A Divina Comédia

A Divina Comédia, de Dante Alighieri, Editora Landmark, 2005, 894 p., tradução de Vasco Graça Moura, edição bilíngüe.

Comecei há ler, há algum tempo, A Divina Comédia.
Um dos trabalhos mais comentados e elogiados dos últimos oito séculos.
Dante fez um trabalho e tanto em escrever aquilo tudo.
Solidificou uma língua popular que não existia até então na Itália, compreensível por todos (quase todos, suponho).
O ritmo dos versos não tem nada de rocambolesco, não oferece dificuldade para acompanhar, em italiano ou em português, é bom frisar.

O poema divide-se em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, cada uma com 33 cantos, (além de um de introdução, no Inferno), que são subdivididos em nove círculos, e compõem 14.233 versos, escritos por Dante ao longo de quase 15 anos.
As estrofes mantêm, ao longo dos versos, um ritmo que nada tem de rocambolesco, não oferecem dificuldades para acompanhar, em italiano ou na tradução para o português.
Em várias passagens, Dante criou neologismos, a partir do latim, para inclusive dar um toque de humor ao texto.

O livro está bem montado, traduzido do toscano para o lusitano por Vasco Graça Moura, que por acaso morreu agora em maio.
Muito bem traduzido, cheíssimo de notas de rodapé, para explicar cada detalhe do que se passa naquelas estrofes.
Ao lado da tradução, há uma página com o texto original italiano, que muitas vezes é bem fácil de ler.
Confesso que fiquei com muita inveja do tradutor, pela capacidade dele não apenas de usar as palavras em português, para a poesia, mas por toda a capacidade de minuciar o que havia na intenção do autor toscano em pràticamente cada linha da obra.
Como invejoso pecador, segundo o julgamento de Dante, não irei ao céu.

 

NÃO OBSTANTE,
ainda assim é um livro chato.

Chato por conta da própria história.
Quer falar das fofocas de Florença, conte tudo em um romance!
Faça comentários em revistas ou em blogues!
Não precisa encher de versos e de centenas de personagens da Antigüidade para misturar tudo.
Como diz uma amiga, só mesmo professor de literatura para afirmar que a poesia é anterior à prosa. As pessoas começaram a cantar antes de aprender a falar?

Se fosse escrever a história do mensalão, Dante escolheria Nero para guiá-lo por Brasília, Belo Horizonte e São Paulo, e faria um monte de rodeios para dizer quem era quem, e porque estavam no inferno para pagar pelos pecados que não tinham sido punidos em vida. Não precisa falar do boitatá, da caapora, nem do saci, nem inserir Dom João VI, Joana Beltraneja ou Domitila de Castro, para explicar quais eram os crimes, caramba.

É fofoca demais! ATÉ para o meu gosto.
Já não gosto de poesia, mas o assunto por trás dos versos foi mais chato do que a poesia.
As disputas de poder, que eram contemporâneas a Dante, entre guelfos e gibelinos, a influência da Igreja na vida civil, as rivalidades entre o clero italiano e o clero francês, entre os reis franceses e os sacro-imperadores romano-germânicos, tudo recheado por fatos ou mitos da Antigüidade greco-romana, e questões teológicas judaico-cristãs.
Dante podia ter feito todo o trabalho sem se meter tanto na vida dos outros, de apontar tantos defeitos.
Aposto que ele está no inferno, por conta de ter sido tão enxerido. Fora o fato de ter se dado à petulância de ter sido recebido em audiência por Deus, lui-même.

Quando consegui superar a parte sobre Inferno, até deu para seguir com mais ligeireza (leveza e rapidez) o texto. Tanto o Purgatório como o Paraíso não pareciam tanto ser trama de filme de terror cheio de d-efeitos especiais. Eram mais fluidos, como deveria ser a luz do Paraíso. Só que eu já tinha perdido o interesse…
Ou seja, o Inferno teria sido propositadamente um inferno para ser lido, enquanto o Paraíso daria desejos de sublime ascensão do ser.
Nisso, Dante acertou em cheio com a obra!

Vocês já leram?
O que acharam?

Uma amiga, formada em Letras, comentou que tentou ler há muitos anos, mas não conseguiu ir adiante. Concordou comigo: é chato!
Um amigo respondeu que já tinha lido, todo, e também concordou comigo. O interesse foi mais pelo dialeto toscano que se consolidou no italiano padrão. Afora isso, meu amigo disse que se irritou com a visão dos pecados e os castigos impostos no Inferno. Em todo caso, concluiu, ele ainda tem paciência para ler os clássicos.

Importante: clássico tem de ser lido como clássico, e não como um textículo inventado por uma professora em busca de verbas, para reeditar, para alunos preguiçosos, autores de que ela não gosta.

Clássico por clássico, prosa é quase sempre mais agradável do que poesia, e romances em geral são menos chatos do que um calhamaço para ser declamado em versos.
Em A Divina Comédia, Dante super-dosou personagens e o uso de referências na poesia!
Imagino se fosse obrigatória aos atuais alunos brasileiros a leitura de Inferno! Haveria quebradeira de ônibus e de vitrines nas ruas.

Disse que não gosto de poesias, que sempre prefiro a prosa.
A Divina Comédia, livro que tentei ler, confirmou essa minha predileção. Utilizo a expressão “que tentei ler”, pois confesso que, em muitos cantos, de Purgatório e de Paraíso, preferi ler as notas de rodapé do tradutor, e depois dar uma passada de olhos nos versos. Já tinha perdido o interesse na totalidade da obra. A poesia era excelente, mas o tema subjacente tinha feito minha mente desviar-se para outros assuntos.
Tenho certeza, porém, de que não farei nova tentativa de ler os 100 cantos, não importa qual a edição.

Incoerência de minha parte? Critico os “adaptadores” para a linguagem “funk” se eu mesmo não tive a paciência de ler uma poesia?
Tentei. Tentei e aprendi muita coisa sobre mitologia, a língua portuguesa, o latim, a história do mundo. Não me contentei em chamar “sagacidade” de “ischpertêza”. E não corro atrás de verbas e de fama, une “toute petite” énorme différence.

A quem ainda não teve a experiência, fica o desafio.
Se tiver lido, ou se conseguir ler no futuro, avise-me.

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