Bélgica

Os Sonâmbulos

Os Sonâmbulos – Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Christopher Clark, Companhia das Letras, 700 p., 2014, R$ 57,90; tradução de Berilo Vargas e Laura Teixeira Motta; revisão de Huendel Viana, Jane Pessoa e Ana Maria Barbosa) é um dos muitos livros que têm sido publicados para o mundo se lembrar de que a Primeira Guerra Mundial ainda não terminou. Tudo o que provocou, com o término do sistema dos impérios do século XIX, continua ainda a se adaptar.

O autor australiano fez uma obra recheada de muita pesquisa, porém tem altos e baixos. Algumas análises trazem novas cores ao estudo da Grande Guerra. Em outras partes, o livro fica recheado de detalhes irrelevantes, e outros são pouco explorados. Há sub-capítulos entediantes.

Destaca a importância de um doentio nacionalismo sérvio como propulsor de crises na região. Fala dos “dois enfermos”: o Império Otomano, e o Império Habsburgo da Áustria-Hungria. Aponta o revanchismo francês contra o Império Alemão, depois da derrota de 1870-71. Mostra a política claudicante do envergonhado Império Russo, espremido na Europa e derrotado na Ásia. Parece pouco se preocupar com as ambições alemãs, e com a instabilidade emocional de um kaiser doente e confuso, em Berlim, nas relações com seus primos que estavam em outros tronos (Londres e São Petersburgo). Deixa às claras o comportamento (sempre) contraditório da Itália e da Romênia, bem como uma “tendência” à traição por parte da Hungria. Não se aprofunda na política britânica daquelas décadas.
O livro fala várias vezes da criação de um possível reino croata dentro do Império Habsburgo, para abrigar os eslavos do sul (iugo-eslavos) e conter a Sérvia, mas sequer menciona que Francisco José (ou Franz Josef, como preferirem) apoiava a criação de um reino na Boêmia, para abrigar os eslavos do norte.

Uma considerável parte do livro, no início, tem grande utilidade, ao apresentar ao leitor a questão balcânica, com reviravoltas tanto internas (o assassinato do rei sérvio e a mudança dinástica em 1903, que passou de uma casa real filo-austríaca, os Obrenovic’, a outra anti-Habsburgos, a dos Karadodjervic’ ), quanto externas (a Primeira e a Segunda Guerras dos Bálcãs – 1912 e 1913), com as alianças se modificando em tão pouco tempo.

O professor barbudinho (na pior acepção da palavra) adorou fazer comparações entre fatos da época e fatos futuros. Estranho, na História um fato costuma se basear no passado anterior, e não no futuro, embora possa vir a ter conseqüências. Por isso, muito mais coerente seria falar mais da Guerra Franco-Prussiana, das revoluções liberais de 1840/1860, do que da Guerra do Vietnã (que ele menciona mais de uma vez), do que a Crise dos Mísseis em Cuba, o episódio Irã-Contras, e outros fatos do tipo.
Se for para incluir eventos futuros em relação à Guerra, foi omitido que o nacionalismo sérvio fanático provocou, no final do século XX alguns dos piores episódios genocidas, sobretudo na Bósnia-Herzegovina. Kossovo só não se tornou outro campo de extermínio porque a comunidade internacional já estava preparada para impedir a reação da Sérvia, na passagem do século XX para o XXI.
Os anarquistas que, em 1898, tinham matado a imperatriz Sissi, não eram relevantes no painel da política européia (e mundial) naquela época? Só o grupo terrorista sérvio Mão Negra existia? (Terrorismo aproveitando-se de idealistas anarquistas, antes, e depois.)
A revolução bolchevista não viu uma faísca explosiva nos problemas da Marinha em Odessa, em 1905?
E a ascensão nazista? Não teve qualquer motivação na derrota alemã de 1918?

Trata o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, por um grupo de terroristas sérvios, como um evento comparável ao do Presidente John Kennedy, por mafiosos americanos. A morte de Kennedy por acaso provocou, além de estarrecimento, alguma guerra?
Concluir o livro comparando a Guerra com um romance policial de Agatha Christie, ainda que negando essa analogia, é indesculpável. Falta de respeito com todos os mortos, civis e militares.
Melhor seria deixar claro que a Guerra foi o resultado de um modelo fracassado de diplomacia, mais preocupado com forma do que com conteúdo das mensagens.

Clark preocupa-se com a sexualidade de alguns personagens. Omite alguns outros componentes, porém. No curto parágrafo em que menciona o caso do Coronel Redl, fala apenas da chantagem que o militar sofria por parte dos russos. Não menciona, porém, que a escolhe do militar homossexual como “bode expiatório” para o governo de Viena baseou-se, também, no fato de que os rutenos eram a minoria menos convulsiva de todas as que compunham o emaranhado de povos do Império.

Muito interessante o sub-capítulo sobre a imprensa e a opinião pública, ao mostrar que a diplomacia, como faz até hoje, aproveita-se de matérias pagas para motivar política externa dos respectivos países, e que recortes de jornais eram o fundamento das “análises”.

