La Confrérie des Éveillés

La Confrérie des Éveillés, de Jacques Attali (Livre de Poche – Fayard, 2004, 312 p., 6,5 €), é um romance histórico, que se passa no período entre 1149 e 1165, quando o islamismo vê surgir um grupo de fanáticos que, ao assumir comando político do Norte da África e da Andaluzia, abala a relação de convívio que existia, até então, entre muçulmanos e judeus.

Os personagens principais do livro são “simplesmente” ibn Rash, o Averróis, médico, filósofo e astrônomo árabe (1126-1198), e Moshé ben Maimon, o Maimônides, médico e filósofo judeu (1135-1204), ambos nascido e criados em Córdoba. Época muito importante para o pensamento religioso, ético e filosófico no mundo todo, pois o cristianismo conheceu, no mesmo período Thomas Becket (1120-1170).

Além das cruzadas (e o sultão Saladino – 1137-1198), e das lutas entre os diversos reinos cristãos e emirados muçulmanos na Península Ibérica, a época marca a “redescoberta” de Aristóteles (382-322 a.e.c) como expoente da filosofia clássica grega, e a influência que isso teve em todo o pensamento ocidental, sobretudo na questão entre fé e ciência.

Os “éveillés” (despertos) seriam pessoas espalhadas pelo mundo, desde Cochin (no extremo sul da Índia) até a Península Ibérica. Essas poucas pessoas teriam tido contacto, e conhecido, uma suposta obra de Aristóteles, o Tratado da eternidade absoluta, que seria mantida em segredo pelo grupo, pois poderia causar o desmoronamento das instituições eclesiásticas de todas as religiões, baseadas exclusivamente na fé.
No romance, Maimônides e Averróis fazem parte das pessoas que buscam encontrar traduções escondidas da obra de Aristóteles, para o latim e para o árabe, feitas por Geraldo de Cremona (1114-1187) em Toledo.

As conversas entre Averróis e Maimônides, os debates e também as disputas com grupos das três religiões monoteístas abraâmicas, ocupam boa parte do romance, que prende a atenção por essas comparações. Mostra uma intolerância religiosa crescente, que perdura até hoje, apesar de todos os pensamentos unificadores que poderiam ser encontrados em Aristóteles, que teria se inspirado também na filosofia budista (Buda – 563-483 a.e.c).

O livro prende a atenção, mas requer algum conhecimento prévio sobre os personagens, História, e algumas noções de filosofia e das três religiões abraâmicas. Recomendo a leitura.

A leitura do livro no original em francês não deixa de ser uma oportunidade para comparar o cuidado que têm escritores naquela língua com a riqueza gramatical subjacente em cada frase, algo que lamentàvelmente muitos escritores em língua portuguesa parecem pretender destruir.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s