comunismo

O Penitente

O Penitente, de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, tradução de Jimi Joe, 1998, 166 p., R$ 9,50), é um daqueles livros que agarramos e não largamos enquanto não terminar a leitura.

Narra a história, datada em 1969, de um encontro entre o próprio autor e um americano bem sucedido que emigrara para Israel, fugindo das próprias frustrações e auto-avaliações.

Publicado em capítulos em 1973, em jornal iídiche, e como livro em 1983, o livro tem a atualidade dos dias de hoje. Parece descrever fatos da semana que acaba de ter transcorrido.

Leitura obrigatória. Imprescindível que se leia a Nota do Autor que conclui o livro, com o ponto de vista de Bashevis Singer distoando do personagem.

Italo Calvino

Italo Calvino, de Maria Angela Cernigliaro (EdiLingua, 2011, 80 p., R$ 43,41), é um livro didático (acompanhado de CD com o áudio dos textos), no nível B1-B2 Intermediário de aprendizes da língua italiana, dentro da coleção Primiracconti classici.

O livro contém 11 pequenos resumos de obras (contos ou capítulos) de Ítalo Calvino.

  1. Il giardino incantato
  2. l visconte dimezzato
  3. Il barone rampante
  4. Il cavaliere inesistente
  5. Il castelo dei destini incrociati
  6. Le città invisibili: La città de Leonia
  7. Se una notte d’inverno un viaggiatore
  8. Gli amori difficili: L’avventura di due sposi
  9. Marcovaldo: Il bosco sull’autostrada
  10. Marcovaldo: Il coniglio velenoso
  11. Palomar: Del prendersela coi giovani

Alguns desses textos enfocam a Idade Média, e outros o período final do século XX. Alguns são ‘realistas’ e outros ‘fantasias’. Calvino não deixa de inserir sua dose da visão política de quem foi membro do Partido Comunista Italiano.

O que mais me agradou foi “a aventura de dois cônjuges”,  que narra um casal de operários que trabalha em horários opostos (ela durante o dia e ele durante a noite)  e que mal tem tempo para trocarem palavras ou se amar.

Como já comentei anteriormente, o viajante em noite de inverno me parece petulante, pretensioso, típico de quem já desfrutava da fama.

Gostei muito do último texto, que aborda a dificuldade de relacionamento entre gerações. Os “adultos” costumam dizer que sou um velho ranzinza, mas os “jovens” gostam de conversar com o tio-vovô.  Talvez os “adultos” sejam mais refratários a novas idéias do que admitem.

Quando éramos órfãos

Quando éramos órfãos (Planeta DeAgostini, 2003, 393 p., R$ 16,90) é uma obra do escritor britânico Kazuo Ishiguro. Sim, britânico, apesar do nome e de ter nascido no Japão.

O livro narra, em primeira pessoa, a história de um homem inglês que passou parte da infância em Xangai, quando a cidade chinesa era dividida em setores internacionais, e quando os ingleses auferiam lucros fantásticos com o tráfico de ópio, para entorpecer os chineses, de modo que a comunidade internacional dominasse o país, sem necessitar ter os gastos que normalmente tinham de ser assumidos com as colônias tradicionais.

As recordações de Christopher Banks, esse personagem principal, estendem-se de 1930 a 1958. Nele misturam-se a tenra infância, o período em que, órfão, vai viver na Inglaterra com uma tia, a vida profissional como detetive, o retorno a Xangai (já durante a guerra entre Japão e China, que antecedeu a II Guerra Mundial, e com as lutas entre o exército nacionalista de Chiang Ka-Chek, e o movimento comunista de Mao Tsé-Tung, além de vários outros exércitos mercenários de líderes chineses de segundo plano), e a vida no início de sua velhice.

Quando criança, Christopher vive o desaparecimento do pai, seguido depois pelo da mãe, que ele acredite que se tratassem de casos de seqüestros, motivados pelo envolvimento dos ingleses tanto no tráfico de ópio quanto nas campanhas contra isso. Isso o leva a fazer da vida de detetive uma profissão, na qual obtém algum sucesso.

O livro, contudo, como o próprio autor mencionou, não é sua obra-prima. Muito bem escrito, e com descrições muito boas do ambiente que Christopher percebe a seu redor, a trama, contudo, perde-se em inconsistências. Há uma profusão de confusões que o personagem quer acreditar como fatos verdadeiros, que enfraquecem o texto.

Uma leitura agradável, desde o ponto de vista formal, mas um pouco frágil no que se refere ao desenrolar da história.

Vale, porém, um alerta: o tráfico de drogas, como uma forma de dominação de populações, é uma política que se utiliza ao longo da história.

Passo de Caranguejo

Na última noite, às 4h00, terminei a leitura de um dos livros mais interessantes e bem escritos que li nos últimos 100 anos.

Passo de Caranguejo, do nobelizado Günter Grass (Editora Nova Fronteira, 2002, 205 p., Im Krebsgang no original, Crabwalk em inglês) narra, entrelaçando versões de uma senhora septuagenária, do filho jornalista, e do filho deste, com 17 anos, a história do afundamento do navio Wilhelm Gustloff, em janeiro de 1945.

Perdi uma parte do livro, no início, por não saber que o naufrágio do navio, real, provocou a morte de mais de 10.000 pessoas (isso mesmo, DEZ MIL pessoas), sendo o mais grave episódio do tipo em toda a história da humanidade. Muito mais importante do que Titanic, e outros desastres tão badalados na literatura, no cinema, e no imaginário popular.

Ao longo da leitura percebi que aquilo que estava escrito poderia ter um cunho de realidade, não era apenas um romance bem escrito por um grande autor contemporâneo. Li o que há na internet sobre o navio e seu afundamento por um submarino soviético, ao final da Segunda Guerra Mundial, e retomei a leitura do Passo de Caranguejo. Como o próprio livro menciona, há que retroceder para dar o pulo e avançar.

Juntando conflitos de gerações, pais frustrados, avós malucas, mães alienadas, filhos recalcados, alemães nazistas, comunistas, neo-nazistas, pseudo-liberais, etc., o romance desenrola, sob as versões de cada um dos três personagens que mencionei no início, quem foi o tal Gustloff homenageado por Hitler, seu assassinato na Suíça por um médico iugoslavo judeu, a construção do navio de cruzeiro sem classes (sociais), a transformação em navio-hospital, a derrota alemã na Prússia Oriental e a fuga da população para o que sobraria da Alemanha, a vida dos comandantes do navio e do submarino soviético de onde foram disparados os torpedos, e a vida das próprias pessoas da antiga Dantzig, da Alemanha do III Reich, da duas Alemanhas do pós-guerra, e as diferenças pós-reunificação.

Tudo MUITO bem escrito, muito bem descrito, bem de acordo com a realidade de cada época ao longo de 70 anos.

Recomendo a leitura do livro a todas as pessoas que gostam de boa literatura ou se interessam por História e problemas da psicologia política.

Ah, não posso deixar de comentar a alegria que me deu ver que na Alemanha não existem regras como as do nosso ECA.