeses e as outras classes sociais.
Os amores e romances são de dar sono, pois os amorosos românticos não têm qualquer conteúdo. José de Alencar dava de 20 a 0 nesses russos.
O que se salva são descrições de cenários de guerra, e as incontáveis superstições que os russos cultiva(va)m com todo carinho.
O epílogo também tem aspectos interessantes, para refletirmos sobre história e historiadores.

Padre Sérgio é muito mais interessante.

Bem, Tolstói não foi exatamente um exemplo de boa pessoa. A forma como tratou a mulher é um exemplo.
Não merece ser “divinizado” por “críticos”.  Afinal de contas, quantidade não é qualidade.
Posso avisar que não é porque o livro é “muito grande” que não gostei dele. Há muito tempo, quando li os seis volumes de O Visconde de Bragelone (terceira parte de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas), não tive “sono”.

Como diria Shakespeare: much ado about nothing.