criminalidade

A Capital da Solidão

A Capital da Solidão: uma história de São Paulo de suas origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo (Editora Objetiva, 2003, 417 p.), trata da história da cidade de São Paulo, desde antes de sua fundação, quando portugueses ainda estavam no litoral brasileiro.
Personagens como Martim Afonso de Sousa, João Ramalho, Padre Anchieta, e tantos outros fazem parte da formação de um pequeno ponto ocupado por portugueses no meio do vazio que era o interior do país. A mais brasileira das capitanias, onde predominou por séculos a mistura bastarda de brancos, índios e negros, e onde sequer se falava português, até a proibição do nheengatu pelo Marquês de Pombal.

O livro segue narrando o vazio que era a vila, ocupada com bandeirantes, com governadores que preferiam passar o menor tempo possível em um dos lugares mais atrasados da colônia portuguesa na América, sem pedras para servir de sustentação aos edifícios, construções de taipa.

Chegam aos poucos algumas inovações trazidas pelos imperadores, como a Faculdade de Direito, estudantes vindos de outras províncias, pequenos negociantes, chocados com a cultura local tão atrasado e “caipira”, até a introdução da cultura cafeeira na Província, que possibilitou a formação de fortunas locais, e a associação com capitais estrangeiros responsáveis por modernidades, como trens, bondes, indústrias têxteis.

Por fim, a república proclamada por escravagistas e as levas de imigrantes europeus que transformaram, de repente, a pequena cidade em uma metrópole, com a literal ruptura de todo o passado, feito de taipa, substituído por construções e comportamentos que tentavam imitar a Europa e os Estados Unidos.

A obra dispõe de muitas informações interessantes, obtidas em fontes confiáveis, mas tem um defeito imperdoável: o tom de deboche e de gozação com que fala do passado.
Atitude típica de “novo rico”, que quer ridicularizar parentes pobres e os antigos colegas.
O autor simplesmente trata o passado, seus personagens, suas preocupações e regras, como algo ridículo.
O que será que, daqui a 300 ou 400 anos, pensarão quem estiver interessado no modo de vida dos brasileiros na virada do século XX para o XXI? Provàvelmente que éramos todos uns debochados irresponsáveis e fúteis.

Vale a pena a leitura do livro, desde que se saiba eliminar do contexto brincadeiras que o autor pretendeu fazer, e todos os comentários jocosos. Aliás, feito isso, o livro teria umas 200 páginas, com informações relevantes sobre a origem e o desenvolvimento da aldeia que se transformou em uma grande metrópole. Teria sido uma obra recomendável e mais séria, tal como as fontes que foram pesquisadas.

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Inferno

Lògicamente não é o livro de Dan Brown, já que nunca mais perderei meu tempo com esse escrivinhador.

Trata-se de livro com o mesmo título, Inferno, escrito por Patrícia Melo em 2003 (Planeta DeAgostini, 2003, 368 p. R$ 16,90).

Durante a infância, o menino José Luís Reis, o Reizinho, morador de uma favela no Rio de Janeiro, larga a escola e torna-se “olheiro” de um traficante no morro em que vive. Torna-se um viciado que perambula pelas ruas e becos, com o amigo Fake, um rapper. Apesar da tentativa da mãe, a empregada doméstica dona Alzira, em conseguir um trabalho como office-boy, o menino volta ao meio dos crimes, e passa a ser, outra vez, um dos “soldados” do traficante, ficando amigo de Leitor, um marginal intelectualizado, que defende a descriminalização das drogas.

A história percorre uns dez anos. José Luís sobe de grau na hierarquia do crime, e, antes de completar 18 anos, já matou várias pessoas, inclusive o chefe do tráfico naquela favela, tornando-se o líder comunitário e criminal.

A narrativa arrasta-se ao longo do livro, uma vez que assume ares de novela de televisão, com aquele Rio de Janeiro em que a Lagoa Rodrigo de Freitas é vizinha da Avenida Brasil. A maioria dos personagens degrada-se cada vez mais, enquanto as situações na favela (e suas vizinhas) apenas repetem o que já foi vivido sob outras lideranças.

O livro, que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura quando lançado, é apenas mais um dos amontoados de clichês de romantização dos criminosos, tão ao gosto da imprensa. Há romances policiais de autores brasileiros muito mais interessantes do que este.

Leitura como forma de ressocialização

24/11/2012 23h04 – Atualizado em 25/11/2012 00h00

Presos que lerem Dostoiévski terão pena reduzida em comarca de SC

Projeto da Vara Criminal de Joaçaba prevê redução de quatro dias da pena.
Proposta consiste na distribuição e leitura dos livros pelos apenados.

Géssica Valentini Do G1 SC

Detentos voluntários receberam um exemplar do livro, acompanhado de um dicionário (Foto: TJSC/Divulgação)
Detentos voluntários receberam um exemplar do livro, acompanhado de um dicionário (Foto: TJSC/Divulgação)

Um projeto da Vara Criminal de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, prevê a redução de até quatro dias na pena de detentos que lerem obras clássicas, de autores como Fiódor Dostoiévski. A proposta, chamada ‘Reeducação do Imaginário’, é coordenada pelo juiz Márcio Umberto Bragaglia e iniciou na manhã desta sexta-feira (23).

De acordo com o Tribunal de Justiça (TJ) do estado, a proposta consiste na distribuição dos livros aos apenados da comarca. Posteriormente, magistrado e assessores vão realizar entrevistas. “Os participantes que demonstrarem compreensão do conteúdo, respeitada a capacidade intelectual de cada apenado, poderão ser beneficiados com a remição de quatro dias de suas respectivas penas”, explica o TJ.

