capa de livro

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault, (Martin Claret, tradução Renata Cordeiro, ilustrações Rafael Nunes Cerveglieri, prefácio de Aurora Gebra Ruiz Álvarez, 2015, 126 p, R$ 39,00) contém

  • A Bela Adormecida no bosque
  • Chapèuzinho Vermelho
  • Barba Azul
  • O Mestre Gato ou o Gato de Botas
  • As Fadas
  • Cinderela ou o sapatinho de vidro
  • Riquete do topete
  • O Pequeno Polegar
  • Pele de Asno (adaptação em prosa dos versos de Perrault)
  • Os Desejos rídiculos. (em versos).

Como enunciado no prefácio, a tradução e a adaptação não se colocam como as versões de Walt Disney, que, ao contrário das histórias originais. não se preocuparam com a inserção das “moralidades” de cada conto, como apareciam na literatura do Renascimento.

Os contos não contêm detalhes escatológicos que surgem em algumas versões, sendo de modo básico uma forma de ensinar ao público infantil valores e comportamentos, e menos uma análise psicológica.

O livro tem capa dura, e cada conto é precedido de uma bem feita ilustração.
A tradução preocupa-se em mostrar jogos de palavras e dubiedades que constam do original francês.

O preço demonstra que uma boa edição não necessàriamente faz com que os preços tenham de ser estratosféricos, como costuma ocorrer com algumas editoras de letras caras.

 

Uma Casa na Escuridão

Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto (Bertrand Editora – Portugal, 2008, 296 p., R$ 51,00) é um livro, como direi, estranho.

O livro é todo estranho.
Um escritor maluco que conversa com uma defunta,
um amigo dele que é pior,
a mãe que só come e dorme.

Mas a forma de escrever é interessante.

É como se fosse um poema longuíssississississimo,
que em cada página repete duzentas e trinta e oito vezes cada frase.

Passadas as primeiras cem páginas, porém, o livro resolve mostrar “o lado obscuro de Darth Vader”, ou de um Quentin Tarantino, sei lá, pois o que era apenas maluquice passa a ser o retrato de violência gratuita, com mutilações de pessoas, como símbolo das capacidades humanas que são perdidas. A capacidade de ouvir, a de amar, a de escrever e de andar, …  Sempre acrescidas das repetições ao longo de cada página, com mais alguns outros personagens mutilados e doentios.

Por que? Para que? Para chocar?

Parece que é mais grave.

Os títulos de outras obras do autor conduzem sempre a essa obsessão com a escuridão e com a morte envolvendo o cenário. Nenhum Olhar, A Criança em Ruínas, Cemitério de Pianos, Morreste-me, …

O que pretende o autor? Fazer experiências é uma das respostas.
Ser reconhecido como cult, claro que também é outra resposta óbvia.
O narcisismo é uma marca do autor, que pode ser comprovada em seu site e suas fotos.
Esbanja na intenção de mostrar a “contra-cultura” da contestação. Bem 1968, ainda… !!!!

Restaram em mim duas impressões, simultâneas e indeléveis: ele escreve bem; podia escrever sobre temas que não ficassem apenas no sur-realismo da violência.

Já temos demasiados problemas para, nas horas de repouso, ainda enfrentarmos a leitura de suas páginas.

Ah, em tempo:
Senhores editoras, não venham com esse “modernismo” de escrever, na capa, com pequenas letras brancas sobre fundo preto.
Um dia os jovens editores também ficarão velhos, e perceberão o quanto é difícil a leitura dessa “obra de arte”, mais repetida do que as frases de J. L. Peixoto.

Contos Latino-Americanos Eternos

Reli nesta semana Contos Latino-Americanos Eternos, com organização de Alicia Ramal (Bom Texto, 302 p., 2005), que contém textos, todos na versão de tradução para o português, dos seguintes vinte e dois autores, que organizo por países:

  • Argentina – Adolfo Bloy Casares – Em Memória de Paulina (1948)
    • Jorge Luís Borges – O Aleph (1949)
    • Julio Cortázar – Casa Tomada (1951)
    • Leopoldo Lugones – Yzur (1926)
    • Roberto Artl – O Concurdinha (1933)
  • Brasil – Machado de Assis – Missa do Galo (1899)
    • Mário de Andrade – O Peru de Natal (1942)
    • Rubem Fonseca – Feliz Ano Novo (1975)
  • Chile – José Donoso – Uma Senhora (1970)
  • Colômbia – Gabriel García Márquez – Olhos de Cão Azul (1947)
  • Cuba – Alejo Carpentier – Viagem à Semente (1944)
  • Guatemala – Miguel Ángel Asturias – Lenda da Tatuana (1930)
  • México – Carlos Fuentes – Chac Mool (1954)
    • Juan Rulfo – Macário (1953)
    • Octavio Paz – Minha Vida com a Onda (1949)
  • Nicarágua – Rubén Darío – O Rei Burguês (1888)
  • Paraguai – Augusto Roa Bastos – O Trovão entre as Folhas (1953)
  • Peru – César Vallejo – Paco Yunque (1931)
    • Mario Vargas Llosa – Dia de Domingo (1959)
  • Uruguai – Horacio Quiroga – A Almofada de Penas (1917)
    • Juan Carlos Onetti – O Inferno Tão Temido (1967)
    • Mario Benedetti – À Imagem e Semelhança (1968)

Agora tenho de blasfemar contra a tão  decantada e prestigiada literatura “latino-americana”.
De início, tenho de dizer que a Professora Ramal pegou o trilho errado e parece preferir um insignificante eterno, como aparece no título da coletânea.
Fora que a seleção, tão “cuidadosa” incorporou alguns textos que até eu, que sou francamente contrário à hipocrisia do polìticamente correto, fiquei revoltado e chocado com a obscena quantidade de preconceitos e difamações contra grupos generalizantes de pessoas, em alguns dos contos. Coisas da época, eu sei, e não vou pedir que os contos sejam re-escritos, para ficarem “ao sabor” dos emburrecidos leitores de 2014.

Faltaram no livro umas tantas muitas notas de rodapé, para que todos possam entender as expressões em guarani que recheiam O Trovão entre as Folhas. Eu tenho dicionário guarani-português, mas acredito que a imensa maioria dos brasileiros não tenham compreendido o significado das palavras nessa outra língua.
No entanto, em outros contos que incluem menção a personagens ou elementos do folclore local, existem notas de rodapé.

Sabem a conclusão a que chego?
Não existe literatura latindo-americana.
Existe um coitadismo chato, implantado no meio do aristocratismo “criollo”, e mais nada.
Os melhores são os brasileiros, os cisplatinos e, às vezes, mexicanos e argentinos.
De resto, só blablablá para agradar a socialistas de meia-tijela daquela europazinha pirenaica decadente e enfumaçada de tabacarias e conchavos, que costuma premiar os semelhantes.
Sempre a mesma coisa:
os oprimidos, o medo (ai, aquele medo de que os “outros” invadam meu terreno! – não raras vezes “os outros” somos nós, brasileiros), aquele romantismo água com açúcar, o sobrenatural barato que chamam de “fantástico”, e coisas do tipo.
No caso do Brasil, sempre transparece aquela ponta de mau-caratismo típica dos brasileiros, ricos ou pobres, brancos, pretos ou índios, urbanos ou caipiras.
No caso dos hispano-falantes, aquela lamentação, aquele complexo de perdidos no meio do caminho. Los olvidados
O pior é que há uma considerável parcela de brasileiros que compra a idéia de que somos “semelhantes”.
Hermanos, nós?
Jamais!
Nossos irmão são os lusitanos, os cabo-verdianos, os angolanos, os moçambicanos, os são-tomenses. Com esses sei, comprovei, que temos afinidades, inclusive afetivas, embora nem sempre coincidamos na forma de exprimir idéias.
Os outros são hermanos entre si, hijos de la misma p. madre patria, como eles mesmos dizem.
Não me incluam nessa!
Uma coisa muita boa na seleção de contos da Professora Ramal feita pela Bom Texto Editora: amo livros de capa dura. Deveriam ser mais freqüentes. Há muitos livros muito caros e com péssimo acabamento. Não é a capa que eleva seus preços.

