auto-ajuda

em uma livraria

Estive ontem em uma livraria, dessas grandes, para “gente culta”, de uma rede espalhada por capitais “interessantes”.
Percorri com atenção os diversos corredores e suas muitas estantes.
Vi a preocupação (infantil) de colocar os “colaboradores” para que se obtenha uma disposição bonitinha, falsa feito nota de três reais impressa na Nigéria.
O conteúdo dos livros era digno do saudoso Febeapá.
Olhava nas estantes e só via “baixo-ajuda”, culinária, juvenis e mitologias (relacionadas a seriados de tv), “críticos” do óbvio, muitos livros escritos por sacerdotes, livros de viagens com muitas fotografias…

Quando encontrava algo que tinha valor literário, era sempre uma obra de antes de 1960, com uma encadernação que tentava justificar o preço exorbitante.
Vai que cola…
A maior parte das pessoas que freqüentam essas livrarias não sabem que pela metade do preço pode comprar o mesmo livro em um sebo (com a vantagem de ter sido impresso em uma ortografia que não é para analfabetos).
Não raras vezes, esses mesmos (bons) livros estão em domínio público e podem ser baixados na internet.
Olhei muito.
Até 1960 havia boas obras.
Em 1960 começa um declínio que se aprofunda a cada ano
De 1995 para cá, vinte anos de lixo.
Dos autores estrangeiros, ainda estão presos à famosa anticultura da era hippie, embora ideològicamente presos à URSS do tempo de Stalin.
Dos autores tupinambás, melhor esquecer que rabiscaram alguma coisa no computador…

Comentei depois com alguns amigos, e eles concordaram com minhas observações.
Acrescentaram, ainda, a mão de obra selecionada sem o mesmo esmero de antes. O que importa é mesmo a apresentação, e não o conteúdo.

O Futuro da Humanidade

Emprestaram-me o livro O Futuro da Humanidade, de Augusto Cury, que é “a emocionante história de um médico e um mendigo em busca de um mundo melhor” (Arqueiro, 2005, 252 p.).

A primeira parte, que mostra a importância da filosofia para “humanizar” os médicos, é muito interessante.

A segunda parte, porém, vira um amontado de pieguices, na maioria das vezes recheada de clichês, como o doente judeu que ficou amigo do doente palestino.
O médico que só pensa no remédio.
A enfermeira que se torna uma nazistona e foge dos doentes.

Há partes muito interessantes, como a necessidade de unir psiquiatria e psicologia, mas como ele mesmo coloca, os interesses das duas categorias não se colocam com a mesma disposição. Afinal de contas, os conselhos profissionais (guildas) perderiam poder.

Ele não leva em consideração que 8114% dos estudantes e formados em philosophia estão preocupados com “lutas de classes” e não com a natureza humana.

E acho que não sabe que a pior parte dos hospitais não são os médicos, nem os enfermeiros, nem os seguranças, nem o equipamento, nem os remédios.
São os “voluntários”. Gente que veste um jaleco ou avental e se torna ótóridade, para poder destratar à vontade os pacientes e os acompanhantes.
Isso nem a vã filosofia poderá corrigir.

Ainda não terminei a leitura.

Mas certamente vou ter as mesmas restrições que sempre tive contra esse tipo de livro de baixo-ajuda. Alta ajuda para quem recebe dinheiro com eles e com as palestras decorrentes.

21 de julho de 2017

Parte 2

Concluí a leitura.

De repente o livro adquire novamente fôlego, ao falar da indústria farmacêutica ditando regras na medicina (e nos pacientes e cobaias de tantas novas drogas, por isso mesmo chamadas de drogas), e também quando o personagem principal encontra uma aluna com quem trata a difícil relação entre as diferentes enfermidades ou estados mentais, com destaque na depressão.

Os questionamentos que são feitos nesses dois capítulos são realmente instigantes,

O livro, porém, retoma a pieguice de capítulos anteriores e parte para o clichê da pobre menina milionária, que sofre solidão no palácio em que vive. Parecia uma novela mexicana.

O autor do livro, porém, repete mais de uma vez aquela coisa de “coitadinhas das criancinhas da África”. Não sei se parecia madona ou joão malo jovi.
Sei que todos eles esquecem que o problema da África não é ter pobres, mas, bem o oposto, é ter os mais ultra-arqui-multi-milionários e perenes ditadores do planeta.
Em ordem alfabética: Angola, Burkina, Congo-Brazzaville, Eritréia, Etiópia, Gabão, Guiné,Guiné Equatorial, República Centro-Africana (aquele país que foi do Bokassa), Sudão, Zimbábue, sem contar países que depois da ditadura ficaram ainda piores, desgovernados, como Egito, Líbia e sobretudo Somália.
Certamente devo ter esquecido de alguns outros países africanos, e aqueles cujas ditaduras se fazem por meio da perenização de certos partidos nessas democracias (África do Sul, Botsuana, Congo-Kinshasa, Moçambique, Namíbia, ..).

Nesse bom mocismo do autor, de falar dos coitadinhos no planeta, ele esqueceu de falar dos médicos sem fronteira, aquela ongeira que leva jovens idealistas a curtir boas festas, na África, junto com funcionários internacionais do podre sistema onu.

E por falar em médicos sem fronteira, lembrei dos médicos brasileiros dessa ongice e dos técnicos em medicina que importamos de cuba, pois os nossos jalecos foram cuidar de suas preocupações em outras partes do mundo, enquanto a ditadura cubana emprestou para nós os profissionais de saúde que ficaram faltando.