Apenados receberam o livro na sexta-feira (23), em Joaçaba (Foto: TJSC/Divulgação)Apenados receberam o livro na sexta-feira (23), em Joaçaba (Foto: TJSC/Divulgação)

“O projeto visa a reeducação do imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido na vida, os valores morais e religiosos tradicionais e a redenção pelo arrependimento sincero e pela melhora progressiva da personalidade, o que a educação pela leitura dos clássicos fomenta”, explicou o juiz Bragaglia.

O primeiro módulo prevê a leitura de ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski. No segundo módulo, os apenados devem ler ‘O Coração das Trevas’, de Joseph Konrad. Depois, estão previstas obras de autores como William Shakespeare, Charles Dickens, Walter Scott, Camilo Castelo Branco, entre outros. Os livros serão adquiridos em edições de bolso, com verbas de transação penal destinadas ao Conselho da Comunidade.

Na manhã de sexta (24), os participantes do projeto, todos apenados voluntários do Presídio Regional de Joaçaba, receberam uma edição de ‘Crime e Castigo’, acompanhada de um dicionário de bolso. As avaliações estão previstas para ocorrer após 30 dias. Ainda conforme o TJ, o projeto tem o apoio do Ministério Público de Santa Catarina.

Na prisão

Na prisão, de Kazuichi Hanawa (Conrad Livros, 236 p., 2005) é um livro-mangá, ou seja, livro no formato de história em quadrinhos japonesa, que se lê de trás para diante.

Narra histórias verdadeiras vividas pelo autor, em prisão na ilha de Hokkaido, durante o cumprimento de pena por porte ilegal de arma de fogo.

Descreve, em seus capítulos, minuciosamente, a vida em uma prisão japonesa, onde a hierarquia, o respeito e a ordem são os princípios fundamentais a que devem submeter-se os prisioneiros, pois o conceito não é o de “ressocializar” (mentira usada no sistema prisional brasileiro), mas punir quem cometeu algum crime.

Filme uma vez por mês (para os bem comportados), nada de “visitas íntimas”, trabalho obrigatório (e remunerado), uso de uniformes, dizer “por favor” e “obrigado” para tudo, inclusive para o pedido de uso de instalações sanitárias, nada de noticiários, e certamente sem o uso dos telefones celulares, a mais achinchalhada prática do sistema brasileiro.

Como explicado na introdução, “é óbvio que a prisão é opressora e não há nada de estranho quanto a carceiros despóticos”.

E, como também explicado na introdução, não há no mangá o sentido de denúncia, ou, em sentido contrário, o de arrependimento.

Enquanto isso o Japão continua sua vidinha, sem a interferência de “grupos de direitos dus mânu”, e sem tribunais da caduca OEA a dar palpites no que entende por “abusos”. Abuso é sustentarmos aquela organização internacional totalmente inútil e defasada.

Por falar nisso, com que freqüência temos notícias sobre revoltas em penitenciárias japonesas? Enquanto isso, na  América Latrina, como vão os direitos da população que é refém dus mânu?

Bandidos

Bandidos (Paz e Terra, 2010, 254 p., R$ 45,00), foi escrito por Eric Hobsbawm em 1969.

Fui lê-lo e me arrependi de ter dado dinheiro para quem receberá os direitos autorais pelo livro.
QUE COISA MAIS CHATA!!!

A impressão que tive foi a de que o autor pegou um monte de bandidos e misturou tudo no liqüidificador.

Pensei que fosse apenas no primeiro capítulo que ele fosse misturar Corisco com sei lá quem da Etiópia. Não!, continua por todo o livro essa coisa horrível. Não faz nenhuma apresentação de quem é quem, de que tipo de bandido é cada um, em que época cada um viveu. Parece que os leitores já tinham a obrigação de ter conhecido os fatos sobre bandidos e bandoleiros dos cinco continentes.

Parece que Hobsbawm teve “o prazer de conviver” com toda a relação de bandidos que cita ao longo do texto, durante muitos séculos. Um pouco mais de didatismo teria sido muito bem vindo, antes de soltar teorias e mais teorias sobre a sociologia do crime.

O velhinho inglês deveria aproveitar que ainda está vivo e atualizar o livro, para a inclusão de importantes bandidos brasileiros que surgiram na segunda metade do século XX, bem mais perigosos do que, por exemplo, Lampião e Maria Bonita. Um dia esses bandidos ainda podem passar para a história como meras lendas, tal como Robin Hood e Joaquín Murieta.

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P.S. Hoje, primeiro de outubro de 2012, E.J Hobsbawm morreu. Uma pena, em vários sentidos, mas não posso deixar de comentar que esta sua obra ficou mal arrumada.

Uma breve história do Brasil

De Mary del Priore e Renato Venancio (Editora Planeta, 2010, R$ 39,90), é um livro muito resumido, pois em suas 303 páginas abarca desde a viagem de Cabral à reeleição de Lula.

Um capítulo, porém, faz o livro valer a pena: Uma belle époque não tão belle, que trata da política deliberada dos governos da República Velha de implantar diferenças sociais através das diferenças étnicas.

As teorias positivistas, no início, e depois a própria letargia, criaram todo o mito da necessidade de branqueamento da população. A política levou, por exemplo, à substituição do entrudo pelo carnaval (com carros alegóricos e corsos), que imitavam Veneza. Crianças sem família, antes crianças desprotegidas, anjinhos, passaram a ser vistas como menores abandonados, potenciais membros das “classes perigosas”.

Nessa época, no Norte, renasceu a escravidão indígena, e no Oeste de São Paulo e de Santa Catarina massacraram-se populações de índios.
Uma belle époque nada bela, cujas conseqüências estão, por exemplo, nos problemas da criminalidade no Rio de Janeiro e em outras grandes cidades.