A Máquina de Fazer Espanhóis

livro007Válter Hugo Mãe não gosta de Letras Maiúsculas. Foi assim que ele escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”.  Sem Maiúsculas e apenas com Vírgulas e Pontos, nada de Interrogações, Exclamações, Travessões ou Aspas.

Assim como eu, porém, posso agora aqui me distrair, ele também deu suas Derrapadas, e todo o Capítulo Cinco conheceu a Utilidade das Letras Maiúsculas, que os Alemães sabem tão bem cultivar quando escrevem os Substantivos. Também o Capítulo Dezassete conhece Letras Maiúsculas, usadas nos Nomes próprios. Por que Policiais e Jogadores de Futebol merecem essa Deferência de Mãe?
Afinal de contas, faz alguns Milênios que deixamos de lado a Escrita Cuneiforme, e passamos a conhecer a Utilidade das Letras Maiúsculas e da Pontuação, embora alguns Portugueses, como Mãe considerem isso supérfluo, copiando o Mestre (dele) josé saramago (sal amargo), tão queridinho de Intelectuais.

A Máquina de Fazer Espanhóis“, (Cosac Naify, 2015, 255 p., R$ 21,00) é um Livro dolorido. Como conclui o Personagem Principal, provoca Angústia.
Em Primeira Pessoa, narra a História de António Jorge da Silva, um Barbeiro aposentado, Octogenário, que é enviado pelos Filhos para uma “Casa de Repouso”, quando enviúva. A Filha resume Toda a Vida do Pai (o Filho mora na Grécia e sequer foi ao Funeral da Mãe), em duas Malas de Roupas, e uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Este Silva passa um Período de Silêncio, revoltado com a Situação, e desejando muito expressar a Necessidade do Luto que sente com a Morte de Laura, com quem vivera 48 Anos.

Alguns Capítulos são marcados pelas Lembranças da Vida deste Silva, durante o Salazarismo, e mesclam-se com as Narrativas do Quotidiano no Asilo, chamado de Feliz Idade, e de cujas Janelas os Internos avistam o Cemitério que fica ao lado.
Os outros Personagens mesclam-se nas Narrativa sobre os Internos, lúcidos ou senis, e sobre o Passado. Encaixa-se aí um tal Ricardo que Silva, do alto de sua sempiterna Covardia, denunciara à Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), trazendo-lhe permanentes Remorsos.Os Internos sucedem-se nas Mortes, algumas Vezes suspeitas e violentas, e nas novas Internações que ocupam as Vagas deixadas, embora alguns Fantasmas desses Moradores rondem a Vida dos que ficaram.
Dentre eles há a Figura de Esteves, um Senhor Centenário, que afirma (falsamente) ter sido Inspiração para que Álvaro de Campos / Fernando Pessoa escrevesse o Poema Tabacaria.

Nas Conversa entre Silva e Esteves, há a Clareza de que o nosso Inimigo é o Corpo, porque o Corpo é que nos ataca. Estamos finalmente perante o mais terrível dos Animais, o nosso próprio Bicho, o Bicho que somos, que decide que é chegado o Momento de começar a desligar-nos os Sentidos e decide como e quando devemos padecer de que Tipo ou Loucura.

Sabem que os Peixes têm uma Memória de Segundos? Aqueles Peixes bonitos que vês dentro dos Aquários pequenos, sabes que têm uma Memória de uns Segundos, três Segundos, assim. É por isso que não ficam loucos dentro daqueles Aquários sem espaço, porque a cada três Segundos estão como num Lugar que nunca viram e podem explorar. Devíamos ser assim. Mas seria uma Pena que não se voltasse a lembrar das Pessoas, como lhe explicou o Enfermeiro.

No final da Vida, Silva percebe que as Histórias bonitas aconteciam por acaso, e ele acabara de aprender que a Vida tem de ser mais à Deriva, mais ao Acaso, porque quem se guarda de Tudo foge de Tudo.

Acredito que este Livro devesse ser Leitura Obrigatória para todas as Pessoas com menos de 40 Anos, para terem uma Visão de que lhes reserva a Vida, o próprio Corpo.
Curiosamente Mãe, como afirma na Nota do Autor, escreveu o Livro pensando no próprio Pai, que não chegou à Terceira Idade, já que morreu de Câncer antes disso.Algum outro Velho, porém, deve tê-lo marcado, para que pudesse perceber, com 39 Anos, quando escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”, que a Vida é muito menos do que se imagina na Juventude e na chamada “Vida Produtiva”.

Como dizia minha Avó Olguinha, viver muito é um Castigo de Deus.
Como dizia minha Tia Rosa, de que adianta estar lúcida, se não posso passear porque os Joelhos não me permitem? se não posso ir a uma Festa porque o Estômago não se sente à Vontade? se não posso fazer uma Visita, porque a Bexiga me atrapalha?

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1 comentário

  1. Li apenas “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe, e gostei bastante. Fiz dois posts sobre esse livro no meu blog, inclusive. Gostaria muito de ler este como próximo, há algo na literatura dele de muito real, muito próximo à humanidade atual.
    Escrevo sobre livros e outras coisinhas também, dê uma passadinha, se desejar:
    http://1pedranocaminho.wordpress.com
    Bjos!

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