classe social

Guerra e Paz

Decretei guerra contra mim mesmo e me debrucei, durante dois meses, sobre Guerra e Paz , de Leão Tolstói (Editora Nova Aguilar, 1993, 1224 páginas dedicadas a esse texto).

Logo na primeira parte comentei que achava o livro chato, e apenas uma amiga me disse que tinha também se dedicado a ler a tão renomada “obra prima”.

Escrevi em mensagens de correio eletrônico:

  • Terminei a primeira parte de Guerra e Paz.
    Um monte de gente fútil foi a um monte de jantares idiotas.
    Seria só isso, se Pedro não tivesse amarrado um policial às costas de um urso e atirado ambos do alto de uma ponte em Moscou.
    Fim. Descobri por que os russos precisam dos patronímicos.
    Quem não se chama Mikhail se chama Ivan.
    Então você precisa saber se é o Mikhail Ivanovitch ou o Mikhail Mikhailovitch.tipo português:
    Joaquim Manuel e Manuel Joaquim.
    estás a ver? Agora os mancebos vão para a guerra, lutar contra os malvados e opressores franceses que cortavam cabeças de reis.
    Os velhos e a mulheres ficaram em Moscou e em Petersburgo para continuar as fofocas dos jantares idiotas.
  • Terminei a segunda parte de guerra e pás.
    Pás, com S mesmo, porque nessa segunda parte é só um monte de carroça de soldado e de carruagem de general atolando na lama.
    Tinham de pegar umas pás e limpar o caminho, para fazer valer a lustrada de botas que tinham caprichado no começo dessa parte. Se a primeira parte era fútil, a segunda não disse nada. Ainda bem que faltam só 1000 (mil) páginas para eu terminar a leitura. Pás já descobri o que significam,
    guerra é o que fazemos tentando ler essa “obra-sogra”.
  • Estou quase no fim do livro. Faltam só mil páginas.
  • Terceira parte:um monte de soldados correndo de um lado para outro
    três imperadores: o austríaco, o russo, e o usurpador corso
    um dos personagens do livro desaparece na batalha de Austerlitz
    Quarta parte:
    soldados tiram férias em Moscou
  • pior do que pensava
    não conta nada
    o cara virou carola, maçonizou-se, e foi visitar uns amigos
    o tsar e napoleinho encontraram-se no entre-guerras e trocaram juras de amor
    o livro não é muito bem escrito
    e a tradução não sabe usar ênclise e próclise
    a leitura fica mesmo só por conta de algumas curiosidades das velhas rússias

E tive como resposta:

Aleluia, você é a única pessoa que eu conheço que tem coragem de dizer isso. Acho o livro bem chatinho e o personagem do Pierre é simplesmente intragável.

Depois parei de comentar até que terminasse a leitura das 15 partes, do epílogo e do apêndice (tudo obra de Tolstói).
Personagens sem conteúdo, tanto entre as figuras imperais e da alta patente militar, como entre os condes, camponeses e as outras classes sociais.
Os amores e romances são de dar sono, pois os amorosos românticos não têm qualquer conteúdo. José de Alencar dava de 20 a 0 nesses russos.
O que se salva são descrições de cenários de guerra, e as incontáveis superstições que os russos cultiva(va)m com todo carinho.
O epílogo também tem aspectos interessantes, para refletirmos sobre história e historiadores.

Padre Sérgio é muito mais interessante.

Bem, Tolstói não foi exatamente um exemplo de boa pessoa. A forma como tratou a mulher é um exemplo.
Não merece ser “divinizado” por “críticos”.  Afinal de contas, quantidade não é qualidade.
Posso avisar que não é porque o livro é “muito grande” que não gostei dele. Há muito tempo, quando li os seis volumes de O Visconde de Bragelone (terceira parte de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas), não tive “sono”.

Como diria Shakespeare: much ado about nothing.

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Os melhores contos de Júlio Dinis – Histórias otimistas

Os melhores contos de Júlio Dinis – Histórias otimistas (Círculo do Livro, 1988, 253p. R$ 14,00) é uma seleção de textos do grande Júlio Dinis, com:

  • O canto da sereia
  • As apreensões de uma mãe
  • O espólio do sr. Cipriano
  • Uma flor de entre o gelo
  • Justiça de Sua Majestade.