O livro apresenta imprecisões, não sei se decorrentes do texto original ou se da tradução brasileira.
Frases com possibilidade de dupla interpretação:
“A pior mácula do governo austríaco na Bósnia-Herzegovina era a deploravelmente baixa taxa de analfabetismo e frequência escolar, pior até que a da Sérvia. “
Altas taxas de analfabetismo são elogiáveis? Ou sempre são deploráveis? Li a frase dos dois modos.

Em outro capítulo, o que quer dizer:
“a dinâmica era diferente, mas análoga”  ?

Existe, mais de uma vez, confusão entre Eslavônia e Eslovênia, no texto e em mapa. A primeira fica a leste da Croácia, próxima da Sérvia e da Hungria, ao passo que a segunda situa-se a oeste da Croácia, vizinha da Itália e da Áustria.
Erro do autor ou da tradução?

Não existe regra para a utilização dos topônimos, Adrianópolis aparece sempre com o nome que foi dado pelos turcos em 1924: Edirne. A mesma confusão ocorre com diversos outros nomes:
Kirk-Kilise / Kirklareli / Lozengrad;
Bitola / Monastir;
Ragusa / Dubrovnik;
Scutari / Shkodër (inclusive há um erro de digitação, com um horrível Scurati no texto).
Salônica ou Tessalônica?
Um pouco de cada.

A mesma confusão vale para antropônimos. Eduardo VII foi sucedido por George V.
A palavra alemã Schloss mais de uma vez aparece no original, sem a correspondente tradução para o português: castelo.
Ah, and last but not least: substantivos terminados em X em português são invariáveis no plural: fênix, ônix, tórax (e por que não também incluir xerox e fax?). Português e inglês não compartilham as mesmas regras.

Dividir para dominar – A partilha da África – 1880-1914

Dividir para dominar – A partilha da África 1880-1914, do historiador holandês H. L. Wesseling (Editora UFRJ – Revan; 462 p. 1998, R$ 45,00) foi um livro que comprei em 1998, em Bagé, e que durante todo esse tempo ficou em uma estante aguardando que eu o lesse.

O livro se divide em capítulos organzados cronológica e geogràficamente:

I – A ocupação da Tunísia e do Egito (1881-1882);

II- O Congo e a criação do Estado Livre (1882-1885);

III – A Alemanha e a Grã-Bretanha na África Oriental (1885-1890);

IV – A França e a Grã-Bretanha na África Ocidental (1890-1898);

V – A longa marcha para Fashoda (Nilo; Etiópia e Somália) (1893-1898);

VI – Bôeres e britânicos na África do Sul (1890-1902);

VII – A partilha do Marrocos (1905-1912).

Na verdade o livro começa a narrar a história desde 1830, quando os franceses anexam a região costeira da Argélia, colônia que seria uma das últimas de todo o continente a conquistar a independência, em 1962. Segue falando da decadência do Império Otomano, que servia de pretexto para os interesses da ocupação européia no Norte da África (Tunísia, Líbia e Egito).

É curioso ver que as conferências de Bruxelas (1876) e de Berlim (1884) tinham como objetivo não assuntos políticos, de retalhar o mapa africano, mas assuntos comerciais nos principais portos e rios do continente. A ocupação do interior veio depois dessas conferências, e terminou por eliminar pelo menos 10 mil (!!!) pequenos estados nativos, regidos por africanos animistas ou sob proteção de sultões muçulmanos.

Várias passagens do livro ocupam-se com a narrativa da biografia de exploradores e políticos que tiveram fama durante os 50 anos em que a África foi mais um dos objetos dos interesses europeus, ao lado da Ásia e da Oceania. Stanley, Brazza, Rhodes, e muitos outros em geral desconhecidos, como Mackinnon, ao lado de líderes africanos como Muhammed Ali, Menelik, e o lider bôer Kruger.

Com relação à segunda guerra dos bôeres, em 1899-1902 (a primeira ocorrera em 1881) destaca-se o número de perdas humanas: 22 mil britânicos e 7 mil boêres, além de cerca de 30 mil afrikanders civis mortos nos campos de concentração (inventados pelos ingleses) e cerca de 13 mil africanos negros que lutavam por um ou outro lado. As duas antigas repúblicas bôeres, somadas, não ultrapassavam 300 mil habitantes. A guerra custou ao Reino Unido 200 milhões de libras esterlinas, que representaram mais de 14% da renda nacional líqüida de 1902. Pode ser considerada a primeira guerra moderna, em termos de movimentação de tropas, e, seguida da guerra russo-japonesa, prenunciaram a I Guerra Mundial.

Muito interessante que os interesses britânicos muitas vezes convergiam com os interesses alemães (e incluíam Portugal, em muitos casos), enquanto que França, Bélgica e Itália formavam outro grupo, muitas vezes com o apoio da Rússia. Já no início do século XX, após a era Bismarck, porém, franceses e britânicos aproximam-se e a Alemanha torna-se potência isolada, ao lado dos agonizantes Império Austro-Húngaro e Império Otomano, que seriam derrotados logo a seguir, na I Guerra Mundial.

A leitura do livro esclarece muitas coisas que ocorreram no cenário político europeu, que seguiam o jogo de interesses do mundo, mas nos quais a África, na verdade, tinha pouca importância. As conseqüências de todos os atos realizados, porém, o autor sugere que fiquem a cargo de estudiosos africanos, dos mesmos 10 mil países que foram fundidos em meia centena.