Padre Sérgio

Padre Sérgio, de Tolstói (Cosac & Naify, 2001, 128 p.), é um livro que, embora escrito em 1890 e publicado pela primeira vez em 1898, e apesar de focar bàsicamente a situação da Rússia tsarista e da igreja ortodoxa, pode sem dificuldade ser lido com relação à miséria, ao misticismo, à manipulação do povo, em tantos diferentes lugares no século XXI.

Um nobre russo, militar de um esquadrão de elite, descobre que sua noiva havia sido noiva do próprio tsar, idolatrado pelo personagem. Profundamente chocado com a atitude dessa mulher a quem ele idealizava conceitos de pureza, abandona a farda e ingressa em um mosteiro. Passa para outros mosteiros, nos quais sempre demonstra uma capacidade de disciplina, de moral, e de conhecimento mais elevados do que os outros religiosos. Torna-se um eremita, que é um dia procurado por uma mulher divorciada da alta sociedade, que havia apostado com seus amigos que seduziria o monge. Ele, em resposta à tentação do diabo disfarçado de mulher, decepa um dos próprios dedos, o que causa profunda alteração psicológica na sedutora, que um ano depois ingressa em um convento, e alardeia a todos a santidade do monge eremita. O poder de cura espalha-se por todo o país, com a instalação de peregrinações até ele, muito bem aproveitadas pela igreja local. No entanto, ele duvida da própria fé, e vê com muitos questionamentos a si mesmo e a situação que vive na igreja. Anos depois, uma jovem consegue romper o celibato do monge, que em resposta foge de sua vida de eremita, em primeiro lugar para procurar uma prima que, na convencional vida de mulher dedicada à família, subsiste em condições muito precárias. Dessa visita torna-se um andarilho, sem rumo, até um dia ser preso por não portar os documentos necessários e ser enviado para um campo particular de trabalhos forçados na Sibéria.

O livro fala ligeiramente da visão política e religiosa de Tolstói, fundamentando a não-violência como resposta adequada às mais diferentes formas de agressão e de opressão, o que seria mais tarde um dos pilares da atividade de Gandhi e de Martin Luther King Jr. Por outro lado, sempre aponta a mulher como o próprio demônio, causador de tormentas que levam à decadência do homem.

Nas últimas páginas do livro, foi inserida a interessante carta que Tolstói enviou ao sínodo russo, após a decisão de excomunhão da igreja ortodoxa, ocorrida em 1901.

Padre Sérgio é de leitura muito fácil, e dá uma boa visão da Rússia do século XIX e dos efeitos da religiosidade imposta por igrejas sobre tantos milhões de pessoas, no século XXI.

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