Os textos são de uma escrita impecável, que justificam a fama do autor como um dos maiores escritores portugueses, o médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que morreu com apenas 32 anos, em 1871.  Os contos, porém, são demasiadamente marcados pela época e pela influência do romance água-com-açúcar (chamado de romance cor-de-rosa no prefácio de Fernando Correia da Silva). Faltam-lhes algo que saia dos chavões da vida no interior do Portugal e das preocupações das famílias em manter o bom nome e a boa posição no lugar que lhes cabia na sociedade.

Em “apreensões… “, Dinis satiriza em certa parte os vereadores (conselheiros municipais), esses seres que passam o tempo a fazer propostas inúteis, que apenas pensam em se encher com os cofres públicos, e nunca em servir a sociedade.

Do final do “uma flor…”, destaco, porém uma frase que me chamou a atenção:

É antes para comover do que para rir o espetáculo de um velho apaixonado. E o que julgo que nós todos devemos pedir a Deus é que nos não dê uma longa vida ao coração, se isto de paixões tem alguma coisa com ele, para que não seja o último a morrer.

Não é exatamente o que o mundo fez e continua a fazer: estimula a que paixões brotem onde o solo já está exaurido. Amor é sempre uma arma. Ainda mais quando pode envolver negócios.

Nações e Nacionalismo desde 1780

Nações e Nacionalismo desde 1780, Programa, Mito e Realidade, de Eric J. Hobsbwam (Nova Fronteira – Saraiva de Bolso, 2011, 241 p., R$ 14,00), foi escrito com base em conferências proferidas pelo historiador em Belfast (Irlanda do Norte), em 1985.

Como em suas outras obras, o autor enfoca o mito de nações, tão disseminado hoje em dia, e conseqüentes idéias como “patriotismo” e “independência”.

Logo na introdução, Hobsbawm explica que “nação é uma definição subjetiva, seja ela coletiva, seja individual”. Seus critérios mudam de acordo com as oportunidades e conveniências políticas. De um lado, “a palavra “nação” designa pessoas que pertencem a um Estado, mesmo que não falem a mesma língua”, de outro, pode ser utilizada de forma oposta, como “a insistência francesa na uniformidade lingüística, desde a Revolução”, pois adotar o francês era uma das condições da plena cidadania francesa (e, portanto, da nacionalidade). Como os conceitos franceses de “nação” de Ernest Renan foram formulados para opor-se aos conceitos alemães. Os mesmos franceses, por conveniência da nova república, alteraram “nossos ancestrais” de francos para gauleses, passando depois até para conceitos de eugenia. Anteriormente, Alexander Hamilton já tinha formulado formulou o conceito norte-americano de vinculação entre nação, o Estado e a economia. A nação italiana unificada em 1861, por sua vez, tinha uma língua nacional falada diàriamente por apenas 2,5% da população do novo reino, e a língua italiana ainda hoje luta para uniformizar-se, principalmente por conta da comunicação por rádio e televisão.

Muitos exemplos são utilizados no desenvolvimento da palavra “nação”. O uso da palavra “estoniano” ocorrido apenas na década de 1860; a alteração do significado da palavra “saks”(saxão), que antes denominava o “senhor”, o “mestre”, e depois passou a abranger os “alemães”; o conceito de Rússia como uma terra sagrada que tinha um tsar.

Enfatiza que “línguas mais prestigiosas, sagradas ou clássicas eram utilizadas pelas elites minoritárias como um meio perfeitamente prático de comunicação administrativa e intelectual, de debate público e mesmo de composição literária”, fosse na China, na Índia, na Pérsia ou nos países europeus.

Explica que os estereótipos raciais são montados sempre para ilustrar “os outros”, nunca “nós mesmos”. Isso quando, na verdade, havia na Europa muitos poucos Estados-nações genuìnamente homogêneos, com era o caso de Portugal.

Em função de exigências dos Estados, sobretudo em tempos de guerra, criou-se o “patriotismo”, a religião cívica das “nações”, ao mesmo tempo em que se inventaram “tradições”.