Ah, e se você acha que ongices são coisas boas, sobretudo na saúde, é bom olhar nos sites e ver quantas cruzes vermelhas aqui na tupinambalândia foram assaltadas, nos últimos meses, por seus dirigentes, sem contar as várias demoníacas casas.
Sem caridade não há saúva-ação, não é mesmo?
Rouba-se de onde surge dinheiro.

A atingir os últimos três capítulos, que narram a festa de casamento, veio aquela sensação ruim de que o livro era apenas um espelho das fantasias de um dos piores canastrões que já houve no cinema:
Robin Williams, aquele chato que estragou tantos filmes “de humor” ou de “sentimento”.
Aquele cara que, apesar do filme Um Amor Além da Vida, não se preocupou em se suicidar (apesar dos desmentidos, um ano depois, da viúva, que arrumou uma desculpa de enfermidade física para o corpo que ela tinha mandado cremar, e naturalmente não pôde ser verificada a alegação da senhora viúva rica).
Excetuado “Babaca quase perfeito”, R. W. sempre foi um péssimo ator que interpretava personagens ainda piores.
Aliás, no filme que mencionei, do babaca quase perfeito, o mérito foi do pessoal da maquilagem, não do ator mais piegas que já surgiu na telona.
Augusto Cury sequer disfarçou a “fonte onde bebeu”, pois a bonita música de good-bye vietnam (what a wonderful world) é repetida vezes no livro.

Bem, parando com digressões, e voltando ao livro, tinha de princípio suspeitado que fosse um livro de alta-ajuda para o autor. A própria capa já insinuava isso.
Após concluir a leitura, fiquei pensando se esse defeito preponderava sobre o restante do conteúdo.
Não, claro que é importante demais que se discuta o papel da “humanização” das “ciências”, o papel dos fármacos, a necessária fusão de cursos universitários.

Não só psiquiatria e psicologia, como abordado pelo médico psiquiatra autor do livro, mas também outras matérias que se necessitam e se rivalizam mùtuamente, como educação física e fisioterapia (e seus apêndices nutricionais), os cursos das chamadas fefechês (história, geografia, ciências sociais e outras similares), arquitetura e engenharia civil, e também os cursos de línguas (o método comparativo entre elas, que exige estudar gramática é muito mais eficaz e duradouro do que a mera decoreba de cools e kuhs nas escolas de idiomas.

Curioso que o médico tão correto e “humano”’ derrapa e demonstra não saber ainda que só existe uma raça de homens: a raça humana, as variações que existem são étnicas.

O autor vendeu mais de 20 milhões de exemplares de seus livros na tupinambalândia. Pois é. Certamente o doutor psiquiatra, que além disso saiu por aí dando palestras e participando de programas de televisão, deve ter recheado muito bem sua conta bancária.
Mas como, os banqueiros não são os malvados corruptos que estavam na festa do casamento retratada no livro?

Como se vê, o livro pode ser resumido em:
faça o que eu digo, e não o que eu faço.
Algo que me parece típico de de médico sedentário que fuma e enche a pança na churrascaria. Já me consultei com uns tantos assim.

22 de julho de 2017.

Budismo sem crenças

Reli Budismo sem crenças – a consciência do despertar, de Stephen Batchelor (Palas Athena, 2005, 161 p., tradução de Carlos Alberto Inada), cumpre a proposta do título: explanar sobre um budismo agnóstico, sem mitos, sem divindades auxiliares. Não trata da história de Sidarta Gautama e da expansão da doutrina budista.

Batchelor, que exerceu o monasticismo tibetano na Índia e depois a linha zen, na Coréia, expõe os conceitos básicos de desligamento do ser humano do mundo de ilusões que o impede de “despertar”.

Aborda, dentre outros, aspectos da angústia, morte, determinação, integridade, transformação, vacuidade, compaixão, liberdade, imaginação.

A escrita não é repleta de termos que dificultam a leitura para leitores leigos, tentando exibir erudição para enganar, e muitas vezes apenas uma página pode ser lida como um todo.

Um livro pequeno, sério, muito mais interessante do que livros auto-ajuda mística que abundam em prateleiras de livrarias e sebos.

Link para versão em inglês, pdf, do livro:
https://terebess.hu/zen/mesterek/Buddhism-Without-Beliefs.pdf

como virar Buda em cinco semanas

Que título longo: como virar Buda em cinco semanas – o caminho mais curto para a serenidade.
Foi assim que Giulio Cesare Giacobbe, Ph.D em psicologia, denominou seu livro (Best Seller, um ramo da editora Record, 2009, tradução de Carlota M. Xavier, 140 p.), escrito como auto-ajuda e auto-convencimento, após a morte do filho de 27 anos.

Fala sobre As Quatro Nobre Verdades e O Nobre Caminho Óctuplo da doutrina budista.
Até aí tudo bem, mas querer convencer o leitor de que o filho morto se tornou um buda, e que fazendo exercícios ràpidamente todos conseguirão fazer o mesmo, é simplesmente ultrapassar os limites do bom-senso.
Compreendo que o autor sinta a perda do filho, mas esse tipo de auto-convencimento se enfraquece quando surge com “fórmulas” para o “método científico” para a “presença da realidade”, no caso, a própria Itália do século XXI.

Admiro muito a filosofia budista, e o Dr. Giacobbe a resumiu bem, de forma, claro.
Não gostei, porém, desse tentativa de encontrar o caminho mais curto para receber uma graninha.
O livro ficou com “cheiro” de charlatanismo.