Sergio Y. Vai À América

Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto (2014, Companhia das Letras, 181 p., R$ 37,00) oferece uma leitura bem rápida.
Inclusive porque a própria formatação do livro inseriu muitas páginas apenas com o título dos capítulos, que se iniciam sempre em uma página ímpar – ou seja, há bem menos do que as 181 páginas. Além disso, alguns capítulos constituem-se de um único parágrafo. Evidentemente que se o livro tivesse um número menor de páginas, o preço de venda poderia ser mais baixo, mas não é essa a política da grife dos livros caros, como algumas vezes já comentei.
Como tantos outros livros, tem a característica da lombada que não permite leitura quando o livro é colocado em posição vertical. Por que essa moda entre os editores?

O livro trata a história de um psiquiatra paulistano que tem como um dos pacientes um rapaz de 17 anos, que um ano depois afirma já ter descoberto, na terapia, como deveria se comportar para superar a tristeza crônica que sentia. O jovem muda-se para Nova York, e o psiquiatra, mais tarde, casualmente encontra a mãe dele, que diz que o filho agradece muito por todo o trabalho feito pelo médico. Pouco depois, o médico sabe que o ex-paciente havia sido assassinado, aos 23 anos, em Nova York, e começa a buscar respostas para isso, deparando-se com dúvidas sobre sua própria atuação como profissional que antes não cogitava.

Quase toda a narrativa se desenvolve com o relato do médico sobre a própria terapia e por fatos que envolvem o psiquiatra e outras pessoas que tiveram contato com o ex-paciente, com um total de poucos personagens no livro. Não chega, portanto, a constituir um romance.

Deixando propositadamente algumas dúvidas sobre o trabalho do médico e a real personalidade do paciente, o livro pode ser fàcilmente “digerido” em ocasiões de mente relaxada e de ócio.
O autor desenvolveu um texto bem direto, sem expressões rebuscadas que queiram insinuar intelectualismo ou o uso de expressões da moda. É verdade que a descrição e as razões do assassinato não são muito convincentes. A se lamentar sèriamente foi apenas a escolha da editora.

O louco da minha rua

O louco da minha rua – e outros contos (Waldir Rodrigues Pereira, Editora Ler, 2013, 92p., R$ 12,00) é um pequeno livro escrito por um funcionário público aposentado, redator e copidesque, segundo consta da orelha.

Escrito de forma fácil, aliás, bem escrito, não prende a atenção. Termina como se nunca o tivéssemos lido. Não deixa vestígios de sua leitura.
O autor logo no início diz que o publicou animado pelos amigos. Por isso nunca aceitei qualquer estímulo de “amigos”. Tampouco “críticas” escritas por eles.
Este livro é dispensável. Ainda bem que era barato, comparado com tantos outros que há por aí, de “renomados autores”.

Devo salientar, porém, que gostei muito da capa elaborada por Samuel Tabosa de Castro. Foi o que me chamou a atenção na livraria.

O louco da minha rua

Lombadas de livros

Já repararam como é desagradável em uma biblioteca, livraria, ou mesmo em casa, ter de ficar virando a cabeça de um lado para outro, para acertar a posição das letras das lombadas dos livros?

Certa vez entrei em um sebo, na Rua Teodoro Sampaio, perto do Hospital das Clínicas de São Paulo, onde alguém tinha tido a pachorra de colocar todos na mesma posição.

Não sei porque, mas os diagramadores, artistas gráficos, e outros profissionais da área, até hoje não perceberam como isso é incômodo para o público.

Um chefe que tive me explicou algo bem simples: se a lombada é escrita na vertical, de cima para baixo, o livro mantém a possibilidade de leitura quando ele está na horizontal, sobre qualquer superfície. Nessa  posição, a pessoa pode ver a primeira capa e ler a lombada.

Contudo, alguns “gênios” acreditam que a leitura de baixo para cima é mais fácil (como por exemplo aqueles “picolés” que foram instalados na Avenida Paulista, na década de 1970, por um arquiteto cujo nome obsceno não posso escrever aqui. Japoneses e chineses, por exemplo, escrevem na vertical – mas de cima para baixo.

Sei de povos que escrevem suas línguas da direita para a esquerda, mas nenhum que o faça de baixo para cima. Só os “artistas gráficos” e diagramadores que enviam clientes para as clínicas de ortopedia, para tratamento de torcicolos.