Ao decorrer das décadas, foi-se consolidando a pressão da economia, da tecnologia e da política, para tornar essencial uma língua comunicativa falada de massa – novamente reforçada pelas exigências dos meios de comunicação, inclusive o cinema. “Não são os problemas de comunicação, ou mesmo de cultura, que estão no coração do nacionalismo da língua, mas sim os de poder, status, política e ideologia.” Isso era sobretudo importante para que a classe média baixa fosse adquirindo possibilidades de novos empregos e novas colocações nas respectivas sociedades.

Muito interessante Hobsbawm apontar um fato de modo geral pouco conhecido: “Em 1894, Sabino Arana fundou o seu Partido Nacional Basco (PNV), inventando, a propósito, o nome basco para o país (Euskadi) até então inexistente.” O basco foi “ressuscitado” como língua de uso de uma população, tal como aconteceu com o gaélico na Irlanda, e o hebraico em Israel, já que não eram mais línguas conhecidas pela maioria dos moradores das respectivas regiões.

Em países que obtiveram a independência mais recentemente, como a Índia, e a maioria dos países africanos, usar o inglês ou francês era uma forma de que um grupo lingüístico não se submetesse à maioria, o que fez com que elites regionais mantivessem as respectivas preponderâncias locais.

Em locais como a Catalunha, a preferência por uma língua regional interessava aos provincianos, à classe média e aos intelectuais, uma vez que os anarquistas catalães conscientemente só expunham seus manifestos em espanhol.

No período entre as duas Guerras Mundiais, o futebol tornou-se a expressão de luta nacional. Um time com 11 pessoas foi alçado à representação real da Estados, nações ou comunidades imaginadas. O nacionalismo foi ràpidamente explorado pelos regimes fascistas do período.

Mais tarde, “o fato de jovens intelectuais da esquerda “festiva” terem circulado por movimentos de “libertação nacional” forneceu um ímpeto adicional para essa transformação da retórica nacionalista, em função de que os “povos” antiquados foram reclassificados como “colônias” a serem libertadas da exploração capitalista.” Na América Latina, foram intelectuais indigenistas, e não indígenas que sequer sabiam que viviam em determinado Estado, que criaram a necessidade de educação em língua vernácula indígena, até então sem escrita, mesmo que ser monolíngüe seja estar acorrentado. Aí existiu também uma oposição a conceitos religiosos, pois desde a independência, espanhóis e portugueses, indígenas e brancos, de todos “os países da América Latina sentiam-se fiéis filhos de Roma, e não podiam distinguir-se como comunidades por sua religião.”

O livro menciona, igualmente, as comunidades negras dos Estados Unidos, que não pretendem de forma alguma a “independência” de regiões, o que levaria a imensos deslocamentos de populações (como ocorreu em países europeus, depois da Primeira Guerra Mundial). Relata a paranóia política de se decretar, em alguns estados, o inglês como única língua oficial, pois os hispano-americanos não se preocuparam em aprender o inglês para a comunicação no país, ao contrário do que haviam feito anteriormente os imigrantes procedentes da Europa e da Ásia.

Menciona também o caso de que o “patriotismo” dos franco-canadenses do Québec relegou a segundo plano todas as comunidades de língua francesa nas outras províncias, além de ter provocado a perda do status de primeira metrópole que Montréal antes gozava, em detrimento de Ontário.

Hoje em dia,  todos os Estados consideram-se nações, em termos oficiais, mas muitos deles não tem nada em comum com o que o termo “Estado-nação” significa.

Por ter sido escrito em 1985, o autor não podia prever o esfacelamento de toda a União Soviética, embora tenha predito a independência dos três países bálticos. Não imaginou a reunificação alemã, mas previu o desmembramento da Tchecoslováquia. Infelizmente, mencionou que a Iugoslávia poderia vir a se romper, mas não imaginou que o “nacionalismo” iria ali provocar um dos maiores genocídios que já ocorreram na Europa.

Nações e Nacionalismo deveria ser um livro de leitura obrigatória. Ainda mais que R$ 14,00 são de fato um preço bom, praticado pela Saraiva (ao contrário dos romances de uma certa editora de griffe).