Vinte Anos de Crise – 1919-1939

Demorei muito para reler Vinte Anos de Crise, um clássico da ciência política escrito por E. H. Carr  (Edward Hallet Carr) exatamente no início da Segunda Guerra Mundial.

Vinte Anos de Crise (Editora Universidade de Brasília, 2001, 312 p.) tem prefácio do professor Eiiti Sato (o mesmo que fez as notas de rodapé de Utopia, de Morus). O livro tenta explicar porque teorias políticas tão freqüentemente chocam-se com as realidade políticas. Os fracassos internacionalistas pós-Primeira Guerra Mundial conduziram à Segunda Guerra. A Primeira Guerra, muito mal resolvida pelo revanchista Tratado de Versalhes que a França impôs à Alemanha.

O livro, porém, não fala de fatos, e sim de teorias, e o pano de fundo é sempre a defasagem entre utopias, em geral de cunho rousseauniano, e a realidade. Ao contrário da Utopia de Morus, que era uma ditadura imperialista, os devaneios rousseanianos sobre “o bom selvagem” têm contribuído até hoje para grandes perversões políticas. A obsessão “intelectual” de que a realidade tem de se adaptar ao discurso de dirigentes politicos, mesmo que para isso “enfeitem” resultados. Se algo deu errado, a culpa é da realidade, não das idéias, marca do intelectual que sempre culpa o burocrata pelos erros que não admite ter cometido.

Um dos aspectos mais encarados por Carr, no livro, é o da teoria de “harmonia de interesses”, como se fosse possível que o “bem” de um grupo fosse se assimilar ao de outro grupo, bem distinto. A falsa teoria de “soma zero” que conduz à felicidade de todos.

O fracasso do mundo pós-Primeira Guerra em grande parte foi resultado dessa “harmonia”, que internacionalistas como Wilson tentaram impor na Sociedade (ou Liga) das Nações, [que lamentàvelmente ainda perdura com o rótulo de Organização das Nações Unidas, um gigantesco cabide de empregos que existe para si mesmo.]

Carr aponta que o realismo também tem suas muitas limitações, como a tendência a analisar a História com julgamentos morais, sem levar em conta que estes variam de época para época, como se fosse possível, com essa análise, atingir uma “previsão científica” dos acontecimentos políticos.

Interessantes os sub-capítulos em que o autor estuda a convergência entre poder militar na definição política, a separação entre economia e política (contrariando analistas marxistas), e a relação recíproca entre opinião e política, ora uma, ora a outra moldando o todo.  Versa também sobre interesses locais, específicos, em contraposição a interesses genéricos, nacionais. Fala dos tratados e do direito nos assuntos internacionais, que podem facilitar a obtenção de alterações pacíficas.

Noto eu que, infelizmente, passado um século da Primeira Guerra Mundial, o pensamento internacional (e nacional) ainda prefere dar ouvidos a teorias, a utopias, a pensamentos ao estilo de Rousseau, e prefere esconder debaixo do tapete a vasta gama de objetivos que não têm como ser alcançados por meio de gestos de “bondade”. A ditadura do “polìticamente correto” que se instalou nos últimos anos, o “multiculturalismo” que tem gerado mais conflitos do que “harmonia de interesses”, e a manipulação da opinião pública solidificam meu ceticismo.

Só uma curiosidade: en passant, Carr comenta como Mussolini aproveitava idéias de Lênin para iludir a “classe trabalhadora” na Itália dos anos ’20 e ’30. E ainda há quem , hoje em dia, use sem conhecimento o adjetivo “fascista”.
Sobre esse assunto, recordo que vale a pena a leitura de Fascismo de Esquerda, que assombra ao mostrar as semelhanças entre Roosevelt e Hitler na manipulação da opinião pública.

O livro necessitava ter sido passado pelos olhos minuciosos de um bom revisor. São demasiado evidentes erros como uso inapropriado da mesóclise ou do infinitivo pessoal, o uso de advérbios de modo ecoando na mesma frase, e outras coisas que independem da tradução.

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