Nações e Nacionalismo desde 1780

Nações e Nacionalismo desde 1780, Programa, Mito e Realidade, de Eric J. Hobsbwam (Nova Fronteira – Saraiva de Bolso, 2011, 241 p., R$ 14,00), foi escrito com base em conferências proferidas pelo historiador em Belfast (Irlanda do Norte), em 1985.

Como em suas outras obras, o autor enfoca o mito de nações, tão disseminado hoje em dia, e conseqüentes idéias como “patriotismo” e “independência”.

Logo na introdução, Hobsbawm explica que “nação é uma definição subjetiva, seja ela coletiva, seja individual”. Seus critérios mudam de acordo com as oportunidades e conveniências políticas. De um lado, “a palavra “nação” designa pessoas que pertencem a um Estado, mesmo que não falem a mesma língua”, de outro, pode ser utilizada de forma oposta, como “a insistência francesa na uniformidade lingüística, desde a Revolução”, pois adotar o francês era uma das condições da plena cidadania francesa (e, portanto, da nacionalidade). Como os conceitos franceses de “nação” de Ernest Renan foram formulados para opor-se aos conceitos alemães. Os mesmos franceses, por conveniência da nova república, alteraram “nossos ancestrais” de francos para gauleses, passando depois até para conceitos de eugenia. Anteriormente, Alexander Hamilton já tinha formulado formulou o conceito norte-americano de vinculação entre nação, o Estado e a economia. A nação italiana unificada em 1861, por sua vez, tinha uma língua nacional falada diàriamente por apenas 2,5% da população do novo reino, e a língua italiana ainda hoje luta para uniformizar-se, principalmente por conta da comunicação por rádio e televisão.

Muitos exemplos são utilizados no desenvolvimento da palavra “nação”. O uso da palavra “estoniano” ocorrido apenas na década de 1860; a alteração do significado da palavra “saks”(saxão), que antes denominava o “senhor”, o “mestre”, e depois passou a abranger os “alemães”; o conceito de Rússia como uma terra sagrada que tinha um tsar.

Enfatiza que “línguas mais prestigiosas, sagradas ou clássicas eram utilizadas pelas elites minoritárias como um meio perfeitamente prático de comunicação administrativa e intelectual, de debate público e mesmo de composição literária”, fosse na China, na Índia, na Pérsia ou nos países europeus.

Explica que os estereótipos raciais são montados sempre para ilustrar “os outros”, nunca “nós mesmos”. Isso quando, na verdade, havia na Europa muitos poucos Estados-nações genuìnamente homogêneos, com era o caso de Portugal.

Em função de exigências dos Estados, sobretudo em tempos de guerra, criou-se o “patriotismo”, a religião cívica das “nações”, ao mesmo tempo em que se inventaram “tradições”.

Ao decorrer das décadas, foi-se consolidando a pressão da economia, da tecnologia e da política, para tornar essencial uma língua comunicativa falada de massa – novamente reforçada pelas exigências dos meios de comunicação, inclusive o cinema. “Não são os problemas de comunicação, ou mesmo de cultura, que estão no coração do nacionalismo da língua, mas sim os de poder, status, política e ideologia.” Isso era sobretudo importante para que a classe média baixa fosse adquirindo possibilidades de novos empregos e novas colocações nas respectivas sociedades.

Muito interessante Hobsbawm apontar um fato de modo geral pouco conhecido: “Em 1894, Sabino Arana fundou o seu Partido Nacional Basco (PNV), inventando, a propósito, o nome basco para o país (Euskadi) até então inexistente.” O basco foi “ressuscitado” como língua de uso de uma população, tal como aconteceu com o gaélico na Irlanda, e o hebraico em Israel, já que não eram mais línguas conhecidas pela maioria dos moradores das respectivas regiões.

Em países que obtiveram a independência mais recentemente, como a Índia, e a maioria dos países africanos, usar o inglês ou francês era uma forma de que um grupo lingüístico não se submetesse à maioria, o que fez com que elites regionais mantivessem as respectivas preponderâncias locais.

Em locais como a Catalunha, a preferência por uma língua regional interessava aos provincianos, à classe média e aos intelectuais, uma vez que os anarquistas catalães conscientemente só expunham seus manifestos em espanhol.

No período entre as duas Guerras Mundiais, o futebol tornou-se a expressão de luta nacional. Um time com 11 pessoas foi alçado à representação real da Estados, nações ou comunidades imaginadas. O nacionalismo foi ràpidamente explorado pelos regimes fascistas do período.

Mais tarde, “o fato de jovens intelectuais da esquerda “festiva” terem circulado por movimentos de “libertação nacional” forneceu um ímpeto adicional para essa transformação da retórica nacionalista, em função de que os “povos” antiquados foram reclassificados como “colônias” a serem libertadas da exploração capitalista.” Na América Latina, foram intelectuais indigenistas, e não indígenas que sequer sabiam que viviam em determinado Estado, que criaram a necessidade de educação em língua vernácula indígena, até então sem escrita, mesmo que ser monolíngüe seja estar acorrentado. Aí existiu também uma oposição a conceitos religiosos, pois desde a independência, espanhóis e portugueses, indígenas e brancos, de todos “os países da América Latina sentiam-se fiéis filhos de Roma, e não podiam distinguir-se como comunidades por sua religião.”

O livro menciona, igualmente, as comunidades negras dos Estados Unidos, que não pretendem de forma alguma a “independência” de regiões, o que levaria a imensos deslocamentos de populações (como ocorreu em países europeus, depois da Primeira Guerra Mundial). Relata a paranóia política de se decretar, em alguns estados, o inglês como única língua oficial, pois os hispano-americanos não se preocuparam em aprender o inglês para a comunicação no país, ao contrário do que haviam feito anteriormente os imigrantes procedentes da Europa e da Ásia.

Menciona também o caso de que o “patriotismo” dos franco-canadenses do Québec relegou a segundo plano todas as comunidades de língua francesa nas outras províncias, além de ter provocado a perda do status de primeira metrópole que Montréal antes gozava, em detrimento de Ontário.

Hoje em dia,  todos os Estados consideram-se nações, em termos oficiais, mas muitos deles não tem nada em comum com o que o termo “Estado-nação” significa.

Por ter sido escrito em 1985, o autor não podia prever o esfacelamento de toda a União Soviética, embora tenha predito a independência dos três países bálticos. Não imaginou a reunificação alemã, mas previu o desmembramento da Tchecoslováquia. Infelizmente, mencionou que a Iugoslávia poderia vir a se romper, mas não imaginou que o “nacionalismo” iria ali provocar um dos maiores genocídios que já ocorreram na Europa.

Nações e Nacionalismo deveria ser um livro de leitura obrigatória. Ainda mais que R$ 14,00 são de fato um preço bom, praticado pela Saraiva (ao contrário dos romances de uma certa editora de griffe).

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